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	<title>VS COCP - Central de Obras do Cristianismo Primitivo</title>
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	<description>VS COCP - Central de Obras do Cristianismo Primitivo</description>
	<pubDate>Sun, 31 May 2009 14:05:24 +0000</pubDate>
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		<title>BIOGRAFIA DE SANTO IRENEU</title>
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		<pubDate>Sun, 31 May 2009 14:01:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Lima</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Biografias]]></category>

		<category><![CDATA[Doutores da Igreja]]></category>

		<category><![CDATA[Padres Apostólicos]]></category>

		<category><![CDATA[pais da igreja]]></category>

		<category><![CDATA[Patrologia]]></category>

		<category><![CDATA[santo ireneu]]></category>

		<category><![CDATA[santos padres]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Helcion Ribeiro

Fonte: Coleção Patrística, Volume 4, Ed. Paulus.

Poucas, mas significativas, são as informações que se tem sobre santo Ireneu. No XVII ano do imperador roma- no Antonino Vero (177 d.C.), inúmeros cristãos passaram a ser aprisionados em Lião e Viena, na Gália, em decorrência de uma perseguição religiosa. Ao mesmo tempo na Frígia, surgiam os montanistas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h3 id="ctl00_Conteudo_ArticleTitle"><em>Por <span id="ctl00_Conteudo_txtAutor">Helcion Ribeiro</span></em></h3>
<p><em></em></p>
<p><em><span id="ctl00_Conteudo_lblFonte">Fonte: </span><span id="ctl00_Conteudo_txtFonte">Coleção Patrística, Volume 4, Ed. Paulus.</span></em></p>
<p><span id="ctl00_Conteudo_ArticleText"></p>
<p align="justify">Poucas, mas significativas, são as informações que se tem sobre santo Ireneu. No XVII ano do imperador roma- no Antonino Vero (177 d.C.), inúmeros cristãos passaram a ser aprisionados em Lião e Viena, na Gália, em decorrência de uma perseguição religiosa. Ao mesmo tempo na Frígia, surgiam os montanistas (seguidores de Montano), pregando um iminente retorno de Cristo; eles logo passaram a gozar de grande fama por causa das &#8220;maravilhas&#8221; de seus múltiplos carismas e falsas profecias. Contudo, tais profetas passaram a inquietar a Igreja espalhada por todo o império. Os cristãos prisioneiros em Lião, dissen- tindo de tais profetas, escreveram cartas aos irmãos da Ásia e da Frígia, e a Eleutério, o bispo de Roma, visando especificamente pacificar a Igreja.</p>
<p align="justify">&#8220;Estes mártires recomendaram Ireneu ao bispo de Roma e o elogiaram dizendo: &#8220;Novamente te desejamos toda felicidade em Deus e que ela permaneça sempre contigo, pai Eleutério. Demos esta missão a Ireneu, irmão nosso e companheiro, de levar-te estas cartas; digna-te de recebê-lo como um zeloso observador do Testamento de Cristo. Se pensâssemos que a posição de alguém é aquela que o torna justo, imediatamente queremos te apresentá-lo como sacerdote da Igreja, como de fato ele o é&#8221; (cit. por Eusébio, HE, V, 4, 1-2). Tal missão é o único fato datável de sua vida. Todos os outros são os mais possíveis. Costu- ma-se localizar seu nascimento em torno do ano 140, em Esmirna, na Ásia (atual Turquia). Ainda criança, em Esmirna, freqüentou o velho bispo Policarpo (martirizado em 156), que por sua vez fora discípulo do apóstolo João- o que confere a Ireneu o título de &#8220;vir apostolicus&#8221;.</p>
<p align="justify">Na Ásia Menor, Ireneu conheceu são Policarpo. &#8220;Eu te poderia dizer-escreve ele a Florino, um ex-condiscípulo de Policarpo, que apostatara tornando-se valentiniano-o lugar onde o beato Policarpo costumava sentar-se para falar-nos, e como entrava nos argumentos; que tipo de vida tinha, qual o aspecto de sua pessoa, os discursos que fazia ao povo, como nos discorria sobre os íntimos colóquios que tinha com João e com os outros que haviam visto o Senhor, seus milagres e sua doutrina. Tudo isto Policarpo aprendeu com testemunhas oculares do Verbo da Vida e o anunciava em plena harmonia com as Sagradas Escrituras&#8221; (cit. por Eusébio, HE, V, 20, 5-60)</p>
<p align="justify">Tendo voltado de Roma, foi eleito pelo povo bispo de Lião, sucedendo a são Potino, que morrera por maus tratos na prisão aos 90 anos de idade. Entre os anos de 180 e 198 escreveu suas duas obras, atualmente conhecidas. Interveio decisivamente em diversas controvérsias eclesiásticas, cuja mais célebre foi a grande polêmica sobre a data da Páscoa, que opôs as Igrejas da Ásia Menor às outras Igrejas do Ocidente, lideradas pelo papa Vítor (189-199). Diziam os bispos da Ásia -sob a liderança de Policrates, de Éfeso -conservar a data hebraica da festa da Páscoa, adotada por S. João; para as Igrejas ocidentais e algumas do oriente era outra a data celebrada. Em determinado momento o papa avocou a si a decisão, ameaçando com a excomunhão os que não o seguissem: prenunciava-se assim uma calorosa cisão na Igreja. Ireneu escreveu ao papa e aos bispos da Ásia, em nome das Igrejas da Gália; exortava respeitosamente o papa a uma prudência maior e a não tomar medidas radicais. Certamente havia inconvenientes quanto aos costumes inculturados sobre a questão (duração do jejum, tradições quaresmais e pascais, e a própria data); certamente o bispo de Roma tinha direito de pronunciar-se e indicar o caminho da obediência. Entretanto, Ireneu convidava-o a não quebrar a unidade cristã por esta questão disciplinar e secundária, afinal eram ambas tradições vindas dos apóstolos em contextos diversos.</p>
<p align="justify">Pacificados os ânimos, Ireneu -segundo o dizer de Eusébio -fez jus ao significado etimológico de seu nome, cujo radical (irene) significa &#8220;paz&#8221;.</p>
<p align="justify">Segundo Gregório de Tours, na clássica Hist6ria dos Francos, Ireneu como bispo conseguiu reanimar sua Igreja saída da perseguição, tornando-a um foco missionário para toda a Gália.</p>
<p align="justify">Todavia seu mérito histórico maior foi ter identifica- do, estudado e refutado radicalmente o gnosticismo, e com isto estabeceram-se bases e princípios gerais para comba- ter todas as heresias na Igreja.</p>
<p align="justify">Nada se sabe -com certeza -sobre sua morte. Uma tradição tardia -que remonta a são Jerônimo e ao Pseudo-Justino -afirma ter sido ele martirizado por heréticos, depois do ano 200, com uns 70 anos de idade; outra tradição afirma ter ele morrido num massacre geral de cristãos lionenses sob Sétimo Severo (pelo ano 202?). A Igreja o venera como mártir, celebrando-o a 28 de junho.</p>
<p align="justify"><strong>Algumas notas</strong></p>
<p align="justify">-Este asiático, expatriado na Gália, conheceu Roma. Foi ele a unir a tradição da Ásia Menor à tradição romana, que transplantou para Lião. E aí adquire um valor excep- cional seu testemunho situado na confluência do Oriente e do Ocidente.</p>
<p align="justify">-É impressionante a cultura bíblica de Ireneu - que usava a versão dos Setenta -citando praticamente todos os livros bíblicos, com exceção apenas de Ester, Crônicas, Eclesiastes, Cântico dos cânticos, Jó, Abdias e Macabeus (do AT), e Filemon e 2Jo (do NT).</p>
<p align="justify">-Apesar de não ser o seu forte argumentar com textos neotestamentários, cita ele muito particularmente os Atos dos Apóstolos e a carta de Paulo aos Romanos (da qual mantém constantemente também o espírito). Usa alguns textos apócrifos (por exemplo: I Enoque, Ascensão de Isaías, proto-evangelho de Tiago), além de citar alguns textos atribuídos por ele a Jeremias e a Davi, não encontrados no cânon veterotestamentário.</p>
<p align="justify">-Na formação teológica de santo Ireneu estão pre- sentes, não apenas como citação, mas como influência teológica, contributos da tradição apostólica, especial- mente -através de S. Policarpo -de S. João e da escola joanina -sobretudo Pápias -, também Clemente Roma- no, Barnabé, Hermas e o autor da Didaqué. O bispo de Lião é ainda devedor a Teófilo de Antioquia, Melitão de Sardes, Aristão de Pella; conhecia bem Taciano e, provavelmente, Clemente Alexandrino jovem e Atenágoras.</p>
<p align="justify">-É inegável sua preparação clássica, podemos citar Homero e Hesíodo, Píndaro e Estesicoro; conhe- cia as fábulas de Esopo e os dramas de Édipo. Nas teorias gnósticas encontrou paralelos com a doutrina de Tales, Anaximandro, Anaxágoras, mas sobretudo de Platão e Aristóteles. Leu profundamente Justino. Ao estudar os gnósticos em seus textos originais, aprofundou- se em Valentim, Ptolomeu (valentiniano), Marcos, Marcião, Simão, o Mago, e outros menores como Menandro, Saturnino, Basílides, Carpocrates, Cerinto, os ebionitas, os nicolaítas, Cerdão, Taciano, os ofitas, os setitas, os cainitas.</p>
<p align="justify">-Apesar de ser um marco e uma ponte entre o cristianismo das origens e o que se desenvolve a partir do século III (com crescente peso político e organização hierárquica), Ireneu foi aos poucos sendo esquecido a ponto de o bispo de Lião Etério ter escrito ao papa Gregório Magno (590-604) para obter informações sobre a vida e obras de seu ilustre predecessor -do qual conhecia por ouvir dizer provavelmente só o nome e a fama ou uma série de lendas inaceitáveis.</p>
<p align="justify">-Ignorado na Idade Média, Ireneu foi redescoberto no século XVI, quando Erasmo publicou uma edição com os textos principais deAdversus haereses (1526). Demonstração só foi encontrada em 1904, pelo arquimandrita Ter- Mekerttschian.</p>
<p align="justify">-Homem de tradição apostólica, Ireneu tornou-se o primeiro teólogo como guardião fiel dos &#8220;cânones imutá- veis da verdade&#8221; (Ad. haer. I, 9.4). Sem especulações, nem inovações, ele -mestre da tradição -legou um ensino essencialmente tradicional, cujo caráter permanece na teologia ocidental; ao contrário, por exemplo, do legado de Orígenes (também excelente teólogo, bem mais especulativo e criativo e autor de grandioso estudo científico, apesar de algumas vezes prematuro e nem sempre seguro), ou de Tertuliano (de quem procede especialmente a linguagem técnica da teologia).</p>
<p></span></p>
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&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Poucas, mas significativas, são as informações que se tem sobre santo Ireneu. No XVII ano do imperador roma- no Antonino Vero (177 d.C.), inúmeros cristãos passaram a ser aprisionados em Lião e Viena, na Gália, em decorrência de uma perseguição religiosa. Ao mesmo tempo na Frígia, surgiam os montanistas (seguidores de Montano), pregando um iminente retorno de Cristo; eles logo passaram a gozar de grande fama por causa das &amp;#8220;maravilhas&amp;#8221; de seus múltiplos carismas e falsas profecias. Contudo, tais profetas passaram a inquietar a Igreja espalhada por todo o império. Os cristãos prisioneiros em Lião, dissen- tindo de tais profetas, escreveram cartas aos irmãos da Ásia e da Frígia, e a Eleutério, o bispo de Roma, visando especificamente pacificar a Igreja.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;&amp;#8220;Estes mártires recomendaram Ireneu ao bispo de Roma e o elogiaram dizendo: &amp;#8220;Novamente te desejamos toda felicidade em Deus e que ela permaneça sempre contigo, pai Eleutério. Demos esta missão a Ireneu, irmão nosso e companheiro, de levar-te estas cartas; digna-te de recebê-lo como um zeloso observador do Testamento de Cristo. Se pensâssemos que a posição de alguém é aquela que o torna justo, imediatamente queremos te apresentá-lo como sacerdote da Igreja, como de fato ele o é&amp;#8221; (cit. por Eusébio, HE, V, 4, 1-2). Tal missão é o único fato datável de sua vida. Todos os outros são os mais possíveis. Costu- ma-se localizar seu nascimento em torno do ano 140, em Esmirna, na Ásia (atual Turquia). Ainda criança, em Esmirna, freqüentou o velho bispo Policarpo (martirizado em 156), que por sua vez fora discípulo do apóstolo João- o que confere a Ireneu o título de &amp;#8220;vir apostolicus&amp;#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Na Ásia Menor, Ireneu conheceu são Policarpo. &amp;#8220;Eu te poderia dizer-escreve ele a Florino, um ex-condiscípulo de Policarpo, que apostatara tornando-se valentiniano-o lugar onde o beato Policarpo costumava sentar-se para falar-nos, e como entrava nos argumentos; que tipo de vida tinha, qual o aspecto de sua pessoa, os discursos que fazia ao povo, como nos discorria sobre os íntimos colóquios que tinha com João e com os outros que haviam visto o Senhor, seus milagres e sua doutrina. Tudo isto Policarpo aprendeu com testemunhas oculares do Verbo da Vida e o anunciava em plena harmonia com as Sagradas Escrituras&amp;#8221; (cit. por Eusébio, HE, V, 20, 5-60)&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Tendo voltado de Roma, foi eleito pelo povo bispo de Lião, sucedendo a são Potino, que morrera por maus tratos na prisão aos 90 anos de idade. Entre os anos de 180 e 198 escreveu suas duas obras, atualmente conhecidas. Interveio decisivamente em diversas controvérsias eclesiásticas, cuja mais célebre foi a grande polêmica sobre a data da Páscoa, que opôs as Igrejas da Ásia Menor às outras Igrejas do Ocidente, lideradas pelo papa Vítor (189-199). Diziam os bispos da Ásia -sob a liderança de Policrates, de Éfeso -conservar a data hebraica da festa da Páscoa, adotada por S. João; para as Igrejas ocidentais e algumas do oriente era outra a data celebrada. Em determinado momento o papa avocou a si a decisão, ameaçando com a excomunhão os que não o seguissem: prenunciava-se assim uma calorosa cisão na Igreja. Ireneu escreveu ao papa e aos bispos da Ásia, em nome das Igrejas da Gália; exortava respeitosamente o papa a uma prudência maior e a não tomar medidas radicais. Certamente havia inconvenientes quanto aos costumes inculturados sobre a questão (duração do jejum, tradições quaresmais e pascais, e a própria data); certamente o bispo de Roma tinha direito de pronunciar-se e indicar o caminho da obediência. Entretanto, Ireneu convidava-o a não quebrar a unidade cristã por esta questão disciplinar e secundária, afinal eram ambas tradições vindas dos apóstolos em contextos diversos.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Pacificados os ânimos, Ireneu -segundo o dizer de Eusébio -fez jus ao significado etimológico de seu nome, cujo radical (irene) significa &amp;#8220;paz&amp;#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Segundo Gregório de Tours, na clássica Hist6ria dos Francos, Ireneu como bispo conseguiu reanimar sua Igreja saída da perseguição, tornando-a um foco missionário para toda a Gália.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Todavia seu mérito histórico maior foi ter identifica- do, estudado e refutado radicalmente o gnosticismo, e com isto estabeceram-se bases e princípios gerais para comba- ter todas as heresias na Igreja.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Nada se sabe -com certeza -sobre sua morte. Uma tradição tardia -que remonta a são Jerônimo e ao Pseudo-Justino -afirma ter sido ele martirizado por heréticos, depois do ano 200, com uns 70 anos de idade; outra tradição afirma ter ele morrido num massacre geral de cristãos lionenses sob Sétimo Severo (pelo ano 202?). A Igreja o venera como mártir, celebrando-o a 28 de junho.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;strong&gt;Algumas notas&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;-Este asiático, expatriado na Gália, conheceu Roma. Foi ele a unir a tradição da Ásia Menor à tradição romana, que transplantou para Lião. E aí adquire um valor excep- cional seu testemunho situado na confluência do Oriente e do Ocidente.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;-É impressionante a cultura bíblica de Ireneu - que usava a versão dos Setenta -citando praticamente todos os livros bíblicos, com exceção apenas de Ester, Crônicas, Eclesiastes, Cântico dos cânticos, Jó, Abdias e Macabeus (do AT), e Filemon e 2Jo (do NT).&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;-Apesar de não ser o seu forte argumentar com textos neotestamentários, cita ele muito particularmente os Atos dos Apóstolos e a carta de Paulo aos Romanos (da qual mantém constantemente também o espírito). Usa alguns textos apócrifos (por exemplo: I Enoque, Ascensão de Isaías, proto-evangelho de Tiago), além de citar alguns textos atribuídos por ele a Jeremias e a Davi, não encontrados no cânon veterotestamentário.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;-Na formação teológica de santo Ireneu estão pre- sentes, não apenas como citação, mas como influência teológica, contributos da tradição apostólica, especial- mente -através de S. Policarpo -de S. João e da escola joanina -sobretudo Pápias -, também Clemente Roma- no, Barnabé, Hermas e o autor da Didaqué. O bispo de Lião é ainda devedor a Teófilo de Antioquia, Melitão de Sardes, Aristão de Pella; conhecia bem Taciano e, provavelmente, Clemente Alexandrino jovem e Atenágoras.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;-É inegável sua preparação clássica, podemos citar Homero e Hesíodo, Píndaro e Estesicoro; conhe- cia as fábulas de Esopo e os dramas de Édipo. Nas teorias gnósticas encontrou paralelos com a doutrina de Tales, Anaximandro, Anaxágoras, mas sobretudo de Platão e Aristóteles. Leu profundamente Justino. Ao estudar os gnósticos em seus textos originais, aprofundou- se em Valentim, Ptolomeu (valentiniano), Marcos, Marcião, Simão, o Mago, e outros menores como Menandro, Saturnino, Basílides, Carpocrates, Cerinto, os ebionitas, os nicolaítas, Cerdão, Taciano, os ofitas, os setitas, os cainitas.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;-Apesar de ser um marco e uma ponte entre o cristianismo das origens e o que se desenvolve a partir do século III (com crescente peso político e organização hierárquica), Ireneu foi aos poucos sendo esquecido a ponto de o bispo de Lião Etério ter escrito ao papa Gregório Magno (590-604) para obter informações sobre a vida e obras de seu ilustre predecessor -do qual conhecia por ouvir dizer provavelmente só o nome e a fama ou uma série de lendas inaceitáveis.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;-Ignorado na Idade Média, Ireneu foi redescoberto no século XVI, quando Erasmo publicou uma edição com os textos principais deAdversus haereses (1526). Demonstração só foi encontrada em 1904, pelo arquimandrita Ter- Mekerttschian.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;-Homem de tradição apostólica, Ireneu tornou-se o primeiro teólogo como guardião fiel dos &amp;#8220;cânones imutá- veis da verdade&amp;#8221; (Ad. haer. I, 9.4). Sem especulações, nem inovações, ele -mestre da tradição -legou um ensino essencialmente tradicional, cujo caráter permanece na teologia ocidental; ao contrário, por exemplo, do legado de Orígenes (também excelente teólogo, bem mais especulativo e criativo e autor de grandioso estudo científico, apesar de algumas vezes prematuro e nem sempre seguro), ou de Tertuliano (de quem procede especialmente a linguagem técnica da teologia).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
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		</item>
		<item>
		<title>DEMOSTRAÇÃO DA PREGAÇÃO APOSTÓLICA, DE SANTO IRENEU</title>
		<link>http://cocp.veritatis.com.br/index.php/demostracao-da-pregacao-apostolica-de-santo-ireneu/</link>
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		<pubDate>Sun, 31 May 2009 13:53:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Lima</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Por Santo Ireneu de Lião (Séc II)
 
Sobre a Obra
Por Carlos Martins Nabeto
Esta obra, escrita em grego, uma das colunas da teologia patrística, era, há até pouco tempo, apenas conhecida pelo título (v. Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica V,26), até que foi descoberta uma versão armênia em 1904 (publicada em 1907), tornando o magnífico texto novamente [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><em>Por </em><em><a href="http://cocp.veritatis.com.br/index.php/biografia-de-santo-ireneu/">Santo Ireneu de Lião (Séc II)</a></em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Sobre a Obra</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Por Carlos Martins Nabeto</em></p>
<p style="text-align: justify;">Esta obra, escrita em grego, uma das colunas da teologia patrística, era, há até pouco tempo, apenas conhecida pelo título (v. Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica V,26), até que foi descoberta uma versão armênia em 1904 (publicada em 1907), tornando o magnífico texto novamente acessível.</p>
<p style="text-align: justify;">A obra, de certa forma, pode ser dividida em duas grandes partes; na primeira (até o capítulo 41), Ireneu discorre sobre a fé cristã (Deus, Trindade, criação e pecado original, redenção) em oposição à falsa gnose; na segunda parte, segue-se uma argumentação comprobatória do anúncio de Cristo, dirigida aos judeus, tomando por base o Antigo Testamento. Assim, verificam-se as etapas da História da Salvação, expostas com clareza, sem afetações nem digressões.</p>
<p style="text-align: justify;">Digno de destaque é o atestado de elementos teológicos próximos da tradição judaica: a cosmologia angélica dos sete céus, relacionada com os sete dons do Espírito Santo de Is. 11,2 e com a tipologia do candelabro de sete braços (cap. 9); ou a exegese dos querubins e serafins de Is. 6 em referência ao Logos e ao Espírito Santo (cap. 10). Além disso, retrata a atividade missionária dos apóstolos e a vocação dos pagãos (caps. 86-97), concluindo com um apelo à defesa da pregação da verdade contra os hereges e remetendo o destinatário, Marciano, à sua obra mais conhecida: “Contra as Heresias”.</p>
<p style="text-align: justify;">Para elaborar esta obra, Ireneu certamente fez uso de escritos anônimos mais antigos; e, assim, alcança seu objetivo: instruir, argumentar e defender a fé cristã, sem, contudo, se enveredar na polêmica. Com efeito, pode-se dizer que &#8220;Demonstração da Pregação Apostólica&#8221; representa uma obra de lucidez na compreensão da fé, de equilíbrio (em face da mística mórbida da gnose), de atualidade sempre real, graças ao caráter bem fundamental das perspectivas teológicas de Ireneu.</p>
<p style="text-align: justify;">Para tornar ainda mais agradável a leitura, o texto aqui apresentado estará dividido em cinco partes: prólogo, catequese apostólica, demonstração profética, boa nova e conclusão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Bibliografia:</strong></p>
<p style="text-align: justify;">- B. Altaner; A. Stuiber. &#8220;Patrologia&#8221;. Paulinas, 1972.</p>
<p style="text-align: justify;">- J. Liébart. &#8220;Os Padres da Igreja - vol. 1&#8243;. Loyola, 2000.</p>
<p style="text-align: justify;">- C. Moreschino; E. Norelli. &#8220;História da Literatura Cristã Antiga Grega e Latina - vol. 1&#8243;. Loyola, 1996.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Texto</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Tradução de Carlos Martins Nabeto</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>PRÓLOGO (caps. 1-3)</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Ireneu escreve a seu amigo Marciano e lhe promete um compêndio da fé cristã</strong></p>
<p style="text-align: justify;">1. Conheço, querido Marciano, teu empenho em seguir o caminho da piedade, a única via que conduz o homem à vida eterna; alegro-me com isso e peço por ti, para que, conservando pura a fé, fiques grato a Deus, teu Criador. Oxalá pudéssemos estar sempre juntos para nos ajudar mutuamente e cuidar das preocupações da vida terrena mediante a troca contínua de questões proveitosas! Visto que atualmente estamos fisicamente separados um do outro, decidi, dentro das minhas possibilidades, conversar contigo por escrito e te expor brevemente a pregação da verdade para fortalecer a tua fé. O que te envio é uma espécie de recordação sobre os pontos fundamentais, de tal modo que, em poucas páginas, possas encontrar abundante material, reunindo concisamente as linhas fundamentais do corpo de verdade e, com este compêndio, tenhas à mão as provas das realidades divinas. Penso que te será útil não apenas para a tua salvação, mas também para rebateres aos que defendem falsas opiniões e, a quem quiser conhecer, possas expor com segurança o nosso ensino em sua integridade e pureza. Na realidade, para aqueles que enxergam, não há mais que um único caminho ascendente, iluminado pela luz celeste; porém, para aqueles que não enxergam, os caminhos são muitos, sem iluminação e em declive. O primeiro conduz ao reino dos céus e une o homem a Deus; os outros levam à morte e o afastam de Deus. Portanto, para ti e para os que desejam ardentemente Sua salvação, é necessário que caminhem na fé, sem se desviar, com coragem e determinação, para evitar que, por falta de tenacidade e perseverança, se entreguem aos prazeres materiais ou que, errando o caminho, se afastem da reta direção.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O conhecimento da verdade e as boas obras</strong></p>
<p style="text-align: justify;">2. E como o homem é um ser vivente composto de alma e corpo, é necessário e conveniente, assim, que exista em virtude de tais dois elementos. E visto que de um e de outro, dos dois, emanam as quedas, a pureza do corpo está em abster-se e evitar toda coisa inverídica e toda ação injusta, e a pureza da alma está em conservar intacta a fé em Deus, sem acrescentar ou retirar nada dela. Porque a piedade se empalidece e perde seu calor quando se contamina com a impureza do corpo; rompe-se, mancha-se e desintegra-se quando o erro entra na alma. Manter-se-á em sua beleza e em sua justa proporção quando a verdade habitar constantemente na alma e a santidade no corpo. Porém, para que serve conhecer a verdade da Palavra se se profana o corpo e se realizam ações deploráveis? De que serve a santidade do corpo se a verdade não habita na alma? Ambas, pois, se alegram de estarem juntas; estão aliadas e lutam constantemente para levar o homem à presença de Deus. Por isso, diz o Espírito Santo por meio de Davi: &#8220;Ditoso o homem que não caminha no conselho dos ímpios&#8221; (Sal. 1,1), isto é, no conselho dos povos que não conhecem a Deus. De fato, ímpios são aqueles que não adoram Aquele que é, por natureza, Deus. Assim, o Verbo diz a Moisés: &#8220;Eu sou aquele que sou&#8221; (Ex. 3,14). Portanto, os que não adoram Aquele que verdadeiramente é, são ímpios. &#8220;Que tampouco se assenta na cátedra dos cínicos&#8221; (Sal. 1,1). Cínicos são os que, com doutrinas falsas e perversas, não apenas corrompem-se a si mesmos, como também aos demais. A cátedra, de fato, é o símbolo da escola. Assim são os hereges: sentam-se na cátedra dos cínicos e corrompem aos que bebem do veneno das suas doutrinas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A regra da fé: fundamento da verdade e da salvação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">3. Assim, pois, por temer coisa semelhante, devemos manter inalterada a regra da fé e cumprir os mandamentos de Deus, crendo n’Ele, temendo-O como Senhor e amando-O como Pai. Portanto, um comportamento deste estilo é uma conquista da fé, pois, como diz Isaías: &#8220;Se não creres, não compreendereis&#8221; (Is. 7,9). A fé nos é concedida pela verdade, pois a fé se fundamenta na verdade. De fato, cremos o que realmente é e como é; e crendo no que realmente é e como sempre foi, mantemos firme nossa adesão. Pois bem: posto que a fé sustenta nossa salvação, é necessário prestar-lhe muita atenção para obter uma inteligência autêntica da realidade. A fé é que nos faz procurar tudo isso, como nos transmitiu os Presbíteros, discípulos dos apóstolos. Em primeiro lugar, a fé nos convida insistentemente a relembrar que recebemos o batismo para o perdão dos pecados em nome de Deus Pai e em nome de Jesus Cristo, Filho de Deus encarnado, morto e ressuscitado, e [em nome] do Espírito Santo de Deus; que o batismo é o selo da vida eterna, o novo nascimento de Deus, de modo tal que não somos mais filhos de homens mortais, mas do Deus eterno e indefectível; que o Eterno e Indefectível é Deus, acima de todas as criaturas, e que cada coisa, seja qual for a sua espécie, está submetida a Ele; e tudo o que foi a Ele submetido foi por Ele criado. Deus, portanto, não exerce seu poder e soberania sobre o que pertence aos outros, mas sobre o que lhe é próprio. E tudo é de Deus. Com efeito, Deus é onipotente e tudo provém d’Ele.</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>A CATEQUESE APOSTÓLICA (caps. 4-41)</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Deus Criador de todas as coisas</strong></p>
<p style="text-align: justify;">4. Porque é necessário que as coisas criadas tenham por princípio algum grande motivo e o princípio de tudo é Deus, Ele não tem origem em outra coisa, antes, pelo contrário, tudo foi criado por Ele. É, pois, necessário crer, primeiramente, que há um Deus, o Pai, o qual criou e organizou para Si o conjunto dos seres, fez existir o que não existia e conteve no conjunto dos seres o Único incontível. Pois bem: em tal conjunto encontra-se igualmente este nosso mundo e, no mundo, o homem. Logo, pois, este mundo foi criado por Deus.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Deus cria por meio do Verbo e do Espírito</strong></p>
<p style="text-align: justify;">5. Eis aqui a demonstração [desta doutrina]: que há um só Deus, Pai, não criado, invisível, criador do universo; nem acima d’Ele, nem abaixo d’Ele há outro Deus; que Deus é racional e, por isso, todos os seres foram criados por meio do Verbo; e Deus é Espírito e, com o Espírito, dispôs-Lhe tudo, segundo diz o profeta: &#8220;Pela palavra do Senhor, foram estabelecidos os céus, e por obra de seu Espírito, todas as suas potências&#8221; (Sal. 32,6).</p>
<p style="text-align: justify;">Pois bem, já que o Verbo estabelece, isto é, cria e outorga a consistência ao que é, ali onde o Espírito põe em ordem e em forma a múltipla variedade de potências, justa e convenientemente o Verbo é denominado Filho, e o Espírito, Sabedoria de Deus. Com este propósito, o apóstolo Paulo diz: &#8220;Um só Deus Pai, que está acima de tudo, com tudo e em todos nós&#8221; (Ef. 4,6). Porque sobre todas as coisas está o Pai, porém, com tudo está o Verbo, visto que, por seu intermédio, o Pai criou o universo; e em todos nós está o Espírito que clama &#8220;Abbá&#8221; (Pai) e modelou o homem à semelhança de Deus. Assim, pois, o Espírito mostra o Verbo; por sua vez, os profetas anunciaram o Filho de Deus; mas o Verbo leva consigo o Espírito e, assim, é Ele mesmo que comunica aos profetas a mensagem e eleva o homem ao Pai.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os três artigos da fé: Pai, Filho e Espírito Santo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">6. Eis aqui a regra da nossa fé, o fundamento do edifício e a base de nossa conduta: Deus Pai, não criado, ilimitado, invisível, único Deus, criador do universo. Este é o primeiro e principal artigo. O segundo é este: o Verbo de Deus, Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso Senhor, que apareceu aos profetas segundo o desígnio de sua profecia e segundo a economia disposta pelo Pai; por meio d’Ele foi criado o universo. Ademais, no fim dos tempos, para recapitular todas as coisas, fez-se homem entre os homens, visível e tangível, para destruir a morte, para manifestar a vida e restabelecer a comunhão entre Deus e o homem. E como terceiro artigo: o Espírito Santo, por cujo poder os profetas profetizaram, os Padres foram instruídos no que concerne a Deus, os justos foram guiados pelo caminho da justiça e que, no fim dos tempos, foi difundido de um modo novo sobre a humanidade, por toda terra, renovando o homem para Deus.</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>O batismo: novo nascimento em Deus Pai, Filho e Espírito Santo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">7. Por isso, o batismo, nosso novo nascimento, tem lugar por estes três artigos e nos concede renascer de Deus Pai, por meio de seu Filho no Espírito Santo. Porque os portadores do Espírito de Deus são conduzidos ao Verbo, isto é, ao Filho, que é quem os acolhe e os apresenta ao Pai, e o Pai lhes dá a incorruptibilidade. Sem o Espírito Santo é, pois, impossível ver o Verbo de Deus; e sem o Filho, ninguém pode se aproximar do Pai, porque o Filho é o conhecimento do Pai e o conhecimento do Filho se obtém pelo Espírito Santo. Porém, o Filho, segundo a bondade do Pai, dispensa como ministro o Espírito Santo para quem Ele quer e como o Pai quer.</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>Deus Pai bondoso e justo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">8. E se o Pai é denominado, pelo Espírito Santo, Altíssimo, Onipotente e Senhor das potências, é para que possamos conhecer a Deus, ou seja, o criador do céu e da terra e de todo universo, criador dos anjos e dos homens, e Senhor de todos, por meio do qual tudo existe e permanece vivo, misericordioso, compassivo, terníssimo, bom, justo, Deus de todos, dos judeus, dos gentios e dos crentes; porém, dos crentes, é Deus Pai, pois no fim dos tempos permitiu Ele o testamento da adoção filial. Mesmo assim, para os judeus, é Senhor e legislador, porque quando aqueles homens, nos tempos médios, esqueceram-se de Deus, afastando-se e rebelando-se contra Ele, os reconduziu à obediência mediante a Lei pela qual souberam que tinham um Senhor, que é autor, criador e que confere o sopro da vida, a quem devemos cultuar dia e noite. E para os gentios é criador, demiurgo e onipotente. Para todos, sem exceção, é quem dá o alimento e manjar; rei e juiz, porque ninguém escapará do seu juízo, nem judeu, nem gentio, nem nenhum crente pecador, muito menos um anjo. Aqueles que presentemente se negam a crer na sua bondade, experimentam no juízo o seu poder, como diz o santo apóstolo: &#8220;Não reconhecendo que a bondade de Deus te traz à emenda, antes pelo contrário, com a dureza e a impenitência do teu coração, armazenas a ira para o Dia da Ira, quando se revelará o justo juízo de Deus, que pagará a cada um conforme suas obras&#8221; (Rom. 2,4-6). Este é Aquele que na Lei é chamado de &#8220;o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, Deus dos vivos&#8221; (Ex. 3,6). A transcendência e magnitude deste Deus são indescritíveis.</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>Os sete céus, os dons do Espírito e o culto angélico</strong></p>
<p style="text-align: justify;">9. Este mundo é rodeado por sete céus, nos quais habitam inúmeras potências, anjos e arcanjos, que asseguram um culto a Deus todo-poderoso e criador do universo. Não porque tenha necessidade deles, mas para que não estejam, ao menos, sem fazer nada, como inúteis e malditos. Por isso, é múltipla a presença interior do Espírito de Deus e o profeta Isaías a enumera em sete formas de ministério, que descansaram no Filho de Deus, a saber, o Verbo, em sua vinda humana. De fato, disse: &#8220;Sobre Ele pousará o Espírito de Deus, Espírito de sabedoria e inteligência, Espírito de conselho e fortaleza, [Espírito de ciência] e piedade; lhe conquistará o Espírito do temor de Deus&#8221; (Is. 11,2-3). O primeiro céu, pois, a partir do alto, que contém os restantes, é a sabedoria; o segundo é a inteligência; o terceiro é o conselho; o quarto, em linha descendente, é a fortaleza; o quinto é a ciência; o sexto é a piedade; o sétimo, que corresponde ao nosso firmamento, está repleto de temor deste Espírito que ilumina os céus. Daí Moisés adotar o modelo do candelabro de sete braços, que arde ininterruptamente no Santuário. De fato, organizou o culto segundo este esquema celeste, com o que lhe havia apontado o Verbo: &#8220;Te ajustarás ao modelo que te foi mostrado na montanha&#8221; (Ex. 25,40).</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>A glorificação do Pai pelo Filho e pelo Espírito Santo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">10. Este Deus, isto é, o Pai, vem, pois, glorificado por seu Verbo, que é seu Filho para sempre, e pelo Espírito Santo, que é a Sabedoria do Pai de todos. E suas potências, a do Logos e da Sabedoria, chamadas também Querubins e Serafins, glorificam a Deus com voz incessante; e qualquer outra criatura que com Eles está nos céus dá glória a Deus, Pai de todos. Ele, com a Palavra, conferiu a existência ao universo inteiro; e neste universo há também anjos; e a este universo inteiro deu leis, ordenando que cada qual esteja e permaneça em seu seio, sem sair dos limites decretados por Deus, cumprindo cada um o trabalho que lhe foi assinalado.</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>Deus modelou o homem com suas mãos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">11. Deus modelou o homem com suas próprias mãos, tomando o pó mais puro e mais fino da terra e mesclando-o, em medida justa, com sua virtude. Deu àquele plasma sua própria fisionomia, de modo que o homem, ainda que visível, se tornasse imagem de Deus. Porque o homem foi posto na terra modelado conforme a imagem de Deus. E a fim de que pudesse viver, Deus soprou em seu rosto um hálito de vida, de modo que tanto no sopro como na carne plasmada fosse o homem semelhante a Deus. Foi criado por Deus livre e senhor de si, destinado para ser rei de todos os seres do cosmos. Este mundo criado, preparado por Deus antes de formar o homem, foi entregue ao homem como território próprio, com todos os bens que continha.</p>
<p style="text-align: justify;">Neste lugar trabalhavam, cada um segundo suas próprias funções, os servos daquele Deus que criou todas as coisas; e ali mandava o regente e cabeça constituído, chefe de seus co-servos; os servos eram anjos e o regente e cabeça era um arcanjo.</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>O paraíso: lugar de delícias</strong></p>
<p style="text-align: justify;">12. Tendo, pois, constituído o homem dono da terra e de toda coisa existente sobre ela, secretamente o constituiu também dono daqueles que nela tinham ofício de servos. Mesmo assim, estes, isto é, os anjos, encontravam-se na plenitude de suas possibilidades, ainda que o dono, isto é, o homem, fosse ainda pequeno, como criança, e devesse crescer para chegar à maturidade. E a fim de que se alimentasse e desenvolvesse com gozo e alegria, foi-lhe preparado um lugar melhor neste mundo, superior a ele pelo ar, beleza, luz, alimento, plantas, frutos, águas e todas as demais coisas necessárias para a vida. E este lugar teve por nome &#8220;Jardim&#8221; . O Jardim era tão belo e agradável que o Verbo de Deus freqüentemente apresentava-se nele; passeava e se entretinha com o homem, prefigurando o que haveria de se suceder no futuro, isto é, que o Verbo de Deus se faria concidadão do homem, conversaria e habitaria com todos os homens, ensinando-lhes a justiça. Porém, o homem era, todavia, menino e não tinha pleno uso da razão, de forma que foi fácil ao Sedutor enganá-lo.</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>A criação de Eva</strong></p>
<p style="text-align: justify;">13. Então Deus fez comparecer perante a presença de Adão, que passeava pelo Jardim, todos os animais e lhe ordenou que para apontasse nomes para cada um; e o termo que denominou Adão como ser vivente passou a ser seu nome. Decidiu, assim mesmo, criar uma auxiliar para o homem, dizendo: &#8220;Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliar que lhe corresponda&#8221; (Gen. 2,18). Entre todos os viventes não foi encontrado igual auxiliar, agradável e similar a Adão. Deus mesmo inspirou, então, um êxtase a Adão e o fez adormecer. Como o sonho não existia no Jardim, foi inspirado sobre Adão, por vontade de Deus, para fazer uma obra a partir de outra obra. Tomou, então, uma costela de Adão e encheu de carne o vazio criado; e com a costela extraída, fez a mulher e a apresentou para Adão. &#8220;Este, ao vê-la, exclamou: ‘Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Seu nome será mulher, porque foi tirada de seu homem’&#8221; (Gen. 2,23).</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>Adão e Eva em perfeita harmonia</strong></p>
<p style="text-align: justify;">14. E Adão e Eva - pois assim se chamava a mulher - estavam nus e não sentiam vergonha, porque sua mentalidade era inocente e infantil, e não brotavam neles imaginações e pensamentos como os que a concupiscência lança na alma e a paixão que atiça ao mal. De fato, viviam em estado de integridade, conservando sua própria natureza, porque assim lhes foi inspirado pelo sopro de vida quando foram plasmados. Pois bem: ainda que consistente e perseverante aquele sopro, com sua ordem e vigor, não entendiam e concebiam coisas abjetas; por isso, não sentiam vergonha ao beijarem-se e abraçarem-se com a inocência mais infantil.</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>O mandamento de Deus</strong></p>
<p style="text-align: justify;">15. Porém, para que o homem não tivesse pensamentos de soberba e se orgulhasse, como se não tivesse senhor em razão da autoridade que lhe havia sido conferida e da liberdade de acesso a Deus; para que não faltasse e, por complacência, concebesse pensamentos de orgulho contra Deus, foi-lhe dada, por Deus, uma lei a fim de que reconhecesse que tinha para si o Senhor como Senhor de tudo. E Deus lhe impôs algumas regras, de sorte que, se observasse o mandamento de Deus, permaneceria sempre como era, isto é, imortal. Porém, se não o observasse, se faria mortal, destinado a se dissolver na terra de onde fora plasmado. E este era o mandamento: &#8220;De toda árvore que está no interior do Jardim, come e te alimenta. Mas da árvore de onde procede a ciência do bem e do mal, dessa apenas não comerás, pois no dia em que comeres dela, morrerás&#8221; (Gen. 2,16-17).</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>Satanás provoca o pecado, a ruína do homem</strong></p>
<p style="text-align: justify;">16. O homem não cumpriu a ordem, mas desobedeceu a Deus. O anjo o seduziu, zeloso e invejoso pelos numerosos dons que Deus havia concedido ao homem. E ao persuadir a desobediência à ordem divina, [o anjo] provocou sua própria ruína, ao mesmo tempo que tornava o homem pecador. O anjo, convertido assim em chefe e guia do pecado, foi castigado por ofensa a Deus e conseguiu, ao mesmo tempo, que o homem fosse expulso do Jardim. E porque com seu intento se rebelou e apostatou de Deus, foi chamado &#8220;Satanás&#8221;, em hebraico, ou seja, apóstata, mas também é chamado &#8220;diabo&#8221;. Deus amaldiçoou também a serpente, por servir de disfarce ao diabo, maldição esta que alcançou o próprio animal e o anjo escondido nele, Satanás. Quanto ao homem, o expulsou da sua presença; transferindo-o, fez com que habitasse no caminho que conduz ao Jardim, uma vez que o Jardim não comportava o pecador.</p>
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<p style="text-align: justify;">O drama dos filhos de Adão: Caim e Abel</p>
<p style="text-align: justify;">17. Expulsos do Jardim, Adão e sua mulher, Eva, padeceram muitas misérias e viveram neste mundo cheios de tristeza, fadigas e lamentos. Porque o homem trabalhava a terra sob os raios do sol e a terra produzia espinhos e abrolhos, castigo do pecado. Então se cumpriu a palavra da Escritura: &#8220;Adão se uniu à sua mulher; ela concebeu, deu à luz a Caim e, depois, deu à luz a Abel&#8221;. Mas o anjo rebelde, o mesmo que impulsionou o homem à desobediência, que o tornou pecador e causou sua expulsão do Jardim, não contente com o que fizera anteriormente, planejou um novo dano, desta vez sobre os dois irmãos, porque enchendo Caim de seu próprio espírito, o fez fratricida. Assim, morreu Abel, assassinado por seu irmão, como um sinal do futuro, quando alguns seriam perseguidos, atormentados e mortos, e seriam os injustos os que viriam a matar e perseguir os justos. Por isso, Deus encoleralizou-se e amaldiçoou Caim e, desde então, todos os descendentes em linha de sua sucessão foram semelhantes ao seu progenitor. Deus, depois, fez com que Adão tivesse outro filho em substituição de Abel, assassinado.</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>Os Gigantes. O aumento da maldade e a diminuição da justiça</strong></p>
<p style="text-align: justify;">18. A maldade, estendendo-se continuamente, alcançou e inundou a raça humana; somente um pouco da semente de justiça restava nela. Porque, ademais, sobre a terra ocorriam uniões ilegítimas: os anjos fornicaram com as filhas dos homens, que deram à luz filhos que, por sua enorme estatura, foram chamados gigantes. Os anjos, então, deram às suas esposas, como presente, ensinamentos malignos. Ensinaram elas a produzir extratos de flores e plantas, tintas e pinturas, jóias e cosméticos, os zelos e as paixões, a sedução e o atrevimento, os sortilégios da magia e toda classe de adivinhação e idolatria, odiados por Deus. E uma vez desencadeadas todas essas coisas, o mal se expandiu até transbordar e a justiça diminuiu quase a ponto de desaparecer.</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>O dilúvio como juízo de Deus</strong></p>
<p style="text-align: justify;">19. Finalmente, quando veio sobre o mundo o justo juízo de Deus, com o dilúvio na décima geração contada a partir do primeiro homem, apenas Noé foi encontrado justo e, graças à sua própria justiça, foi salvo com sua mulher, seus três filhos e mulheres, juntamente com os animais que Deus ordenou a Noé introduzir em sua arca. Enquanto a destruição ocorria sobre toda a terra, atingindo homens e seres vivos, salvaram-se apenas os que estavam na arca. Os três filhos de Noé eram Sem, Cam e Jafet, e sua estirpe voltou a multiplicar-se novamente. Esta é a origem de todos os que nasceram após o dilúvio.</p>
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<p style="text-align: justify;"><strong>As bênçãos e as maldições na família de Noé</strong></p>
<p style="text-align: justify;">20. Entre os filhos de Noé, um caiu em maldição, enquanto que os outros dois receberam a benção por suas obras. Eis que o mais jovem entre eles, chamado Cam, por ter ironizado seu pai e ser condenado pelo pecado da impiedade por causa do ultraje e ignomínia para com seu pai, atraiu uma maldição que transmitiu para toda a sua descendência. Com efeito, toda a raça que o seguiu tornou-se maldita e neste pecado cresceu e se multiplicou. Por outro lado, Sem e Jafet, seus irmãos, ante sua piedade para com o pai, obtiveram uma bênção. Eis aqui os termos da maldição lançada por Noé sobre Cam: &#8220;Maldito seja este jovem, Cam. Seja ele o servo de seus irmãos&#8221; (Gen. 9,25). Quando atingiu a idade adulta, teve sobre a terra uma posterioridade numerosa como uma floresta, desenvolvendo-se por catorze gerações de descendentes, até que, por ter sido condenada, foi cessada por Deus. De fato, os cananeus, os jeteus, os fereceus, os jeveus, os amorreus, os jebuseus, os guergeseus, os sodomitas, os árabes, os habitantes da Fenícia, todos os egípcios e os líbios descendem de Cam e caíram sob a maldição, a qual se estendeu amplamente sobre os ímpios.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O triunfo das bênçãos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">21. Do mesmo modo como a maldição seguiu seu caminho, a bênção continuou na posterioridade dos que foram abençoados, cada um segundo sua ordem. Em primeiro lugar foi abençoado Sem, com estas palavras: &#8220;Bendito o Senhor Deus de Sem. Seja Cam teu servo&#8221; (Gen. 9,26). Desta bênção resultou que Deus, Senhor do universo, chegou a ser para Sem objeto privilegiado de sua piedade; a bênção se desenvolveu até alcançar Abraão, que, da posterioridade de Sem, chega até a décima-quarta geração segundo a ordem genealógica descendente. E é esta a razão pela qual o Pai, Deus do universo, se compraz em ser chamado &#8220;Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó&#8243; (Ex. 3,6; Mat. 22,32; Mc. 12,26; Luc. 20,37), porque a bênção de Sem chegou a Abraão. Já a bênção de Jafet foi formulada do seguinte modo: &#8220;Que Deus multiplique Jafet e habite na casa de Sem; e Cam seja teu servo&#8221; (Gen. 9,27). Esta bênção floresceu ao final deste período, quando o Senhor se manifestou às nações por seu chamamento - pois Deus multiplicou seu chamamento para elas - e &#8220;toda terra alcançou sua pregação, e suas palavras chegaram até os limites do orbe&#8221; (Sal. 18,5). Multiplicar significa, pois, o chamamento das nações, a saber, a Igreja. E habitar na casa de Sem indica a herança dos patriarcas, por ter Jesus Cristo recebido o direito de primogenitura. Deste modo, segundo a ordem da bênção, cada um recebeu por meio da descendência o fruto da bênção.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A Aliança universal</strong></p>
<p style="text-align: justify;">22. Depois do dilúvio, Deus estabeleceu um pacto de aliança com o mundo inteiro, em particular com todos os animais e com os homens, em virtude do qual não destruiria novamente com outro dilúvio o que refloresce sobre a terra, oferecendo um sinal: &#8220;Quando o céu se cobrir de nuvens, aparecerá nas nuvens um arco e eu me recordarei da aliança e não voltarei a destruir com água tudo o que existe sobre a terra&#8221; (Gen. 9,14-15). E alterou a alimentação dos homens, permitindo-lhes comer carne, pois desde a primeira criatura, Adão, até o dilúvio, os homens alimentavam-se apenas de grãos e frutos de árvores, já que o alimento da carne não lhes era permitido. E como os três filhos de Noé eram o princípio da raça humana, Deus os abençoou para que se multiplicassem e crescessem, dizendo: &#8220;Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e dominai-a. Vos temerão e respeitarão todos os animais e todas as aves do céu. Vos servirão de alimento, da mesma forma como os vegetais. Porém, não comereis carne com sangue, que é sua vida, porque pedirei contas de vosso sangue a qualquer animal e também ao homem. Se alguém derramar o sangue de um homem, outro derramará o seu, porque Deus fez o homem segundo sua imagem&#8221; (Gen. 9,1-6). E a imagem de Deus é o Filho, sob cuja imagem foi feito o homem. Eis aqui porque, nos últimos tempos, se manifestou, para dar a entender que a imagem era semelhante a Si. Depois desta aliança, o gênero humano se multiplicou e se propagou a partir da posterioridade dos três filhos de Noé. &#8220;E havia, então, uma só boca sobre a terra&#8221;, isto é, uma só língua.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A torre de Babel</strong></p>
<p style="text-align: justify;">23. Levantadas as tendas, partiram do Oriente e, em sua peregrinação, chegaram até a extensa planície de Senaar, onde decidiram edificar uma torre. Buscavam com ela chegar até o céu, pretendendo, assim mesmo, deixar sua obra como memorial para as futuras gerações. Construíram o edifício com ladrilhos cozidos e betume; crescia sua audácia e temeridade, e, graças à sua união no mesmo objetivo e uso da mesma língua, o que pretendiam se concretizava. Porém, para que não fosse adiante sua obra, Deus dividiu suas línguas com o objetivo de que não se entendessem. Desta forma, se dispersaram e ocuparam a terra em grupos distintos, segundo suas línguas. Eis aqui as diferenças entre os povos e a diversidade das línguas. De fato, três raças humanas habitavam sobre a terra. Uma delas estava sob o peso da maldição, enquanto que as duas outras restantes eram abençoadas. A bênção desceu primeiro sobre Sem, cujos descendentes habitaram o Oriente e ocuparam o país dos caldeus.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A aliança com Abraão</strong></p>
<p style="text-align: justify;">24. Posteriormente, na décima geração após o dilúvio, se encontra Abraão, que busca a Deus, que o corresponde, por pertencer à bênção de seu antepassado [Sem]. Quando, seguindo o ardente desejo de seu coração, peregrinava pelo mundo perguntando-se onde estava Deus e começou a fraquejar, estando a ponto de desistir da busca, Deus teve piedade daquele que somente O buscava no silêncio. E se manifestou a Abraão, dando-se a conhecer por meio do Verbo, como que por um raio de sol. E, a partir do céu, lhe disse: &#8220;Sai da tua terra, do teu povo e da casa de teu pai; emigra para o país que te indicarei e fixa ali a tua morada&#8221; (Gen. 12,1). Ele confiou na voz celeste e, apesar de ter 70 anos e uma mulher idosa, com ela abandonou a Mesopotâmia e levou consigo Lot, filho de seu finado irmão. Quando chegou à terra que hoje se chama Judéia, habitada então por sete povos descendentes de Cam, Deus lhe apareceu em visão e disse: &#8220;A ti e a tua descendência, nas futuras gerações, te darei esta terra como possessão perpétua&#8221; (Gen. 12,7; 13,15; 17,8; At. 7,25). E acrescentou que a sua descendência andaria errante por um país estrangeiro, no qual seria maltratada, afligida e escravizada ao longo de 400 anos; porém, aquela, na quarta geração, voltaria à terra prometida a Abraão e Deus condenaria o povo que havia escravizado sua posterioridade. E para que Abraão conhecesse a grandeza e esplendor da sua descendência, Deus o fez sair de noite e lhe dirigiu estas palavras: &#8220;Olha para o alto, para o céu, e, se puderes, conta as estrelas do céu. Assim será a tua descendência&#8221; (Gen. 15,15). E Deus, vendo a fé e a firme decisão de seu espírito, atestou, dizendo na Escritura por meio do Espírito Santo: &#8220;Abraão confiou em Deus e foi reputado justo&#8221; (Gen. 15,6) Era incircunciso quando recebeu este atestado; e para que a grandeza da sua fé fosse reconhecida como sinal, deu a circuncisão como &#8220;selo da justiça da fé da incircuncisão&#8221; (Rom. 4,11). Depois disto, segundo a promessa de Deus, da estéril Sara lhe nasceu um filho, Isaac, que circuncidou conforme o pacto que Deus estipulara com ele. De Isaac nasceu Jacó. Desta maneira, a bênção inicial de Sem chegou até Abraão e de Abraão passou para Isaac e Jacó, graças ao assinalamento da herança feita pelo Espírito. Por isso, Deus é denominado &#8220;Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó&#8243; (Ex. 3,6; Mat. 23,32). Jacó, por sua vez, gerou doze filhos, dos quais tomaram nome as doze tribos de Israel.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O mistério da Páscoa</strong></p>
<p style="text-align: justify;">25. Quando a fome afligiu toda a terra e somente o Egito contava com gêneros alimentícios, Jacó emigrou com toda a família para aquele país. O número total de emigrantes ascendia a 75 pessoas e, em 400 anos, chegaram a ser, segundo as predições, 660 mil. Visto que sofriam muitos vexames e opressões em uma cruel escravidão, e gemiam e se lamentavam perante Deus, o Deus de seus pais, Abraão, Isaac e Jacó, [Deus] os tirou do Egito valendo-se de Moisés e Aarão, depois de ter castigado os egípcios com dez pragas, sendo que, na última, mandou um anjo exterminador para matar os primogênitos tanto de homens como de animais. Assim, salvou os filhos de Israel, prefigurando de um modo misterioso a Paixão de Cristo na imolação de um cordeiro imaculado e, com seu sangue, derramado como garantia de imunidade, mandou assinalar as casas dos hebreus. Este mistério recebe o nome de &#8220;Páscoa&#8221;, manancial de liberdade. Dividido o mar Vermelho, conduziu - com toda espécie de cuidados - os filhos de Israel para o deserto, enquanto que os egípcios, que se lançaram em sua perseguição pelo mar, pereceram todos. Este foi o juízo de Deus contra os que injustamente haviam oprimido a estirpe de Abraão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Decálogo entregue a Moisés</strong></p>
<p style="text-align: justify;">26. Moisés, no deserto, recebeu de Deus a lei: o Decálogo, gravado em tábuas de pedra pelo dedo de Deus - o dedo de Deus é o que sai do Pai no Espírito Santo - , os preceitos e os direitos que transmitiu aos filhos de Israel para que observassem. Por ordem de Deus, construiu o tabernáculo do testemunho, construção visível na terra das realidades espirituais e invisíveis do céu, figura da Igreja e representação profética das realidades futuras. Ali colocou os vasos, os altares e a arca na qual depositou as tábuas. Constituiu sacerdotes a Aarão e seus filhos, que descendiam de Levi, conferindo o sacerdócio a toda esta estirpe para exercer o ministério cultual no templo de Deus. E lhes deu a lei levítica que fixa qual a qualidade e conduta que devem adornar os que permanentemente se dedicarão ao serviço do culto no templo de Deus.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A exploração da Terra Prometida e a peregrinação pelo Deserto</strong></p>
<p style="text-align: justify;">27. Quando estavam próximos da Terra Prometida por Deus a Abraão e à sua posterioridade, Moisés escolheu um homem de cada tribo e os enviou em exploração daquela terra, de suas cidades e habitantes. Foi quando Deus lhe revelou o único Nome capaz de salvar os que n’Ele crêem; Moisés mudou o nome de Oséias, filho de Nave, um dos exploradores, para &#8220;Jesus&#8221; [=Josué]. E Moisés os enviou junto com o poder daquele Nome, persuadido de que os acolheria incólumes quando voltassem, por terem sido conduzidos por aquele Nome; o que, de fato, ocorreu. Concluída sua missão de espionagem e exploração, regressaram trazendo um cacho de uvas; porém, algum dos doze exploradores atemorizou e alarmou o povo ao relatar que as cidades eram imensas e fortificadas, e que os homens, filhos dos Titãs, tinham uma estatura gigantesca e estavam preparados para defender suas terras. Ao receber tais notícias, o povo chorou, fraquejando na fé que tinham n’Aquele Deus que os fortalecia e lhes submetia todo o mundo. Murmuraram contra o país, como se não fosse bom, e se por um país de tal natureza mereciam correr algum risco. Porém, entre os doze, Jesus, filho de Nave, e Caleb, filho de Jefoné, rasgaram suas vestes pelo mal cometido e suplicaram ao povo para que não se deixasse abater e desanimar, porque Deus havia posto o país em suas mães e que o mesmo era excelente. Mas como o povo não se convencia e persistia na incredulidade, Deus o desviou e mudou seu itinerário para que se dispersasse, afligindo-o no deserto. E contando um ano para cada dia que os enviados levaram para explorar e inspecionar o país - isto é, 40 dias - Deus reteve [o povo] durante 40 anos no deserto. Nenhum adulto com pleno uso da razão foi julgado digno de entrar no país em razão da incredulidade, exceto Jesus, filho de Nave, e Caleb, filho de Jefoné, que tinham defendido a herança prometida, e as crianças incapazes de distinguir a direita da esquerda. Pouco a pouco, o povo incrédulo chegou ao final e, paulatinamente, pereceu no deserto, castigado justamente por sua incredulidade. As crianças que cresceram nestes 40 anos cobriram as vagas deixadas pelos mortos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Deuteronômio</strong></p>
<p style="text-align: justify;">28. Transcorridos os 40 anos, o povo chegou às proximidades do [rio] Jordão e, reagrupando-se, se alinhou para a batalha de Jericó. Aqui, perante o povo reunido, Moisés invocou a história passada, recordando os grandes feitos de Deus até aquele momento, preparando e dispondo aqueles que tinham crescido no deserto temendo a Deus e observando os mandamentos. Impôs a este [povo] uma nova legislação, acrescentando-a à que já tinha estabelecido anteriormente. Este novo corpo legislativo foi chamado Deuteronômio, isto é, a segunda lei, no qual estão escritas muitas profecias a respeito de nosso Senhor Jesus Cristo, do povo, da vocação dos gentios e do Reino.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A distribuição da terra</strong></p>
<p style="text-align: justify;">29. Quando Moisés estava a ponto de terminar seus dias, Deus lhe disse: &#8220;Sobe ao monte e morre nele, porque não serás tu que entrarás com meu povo na Terra Prometida&#8221;. Segundo a palavra do Senhor, morreu Moisés e lhe sucedeu Jesus, filho de Nave. Este atravessou o Jordão, conduziu o povo à terra prometida e, vencidos e aniquilados os sete povos que a habitavam, a distribuiu ao povo. Ali se encontra Jerusalém, onde reinaram Davi e seu filho Salomão, que construiu o templo em nome de Deus segundo a imagem do tabernáculo feito por Moisés como modelo das realidades celestes e espirituais.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O envio dos profetas</strong></p>
<p style="text-align: justify;">30. Para Jerusalém foram enviados, por Deus, por meio do Espírito Santo, os profetas que aconselhavam o povo e o convertia ao Deus onipotente de seus pais. Como colunas da revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, anunciavam que da estirpe de Davi haveria de florescer o Seu Corpo, para que fosse, segundo a carne, filho de Davi - que era filho de Abraão - em razão de uma extensa cadeia de gerações e, segundo o Espírito, Filho de Deus, preexistente com o Pai, gerado antes da fundação do mundo, e aparecido, como homem, ao mundo inteiro nos últimos tempos. Ele é o Verbo de Deus que &#8220;recapitula em si todas as coisas, as do céu e as da terra&#8221; (Ef. 1,10).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A desobediência e a Encarnação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">31. Uniu, pois, o homem com Deus e operou a comunhão entre Deus e o homem, porque não poderíamos, em absoluto, obter participação alguma na incorruptibilidade se não houvesse vindo [o Verbo] habitar entre nós. Pois se a incorruptibilidade tivesse permanecido invisível e oculta, não nos seria de nenhuma utilidade. Fez-se, pois, visível a fim de que integralmente [isto é, em corpo e alma] recebêssemos uma participação desta incorruptibilidade. E porque todos nós estamos envoltos na criação originária de Adão e estamos vinculados à morte por causa da sua desobediência, era conveniente e justo que, por obra da obediência de quem se fez homem por nós, fossem quebradas as [cadeias] da morte. E porque a morte reinava sobre a carne, era preciso que fosse abolida por meio da carne e que o homem fosse libertado de sua opressão. &#8220;E o Verbo se fez carne&#8221; (Jo. 1,14) para destruir, por meio da carne, o pecado - que, por obra da carne, havia adquirido o poder, o direito de propriedade e domínio - para que não mais existisse entre nós. Por essa razão, nosso Senhor tomou uma corporeidade idêntica à da primeira criatura, para lutar em favor dos primogênitos e vencer em Adão, já que Adão havia nos ferido [de morte].</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Adão e Cristo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">32. Pois bem: de onde provém a essência da primeira criatura? Da vontade e da Sabedoria de Deus e da terra virgem. &#8220;Porque Deus ainda não havia enviado chuva sobre a terra&#8221; - diz a Escritura- &#8220;antes que o homem fosse plasmado e antes que o homem estivesse ali para cultivá-la&#8221; (Gen. 2,5). Desta terra, pois, todavia virgem, Deus tomou o barro e moldou o homem, princípio do gênero humano. Para dar, pois, cumprimento a esse homem, assumiu o Senhor a mesma disposição sua de corporeidade, que nasceu de uma Virgem por vontade e pela Sabedoria de Deus, para manifestar também Ele a identidade de sua corporeidade com a de Adão, e para que se cumprisse o que no princípio havia escrito: &#8220;o homem é imagem e semelhança de Deus&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Eva e Maria</strong></p>
<p style="text-align: justify;">33. E assim como pela obra de uma virgem desobediente foi o homem ferido e, precipitado, morreu, assim também, reanimado o homem por obra de uma Virgem, que obedeceu a Palavra de Deus, recebeu Ele, no homem novamente reavivado, por meio da vida, a Vida. Pois o Senhor veio buscar a ovelha perdida, isto é, o homem que havia se perdido. De onde não fez o Senhor outra carne senão daquela mesma que trouxe origem a Adão e dela conservou a semelhança. Porque era conveniente e justo que Adão fosse recapitulado em Cristo, a fim de que fosse precipitado e submergido o que é mortal na imortalidade, e que Eva fosse recapitulada em Maria, a fim de que uma Virgem, chamada a ser advogada de uma virgem [Eva], descesse e destruísse a desobediência virginal através da obediência virginal. O pecado cometido por causa da árvore foi anulado pela obediência cumprida na árvore, obediência a Deus pela qual o Filho do homem foi elevado na árvore, abolindo a ciência do mal e aportando e presenteando com a ciência do bem. O mal é desobedecer a Deus; o bem, ao contrário, é obedecer [a Ele].</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A crucificação cósmica</strong></p>
<p style="text-align: justify;">34. O Verbo, preanunciando por meio do profeta Isaías os acontecimentos futuros - são profetas porque anunciam o que irá acontecer - se expressa assim: &#8220;Eu não me rebelo, nem me contradigo. Ofereci minhas costas aos açoites e minha face às bofetadas; não furtarei meu rosto à afronta das cuspidas&#8221; (Is. 50,5-6). Assim, pois, pela obediência a que se submeteu até a morte, pendurado no madeiro, destruiu a desobediência antiga cometida na árvore. E como o próprio Verbo onipotente de Deus, em sua condição invisível, está entre nós estendido por todo este universo [visível] e abraça sua largura e sua extensão e sua altura e sua profundidade - pois por intermédio do Verbo de Deus foram dispostas e governadas aqui todas as coisas -, a crucificação [visível] do Filho de Deus teve também lugar nessas [dimensões, antecipadas invisivelmente] na forma da cruz traçada [por Ele] no universo. Ao surgir visivelmente, manifestou a participação deste universo [sensível] em sua crucificação [invisível], a fim de revelar, graças à sua forma visível, sua ação [misteriosa e oculta] sobre o visível, a saber, como é Ele quem ilumina a altura - isto é, o celeste - e contém a profundidade - as regiões subterrâneas - e se estende ao largo, do Oriente até o Ocaso, e governa, como comandante, a região norte e a extensão da Média, e convoca todas as partes e os dispersos para conhecer ao Pai.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O cumprimento da promessa de Abraão</strong></p>
<p style="text-align: justify;">35. Realizou-se, assim, a promessa feita por Deus a Abraão, segundo a qual sua descendência seria como as estrelas do céu. Cristo cumpriu a promessa nascendo de uma Virgem, da estirpe de Abraão, e convertendo em estrelas do mundo os crentes n’Ele e justificando os gentios com Abraão por meio da mesma fé. &#8220;Abraão creu no Senhor e foi reputado por justo&#8221; (Gen. 15,6). Do mesmo modo, também nós somos justificados em virtude da fé em Deus, porque o justo viverá pela fé. A promessa de Abraão não foi feita pelo cumprimento da lei, mas pela fé. De fato, Abraão foi justificado pela fé: &#8220;a lei não foi estabelecida para o justo&#8221; (1Tim. 1,9). De igual forma, também nós não somos justificados pela lei, mas sim pela fé, que foi recebida pelo testemunho da lei e dos profetas, e que nos apresenta o Verbo de Deus.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Cristo, nascido da Virgem, da descendência de Davi</strong></p>
<p style="text-align: justify;">36. E cumpriu o que foi prometido a Davi, pois Deus havia se comprometido a suscitar do fruto de seu seio um Rei eterno, cujo reino não teria fim. Este Rei é Cristo, Filho de Deus, feito filho do homem, isto é, nascido, como fruto, da Virgem descendente de Davi; e se a promessa foi do fruto de seu seio - a saber, um rebento da concepção característica da mulher, e não fruto do homem nem dos rins, como é característico do varão - era para anunciar o que era de único e próprio na produção deste fruto de um seio virginal procedente de Davi, que reina na casa de Davi pelos séculos e cujo reino não conhecerá fim.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A Encarnação: destruição da morte e dom da vida</strong></p>
<p style="text-align: justify;">37. Em tais condições, pois, realizava magnificamente nossa salvação, mantinha as promessas feitas aos patriarcas e abolia a antiga desobediência. O Filho de Deus se fez filho de Davi e filho de Abraão. Para cumprir as promessas e recapitulá-las em Si mesmo, com o fim de restituir-nos à vida, o Verbo de Deus se fez carne pelo ministério da Virgem, a fim de desatar a morte e vivificar o homem, porque nós estávamos presos pelo pecado e destinados a nascer através do regime do pecado e a cair sob o império da morte.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Nascimento, morte e ressurreição de Cristo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">38. Deus Pai, por sua imensa misericórdia, enviou seu Verbo criador, o qual, vindo para nos salvar, esteve nos mesmos lugares, nas mesmas situações e ambientes onde perdemos a vida. E rompeu as correntes que nos faziam prisioneiros. Apareceu sua luz e fez desaparecer as trevas da prisão; santificou nosso nascimento e aboliu a morte, desatando aqueles mesmos laços que nos prendiam. Manifestou a ressurreição, tornando-se pessoalmente o primogênito dos mortos; sua pessoa levantou o homem caído sobre a terra, ao elevar-se às alturas do céu, estabelecendo-se à direita do Pai, como Deus prometera ao profeta que diz: &#8220;Levantarei a tenda de Davi, caída sobre a terra&#8221; (Am. 9,11), isto é, o corpo que provinha de Davi. Nosso Senhor Jesus Cristo cumpriu realmente isto, atuando gloriosamente a nossa salvação, a fim de ressuscitarmos verdadeiramente e nos apresentarmos livres diante do Pai. E se alguém não aceita o seu nascimento a partir de uma virgem, como admitirá sua ressurreição entre os mortos? Porque nada tem de milagroso, estranho e inesperado o que ressuscitou dos mortos sem ter antes nascido; nem sequer podemos falar de ressurreição d’Aquele que veio à existência sem nascer; quem não nasce, com efeito, é imortal; e quem não se submete ao nascimento tampouco estará sujeito à morte. Ora, quem não obteve o princípio humano, como poderá obter seu fim?</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Cristo, primogênito de toda a criação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">39. Sim, pois se não nasceu, tampouco morreu. E se não morreu, tampouco ressuscitou dos mortos. E se não ressuscitou dos mortos, não venceu a Morte, nem destruiu seu império. E se não caiu vencida a Morte, como obterão a vida aqueles que, desde as origens, sucumbiram ao império da Morte? Esses, que negam ao homem a redenção e não crêem que Deus o ressuscitará dos mortos, desprezam também a natividade de nosso Senhor, que por nós se submeteu o Verbo de Deus, fazendo-se carne, a fim de mostrar a ressurreição da carne e ter a primazia sobre todos no céu. Como primogênito da mente do Pai, o Verbo perfeito dirige todas as coisas pessoalmente e legisla sobre a terra; como primogênito da Virgem, é justo, homem santo, piedoso, bom, agradável a Deus, perfeito em tudo e livra do inferno todos os que O seguem; como primogênito dos mortos, é origem e sinal da vida de Deus.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A contínua chamada do Verbo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">40. Assim, pois, o Verbo de Deus ostenta o primado sobre todas as coisas, porque é verdadeiro homem e &#8220;admirável conselheiro e Deus forte&#8221; (Is. 9,6), que chama novamente [com a ressurreição] o homem à comunhão com Deus para que, por intermédio da comunhão com Ele, participemos da incorruptibilidade. O que foi anunciado por Moisés e pelos profetas do Deus altíssimo e onipotente, Pai do universo, origem de tudo, que conversou com Moisés, veio à Judéia, gerado por Deus através do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, era da estirpe de Davi e de Abraão: Jesus, o Ungido de Deus, o que se revelou a Si mesmo, como havia sido predito pelos profetas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A Igreja comunica o espírito de salvação por meio do Batismo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">41. João Batista, o precursor, quando preparava e dispunha o povo para receber o Verbo da vida, fez saber que este era o Cristo, sobre quem o Espírito de Deus havia pousado, unindo com sua carne. Os discípulos e testemunhas de todas as suas boas obras, de seu ensino, de sua Paixão, de sua morte, de sua ressurreição, de sua ascensão ao céu após a ressurreição corporal, isto é, os apóstolos, com o poder do Espírito Santo, foram enviados por Ele para toda terra, convocaram os gentios, ensinaram aos homens o caminho da vida para afastá-los dos ídolos, da fornicação e da avareza, purificaram suas almas e seus corpos com o batismo de água e do Espírito Santo, distribuíram e administraram aos crentes este Espírito que receberam do Senhor. Assim, instituíram e fundaram esta Igreja. Com a fé, a caridade e a esperança, confirmaram a chamada dos gentios que, preanunciada pelos profetas, lhes foi dirigida segundo a misericórdia de Deus, manifestada com seu ministério, acolhendo-os na promessa feita aos patriarcas, isto é, àqueles que creram e amaram a Deus. E aos que vivem em sua santidade, a justiça e a paciência, o Deus de todos outorgará a vida eterna, por meio da ressurreição dos mortos. Graças Àquele que morreu e ressuscitou, Jesus Cristo, a quem [Deus Pai] confiou a realeza sobre todos os seres da terra, a autoridade sobre os vivos e os mortos e o juízo. Os apóstolos, com a palavra da verdade, exortaram os gentios a guardarem seus corpos sem mancha, tendo em vista a ressurreição, e sua alma afastada da corrupção.</p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A DEMOSTRAÇÃO PROFÉTICA (caps. 42-85)</strong></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A obra do Espírito nos fiéis e nos profetas</strong></p>
<p style="text-align: justify;">42. Com efeito, assim devem se comportar os crentes, pelo fato de que neles habita permanentemente o Espírito Santo, dado pelo Senhor no momento do batismo e custodiado por aquele que O recebe, se é que vive na verdade e santidade, na justiça e paciência. De fato, a ressurreição dos crentes é também obra deste Espírito, quando o corpo acolhe novamente a alma e, unida a ela, ressuscita pela força do Espírito Santo, introduzindo-se no reino de Deus. O fruto da bênção de Jafet é manifestado pela Igreja, que chamou os gentios que vivem em contínua obediência, para poder habitar a casa de Sem, segundo a promessa de Deus. Que estas coisas ocorreriam, predisse o Espírito Santo por meio dos profetas, a fim de que todos os que servem a Deus na verdade tenham fé firme sobre elas. Na verdade, todos esses fatos impossíveis à natureza humana e, portanto, pouco críveis aos homens, Deus, através dos profetas, os predisse muito tempo antes - e se realizaram cada um a seu tempo, como se anunciara - para que, pelo fato de terem sido profetizados, mesmo muito tempo antes, conhecêssemos que era Deus e que, desde o princípio, havia preanunciado a nossa salvação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Identidade entre o Verbo e o Filho de Deus, por meio do qual tudo foi feito</strong></p>
<p style="text-align: justify;">43. Devemos crer em Deus porque Ele é verdadeiro em tudo. E crer que um Filho existia em Deus e que existia não só antes da sua aparição sobre o mundo mas também antes que o mundo fosse criado. Moisés foi o primeiro a profetizá-Lo, quando escreveu em hebraico: &#8220;beresit bara elovim basan benowam sament’ares&#8221;. Isto significa: &#8220;No princípio Deus estabeleceu o Filho, logo estabeleceu o céu e a terra&#8221;. O profeta Jeremias O testemunhou quando disse: &#8220;Antes da estrela da manhã te gerar e antes do sol, [é] teu nome&#8221;, isto é, antes da criação do mundo e antes das estrelas criadas com o mundo. Disse, todavia: &#8220;Ditoso Aquele que existia antes de ser homem&#8221;, pois, para Deus, o Filho foi o princípio anterior à criação do mundo, porém, para nós, não existe a partir de agora, isto é, desde que se manifestou. Antes, pois, não existia para nós, porque não O conhecíamos. Por isso, seu discípulo João, explicando-nos quem era o Filho de Deus que estava junto ao Pai antes que o mundo fosse formado e, por sua mediação, tudo foi criado, disse: &#8220;No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava, no princípio, com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele e, sem Ele, nada do que foi feito se faria&#8221; (Jo. 1,1-3). Desta forma, demonstra claramente que todas as coisas foram criadas por meio deste Verbo, o qual desde o princípio estava com o Pai, isto é, seu Filho.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Filho de Deus conversa com Abraão</strong></p>
<p style="text-align: justify;">44. Diz também Moisés que o Filho de Deus se aproximou de Abraão para conversar como ele: &#8220;E Deus apareceu junto aos carvalhos de Mambré, ao meio dia&#8230; E levantando os olhos, viu três homens de pé frente a ele; se prostrou por terra, dizendo: ‘Se realmente encontrei graça aos vossos olhos&#8230;’&#8221; (Gen. 18,1-3). E, em continuação, o que dialogaram entre si. Pois bem, dois dos três eram anjos, mas o terceiro era o Filho de Deus. A Ele também se dirigiu Abraão, ao suplicar-lhe pelos habitantes de Sodoma, para que não fossem exterminados se ao menos fossem encontrados dez justos entre eles. Não obstante a isso, os dois anjos que vieram a Sodoma foram recebidos por Lot. A este respeito diz a Escritura: &#8220;O Senhor fez chover enxofre e fogo provenientes do Senhor, a partir do céu, sobre Sodoma e Gomorra&#8221; (Gen. 19,24). Quer dizer que o Filho, aquele mesmo que conversava com Abraão, sendo &#8220;Senhor&#8221;, recebera o poder de castigar os habitantes de Sodoma, &#8220;do Senhor, a partir do céu&#8221;, do Pai, que é o Senhor do universo. Abraão, pois, era profeta e viu o que se sucederia no futuro, a saber, como o Filho de Deus, sob a forma humana, conversaria com os homens, comeria com eles e logo exerceria o ofício de juiz, pelo fato de ter recebido do Pai, Senhor do universo, a autoridade para castigar os habitantes de Sodoma.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Jacó contempla o Verbo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">45. E também Jacó, quando viajou à Mesopotâmia, sonhou que estava de pé, no alto de uma escada, isto é, no madeiro que fixava a terra ao céu. Pois, por este madeiro, os que crêem n’Ele ascendem ao céu, porque sua paixão é nossa ascensão. Todas as visões deste gênero significam o Filho de Deus que conversa com os homens e está no meio deles. Certamente, não é o Pai do universo, invisível ao mundo e criador de tudo, quem diz: &#8220;O céu é o meu trono e a terra o estrado de meus pés; que casa edificareis para o meu descanso?&#8221; (Is. 66,1-2; At. 7,49), e: &#8220;Quem sustenta a terra em um punho e o céu na palma da mão?&#8221; (Is. 40,12). Não era certamente Ele que estava de pé em um pequeno espaço e conversava com Abraão, mas sim o Verbo de Deus que, sempre presente no meio do gênero humano, nos dava a conhecer antecipadamente o que iria se suceder e instruía os homens sobre as coisas de Deus.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Filho de Deus conversa com Moisés</strong></p>
<p style="text-align: justify;">46. Foi Ele que na sarça ardente conversou com Moisés e disse: &#8220;Tenho visto os sofrimentos do meu povo no Egito e vim libertá-lo&#8221; (Ex. 3,7-8). Ele subia e descia para libertar os oprimidos, arrancando-os do poder dos egípcios, isto é, de toda classe de idolatria e impiedade; salvando-os do mar Vermelho, isto é, libertando-os das turbulências homicidas dos gentios e das águas amargas de suas blasfêmias. Estes acontecimentos eram contínua repetição do que se refere a nós, no sentido de que o Verbo de Deus mostrava, antecipadamente, o que ocorreria no futuro, enquanto que, agora, nos arranca de verdade da servidão cruel dos gentios. E no deserto, fez brotar, com abundância, a partir da pedra, um rio de água. E a pedra era Ele. E produziu fontes potáveis, isto é, a doutrina dos doze apóstolos. E aos recalcitrantes e incrédulos, fez morrer e desaparecer no deserto; e aos que creram n’Ele, feitos meninos para a malícia, os introduziu na herança dos pais, que recebeu e distribuiu, não Moisés, mas Jesus. E mais: nos libertou de Amaleq, estendendo suas mãos, e nos conduziu e elevou ao reino do Pai.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A Unção do Verbo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">47. O Pai, pois, é Senhor e o Filho é Senhor; é Deus o Pai e é Deus o Filho, porque o que nasceu de Deus é Deus. Assim, segundo a essência de seu ser e de seu poder, há um só Deus; porém, ao mesmo tempo, na administração da economia de nossa redenção, Deus aparece como Pai e como Filho. E visto que o Pai do universo é invisível e inacessível aos seres criados, é por meio do Filho que os destinados a aproximarem-se de Deus devem conseguir o acesso ao Pai. Davi, clara e objetivamente, se expressou deste modo a propósito do Pai e do Filho: &#8220;Teu trono, ó Deus, permanece para sempre; tu amas a justiça e detestas a iniqüidade. Por isso, Deus te ungiu com óleo de alegria mais que aos teus companheiros&#8221;. Isto significa que o Filho, enquanto Deus, recebe do Pai, isto é, de Deus, o trono de um reino eterno e o óleo da unção mais que seus companheiros. O óleo da unção é o Espírito Santo com que é ungido, e seus companheiros são os profetas, os justos, os apóstolos e todos os que participam do reino, isto é, seus discípulos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O primado e realeza de Cristo, Sacerdote eterno</strong></p>
<p style="text-align: justify;">48. E também disse Davi: &#8220;Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu faça dos teus inimigos o estrado de teus pés. A partir de Sião, estenderá o Senhor um cetro de poder, dominará em meio aos teus inimigos! Contigo, no princípio, no dia do teu poder, no esplendor dos santos, do seio antes da aurora, te gerei. O Senhor jurou e não se arrependerá. Tu és sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedec e o Senhor está à tua direita. No dia de sua cólera, derrubará os reis, julgará as nações, encherá de ruínas e quebrará as cabeças de muitos sobre a terra. No caminho, beberá da torrente e, por isso, levantará a cabeça&#8221; (Sal. 109,1-7). Por estas palavras, anunciou que veio primeiro à existência, dominou os povos, julgou os homens e os reis, e os que o aborrecem agora e perseguem seu nome, pois esses são seus inimigos. Denominando-lhe &#8220;sacerdote eterno&#8221; de Deus, declara-lhe a imortalidade. Quando disse: &#8220;No caminho, beberá da torrente e, por isso, levantará a cabeça&#8221;, se referia à sua exaltação gloriosa, depois de sua condição humana, de sua humilhação e rejeição.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Filho de Deus rei universal</strong></p>
<p style="text-align: justify;">49. O profeta Isaías, por sua vez, afirma: &#8220;Assim diz o Senhor Deus ao Ungido, meu Senhor, o qual coloquei à minha direita para que O obedeçam as nações&#8221; (Is. 45,1). Quanto à afirmação de que o Filho de Deus é chamado Ungido e rei das nações, significa: de todos os homens. Davi repete que Ele é chamado Filho de Deus e rei de todos, com estas palavras: &#8220;O Senhor me disse: tu és meu Filho. Eu te gerei hoje. Pede e te darei como herança as nações; as darei como propriedade até os confins da terra&#8221; (Sal. 2,7-8). Estas palavras não foram pronunciadas com referência a Davi, pois não governou todas as nações, nem toda terra, mas somente os judeus. É, pois, evidente, que a promessa feita ao Ungido, de reinar sobre toda a terra, se refere ao Filho de Deus, Aquele que o próprio Davi reconhece como seu Senhor quando escreve: &#8220;Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita&#8221; (Sal. 109,1), como nos referimos há pouco. Com efeito, isto significa que o Pai conversa com o Filho, como demonstramos acima, à propósito de Isaías que diz: &#8220;Assim disse o Senhor ao Ungido, meu Senhor: obedeçam-te as nações&#8221;. Idêntica promessa aparece em ambos os profetas: Ele será rei - consequentemente, as palavras de Deus se referem a uma só e mesma pessoa, a saber, Cristo, Filho de Deus. Desde o momento em que Davi disse: &#8220;Disse o Senhor&#8221;, é preciso afirmar que nem Davi nem outro profeta falam por iniciativa própria, pois não é o homem quem profere profecias, mas o Espírito de Deus, o qual, tomando figura e formas semelhantes às pessoas interessadas, falava pelos profetas e discorria ora em nome de Cristo, ora em nome do Pai.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Testemunho dos profetas sobre a preexistência de Cristo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">50. Oportunamente, pois, Cristo afirma, por intermédio de Davi, que o Pai fala com Ele, e, por meio dos profetas, diz Ele mesmo, por conta própria, as demais coisas, como, por exemplo, entre outras que Isaías escreveu: &#8220;E agora, assim fala o Senhor, o que me formou para ser seu servidor desde o seio materno, para fazer que Jacó volte a Ele e que se una a Israel. Serei glorificado aos olhos do Senhor e meu Deus será a minha força&#8230; Ele me disse: ‘Grande coisa será para ti ser chamado de meu servo, para levantar e restabelecer as tribos de Jacó e fazer voltar os afastados de Israel. Te coloquei como luz das gentes, para que a minha salvação alcance até os confins da terra’&#8221; (Is. 49,5-6).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Filho servo do Pai</strong></p>
<p style="text-align: justify;">51. Porque aqui, sobretudo, do colóquio do Pai com o Filho e do fato de que ainda antes de seu nascimento o Pai O fez visível aos homens, deduz-se a preexistência do Filho de Deus. Depois, [também se manifesta], ainda antes de nascer, o que deveria ser homem nascido de humanos, o que Deus formaria do seu seio - isto é, que nasceria do Espírito de Deus -, o que é Senhor de todos os homens e Salvador dos que crêem n’Ele, dos judeus e de todos os homens. &#8220;Israel&#8221;, de fato, é o nome do povo judeu em língua hebraica, nome que provém do patriarca Jacó, que foi o primeiro a ser chamado &#8220;Israel&#8221;; e denomina &#8220;gentios&#8221; a todos os homens. O Filho de Deus chama a Si mesmo &#8220;servo do Pai&#8221;, por causa de sua obediência ao Pai, já que todo filho, ainda aqui entre os homens, é servo do seu pai.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A preexistência à luz da Escritura</strong></p>
<p style="text-align: justify;">52. Cristo, Filho de Deus, existente antes do mundo, estava com o Pai e junto ao Pai, e, ao mesmo tempo, próximo aos homens e em íntima união com eles, rei do universo, pois o Pai lhe submeteu todas as coisas; é Salvador daqueles que crêem n’Ele; tal é a mensagem dos textos da Escritura. Porque não é nossa intenção, nem está, por outro lado, dentro de nossas possibilidades, fazer a relação de todos os textos bíblicos, mas com o auxílio das passagens já citadas, poderás compreender também as outras que falam de maneira semelhante, devendo interpretá-las com a condição de que creias em Cristo e peças a Deus sabedoria e inteligência para compreender tudo o que foi dito pelos profetas.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O sinal profético que anuncia o Messias-Cristo e Jesus-Salvador</strong></p>
<p style="text-align: justify;">53. Que este Cristo, que estava junto ao Pai, deveria encarnar-se, fazer-se homem, submeter-se à geração e ao nascimento de uma Virgem, e viver entre os homens, operando, assim mesmo, o Pai do universo sua encarnação, é o que expressa Isaías: &#8220;Pois o Senhor mesmo vos dará um sinal; eis que uma virgem conceberá e dará à luz a um filho, que chamareis Emanuel; comerá manteiga e mel e, antes de distinguir o mal, escolherá o bem, porque antes que esse menino conheça o bem e o mal, rejeitará o mal para escolher o bem&#8221; (Is. 7,14-16). Apontou que nasceria de uma Virgem; demonstrou que seria verdadeiramente homem pelo fato de comer e chamar-lhe &#8220;menino&#8221;, e até mesmo a designar seu nome, já que este provém do porquê nasceu. Em hebraico, tem um duplo nome: Messias-Cristo e Jesus-Salvador. Estes dois nomes indicam as obras que realizaria. Com efeito, ao receber o nome de Cristo, porque o Pai, por seu intermédio e considerando sua vinda como homem, O ungiu e lhe dispôs todas as coisas; porque foi ungido pelo Espírito de Deus, seu Pai, como afirma, referindo-se a Si mesmo em Isaías: &#8220;O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para levar a boa nova aos pobres&#8221; (Is. 61,1). E o nome de Salvador porque é causa de salvação para todos os que, a partir de então, foram libertados por Ele de toda enfermidade e da morte; para os que viessem a crer n’Ele após estes, também dá a salvação eterna.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Emanuel: Deus conosco</strong></p>
<p style="text-align: justify;">54. Eis aqui por que é chamado de Salvador: Emanuel se traduz por &#8220;Deus conosco&#8221;, ou como expressão de bom desejo formulada pelo profeta, &#8220;Deus está conosco&#8221;. Deste modo, Ele é a interpretação e a revelação da boa nova. Por isso diz: &#8220;Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz a um filho&#8221; (Is. 7,14). E este, que é Deus, tem o destino de estar conosco. E ao mesmo tempo, maravilhado por tal acontecimento, anuncia o que se sucederá, isto é, que Deus estará conosco. E também, com relação ao seu nascimento, o mesmo profeta diz em outra parte: &#8220;Antes que gere a que está em dores e antes que cheguem as dores do parto, dará à luz um menino&#8221; (Is. 66,7). Assim, deu a conhecer o inesperado e inaudito de seu nascimento a partir de uma Virgem. O mesmo profeta diz também: &#8220;Um filho nos nasceu, um menino nos foi dado; e recebeu o nome ‘Admirável Conselheiro’, ‘Deus Forte’&#8221; (Is. 9,6).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Admirável Conselheiro</strong></p>
<p style="text-align: justify;">55. É chamado &#8220;Admirável Conselheiro&#8221;, seja do Pai, seja nosso! Do Pai é indicado pelo fato de que o Pai fez com ele todas as coisas, segundo diz o primeiro livro de Moisés, intitulado &#8220;Gênese&#8221;: &#8220;E disse Deus: façamos o homem à nossa imagem e semelhança&#8221; (Gen. 1,26). Aqui, visivelmente, falou o Pai ao Filho, como Admirável Conselheiro do Pai&#8230; Ele também é nosso conselheiro; fala e não obriga, como Deus, ainda que seja igualmente como o Pai, &#8220;Deus forte&#8221;. Nos aconselha a renunciar à ignorância e receber o conhecimento, aparta-nos do erro para conduzir à verdade, rejeitar a corrupção para possuir a incorruptibilidade.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A paz e seu domínio não terão limites</strong></p>
<p style="text-align: justify;">56. E Isaías diz de novo: &#8220;Quererão ser consumidos pelo fogo, porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, em cujos ombros esteve o poder e é chamado com o nome do anjo do grande conselho. E trará a paz entre os príncipes e também a paz e a salvação para Ele. Grande é o seu domínio e a paz não terá limites sobre o trono de Davi e seu reino, para sustentá-lo e consolidá-lo com a justiça e o direito, a partir de agora e para sempre&#8221; (Is. 9,5-7 [LXX]). Nestes termos é anunciado o nascimento do Filho de Deus e a eternidade do seu reino. Porém, as palavras &#8220;quererão ser consumidos pelo fogo&#8221; (Is. 9,5 [LXX]) são ditas dirigindo-se àqueles que não crêem no Emanuel e lutaram contra Ele. Pois dirão no dia do Juízo: &#8220;Oxalá tivéssemos sido queimados antes do nascimento do Filho de Deus que não ter crido n’Ele após seu nascimento!&#8221;, porque aqueles que morreram antes da manifestação de Cristo têm esperança de obter a salvação no Juízo do Ressuscitado. A esta categoria pertencem todos os que temeram a Deus e morreram na justiça, possuídos pelo Espírito de Deus, como os patriarcas, os profetas e os justos. Mas para aqueles que após a manifestação de Cristo não creram n’Ele, será inexorável a reivindicação em juízo. Quanto à expressão &#8220;em cujos ombros estiveram o poder&#8221; (Is. 9,6), designa-se alegoricamente a cruz, na qual teve pregados seus braços, porque a cruz, que era e é opróbrio para Ele - e para nós, em razão d’Ele - essa mesma cruz é, dizemos, seu poder, a saber, o sinal de sua realeza. É chamado &#8220;anjo do grande conselho&#8221; d’Aquele Pai que Ele nos revelou.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O esperado das nações</strong></p>
<p style="text-align: justify;">57. Por tudo o que foi dito e exposto, com a ajuda dos profetas, está claro que o Filho de Deus deveria nascer, a maneira como deveria nascer e como se daria a conhecer como Cristo. Inclusive, foi predito em qual país e entre quais homens deveria nascer e dar-se a conhecer. Assim o dá a entender Moisés, na Gênese: &#8220;Não faltará um príncipe a Judá, nem um chefe de sua estirpe, até que venha Aquele a quem está reservado; e Ele será esperado pelo povo, lavará no vinho sua vestimenta e no produto da uva o seu manto&#8221; (Gen. 49, 10-11). Porém, Judá, filho de Jacó, é o antepassado dos judeus, de quem estes tomaram seus nomes. Até a vinda de Cristo, não lhes faltou nem príncipe, nem chefe. Porém, depois da sua vinda, foram-lhes retiradas as armas e o país dos judeus foi submetido pelos romanos e não mais voltou a ter um príncipe ou rei próprio, já que havia vindo Aquele a quem está reservado o reino do céu, Aquele que lavou &#8220;sua vestimenta no vinho e no produto da uva&#8221;. Sua vestimenta, igual ao manto, são aqueles que crêem n’Ele, a quem Ele também purificou, com seu sangue. E Seu sangue se diz &#8220;de uva&#8221; porque assim como não é produto do homem o produto da uva (mas de Deus, que faz com que se alegrem aqueles que dele bebem), de igual forma Seu corpo e Seu sangue não são obra do homem, mas de Deus. O próprio Senhor deu o sinal da Virgem, isto é, o Emanuel nascido da Virgem, e alegra os ânimos de quem o bebe, isto é, daqueles que recebem seu Espírito, alegria eterna. Por isso, também é esperado pelo povo, para aqueles que esperam n’Ele; também nós esperamos d’Ele a restauração do reino.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A estrela de Jacó</strong></p>
<p style="text-align: justify;">58. E Moisés, quando escreve novamente: &#8220;Se levantará uma estrela de Jacó e um chefe surgirá de Israel&#8221; (Núm. 24,17), anuncia explicitamente que a economia de Sua encarnação se realizará entre os hebreus e que Aquele que desceu do céu e nasceu de Jacó e da estirpe judaica se submeteu a esta economia. Porque uma estrela apareceu no céu e se se chama chefe a um rei é porque este é o rei de todos os salvos. Por outro lado, esta estrela apareceu, quando de Seu nascimento, aos magos que habitavam no Oriente e, por seu intermédio, tomaram conhecimento do nascimento de Cristo. Guiados pela estrela, vieram à Judéia, até que a estrela chegou em Belém, onde tinha nascido Cristo, e, entrando na casa onde o menino estava envolto em panos, se deteve sobre sua cabeça, indicando aos magos o Filho de Deus, Cristo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O broto de Jessé</strong></p>
<p style="text-align: justify;">59. E o mesmo Isaías diz uma vez mais: &#8220;Sairá um broto do tronco de Jessé e de sua raiz brotará uma flor. Sobre Ele pousará o Espírito de Deus, espírito de sabedoria e inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de piedade. O espírito o encherá de temor de Deus. Não julgará apenas pela opinião, nem acusará somente pelos rumores, mas julgará a causa do humilde e terá piedade dos humildes da terra. Castigará a terra com a palavra da sua boca, executará o ímpio com o sopro dos seus lábios. A justiça será o cinturão de seu lombo e a lealdade o cinturão de seus rins. Pastará o lobo com o cordeiro, o leopardo com o cabrito, o novilho e o leão pastarão juntos&#8230; A criança colocará a mão na boca da áspide e na toca das víboras e não lhe causarão dano. Naquele dia sucederá&#8230; A raiz de Jessé é aquele que se verga para exercer o poder sobre as nações e estas a Ele buscaram; e sua ressurreição será gloriosa&#8221; (Is. 11,1-10). Com estas palavras, quer dizer que nascerá daquela que descende de Davi e de Abraão. Efetivamente, Jessé descendia de Abraão e era pai de Davi. Deste modo, a Virgem, que concebeu a Cristo era o broto. Por isso, Moisés fazia seus prodígios perante o faraó, servindo-se de um bastão. Entre os homens, o bastão é símbolo de poder. Chama &#8220;flor&#8221; ao seu corpo, que floresceu sob a ação do Espírito, como já indicamos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Justo Juiz</strong></p>
<p style="text-align: justify;">60. Quanto a: &#8220;Não julgará somente pela opinião, nem acusará somente pelos rumores, mas julgará a causa do humilde e terá piedade do humilde da terra&#8221; (Is. 11,3-4), dá a entender, com maior firmeza, sua divindade. Pois julgar imparcialmente e sem acepção de pessoas, sem honrar o ilustre e outorgando ao pobre o que merece em eqüidade e igualdade é conforme à suprema e celeste justiça de Deus. Deus, com efeito, não se deixa influenciar por ninguém, e só se compadece do justo. E fazer misericórdia é próprio e peculiar daquele Deus que pode, assim mesmo, salvar em virtude da sua misericórdia. E &#8220;ferirá a terra com uma palavra e destruirá o ímpio com uma só palavra&#8221; (Is. 11,4) é próprio de Deus que faz todas as coisas com seu Verbo. Quando disse: &#8220;A justiça será o cinturão de seu lobo e a verdade cinturão de seus rins&#8221; (Is. 11,5), anuncia sua forma externa humana e sua verdadeira e suprema justiça.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A concordância e a paz universal</strong></p>
<p style="text-align: justify;">61. Quanto ao entendimento, a concórdia e a paz entre os animais de espécies diferentes e que, por natureza, são contrários e hostis uns aos outros, ensinam os Presbíteros que assim será verdadeiramente quando da vinda de Cristo, no tempo que deverá pessoalmente reinar sobre todas as coisas. Pois já [aqui], simbolicamente, dá a conhecer que os homens de raças diferentes, mas de costumes semelhantes, se juntarão na concórdia e paz, graças ao nome de Cristo; porque os justos [unidos], vistos que comparados aos novilhos, cordeiros, cabritos e crianças pequenas, não sofrerão dano por parte de ninguém que, em época anterior, eram - homens e mulheres - bestas ferozes, em razão de sua cobiça, por formas e costumes, a ponto de alguns se assemelharem a lobos ou leões; ou despojavam dos bens os mais pobres e empreendiam guerra contra seus semelhantes; ou mulheres que eram como leopardos e víboras, quando, recorrendo a venenos mortais, entregavam à morte seus próprios amantes, ou os arrastavam em paixões&#8230; Reunidos sob um só nome, passarão a ter costumes justos, pela graça de Deus, mudando sua natureza selvagem e feroz. Isso já ocorreu, pois os que antes eram extremamente cruéis, a ponto de não retroceder em nenhum ato ímpio, uma vez instruídos sobre Cristo e acreditando n’Ele, têm testemunhado a fé e mudado a ponto de não retrocederem perante nenhum excesso de justiça. Grande é a mudança que a fé em Cristo, Filho de Deus, opera naqueles que crêem n’Ele. E se diz: &#8220;Se levantou para governar os gentios&#8221; (Is. 11,10), é porque, uma vez morto, ressuscitará e será confessado e aceito por Filho de Deus, rei. Por isso, diz: &#8220;E sua ressurreição será gloriosa&#8221; (Is. 11,10), isto é, magnífica, porque no momento em que ressuscitou foi glorificado como Deus.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A tenda de Davi e o corpo de Cristo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">62. Por isso, o profeta, quando diz: &#8220;Naquele dia levantarei a tenda de Davi, caída sobre a terra&#8221; (Am. 9,11), afirma claramente que o corpo de Cristo, nascido de Davi, como dissemos, depois da morte, é ressuscitado dos mortos. Chama tenda ao seu corpo e, com efeito, por estas palavras, diz também que Cristo - o qual, segundo a carne, descende de Davi - será Filho de Deus e, depois de sua morte, ressuscitará e será homem no aspecto externo, porém Deus pelo poder, se tornando juiz do universo e o único justo e redentor. Tudo isso se encontra na Escritura.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Belém, pátria de Davi</strong></p>
<p style="text-align: justify;">63. Por sua vez, o profeta Miquéias indicou também o lugar do nascimento de Cristo, a saber, em Belém de Judá. Expressa-se assim: &#8220;E tu, Belém de Judá, não és insignificante entre as cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe que será pastor do meu povo, Israel&#8221; (Miq. 5,1). Porém, Belém é também o povo de Davi, de sorte que Cristo é da posterioridade de Davi, não apenas pela Virgem que lhe trouxe à luz, mas também por ter nascido em Belém, pátria de Davi.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Rei para sempre</strong></p>
<p style="text-align: justify;">64. Por sua vez, diz Davi que Cristo nasceria da sua posterioridade: &#8220;Por causa de Davi, teu servo, não apartes o rosto de teu Cristo. O Senhor jurou a Davi a verdade e não a mentira: do fruto do teu seio colocarei sobre o teu trono, se teus filhos guardarem a minha aliança e os meus testemunhos, objeto de meu pacto com eles; e assim será até a eternidade&#8221; (Sal. 131,10-12). Mas não há nenhum, entre os filhos de Davi, que tenha reinado até a eternidade, nem seu reino permaneceu para sempre, pois foi destruído; indica, com efeito, o rei que nasceu de Davi, a saber, Cristo. Todos estes testemunhos dão a entender claramente sobre o seu descendente segundo a carne, tanto a linhagem como o lugar onde iria nascer. Os homens não têm razão para procurar o nascimento do Filho de Deus entre os gentios ou em qualquer outro lugar, mas apenas em Belém de Judá, entre a descendência de Abraão e Davi.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A entrada em Jerusalém</strong></p>
<p style="text-align: justify;">65. Sua entrada em Jerusalém, a capital da Palestina, onde estava sua residência e o Templo de Deus, é atestada por Isaías: &#8220;Dizei à Filha de Sião: eis que aqui vem o teu doce rei, sentado em um asno, sobre um burrico, filhote de asna&#8221; (Is. 62,11). Entrou em Jerusalém sentado sobre um filhote de asna e a multidão cobria seu caminho com mantos para que passasse por cima. &#8220;Filha de Sião&#8221; é o nome dado à Jerusalém.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O anúncio dos profetas</strong></p>
<p style="text-align: justify;">66. Os profetas anunciavam, então, que o Filho de Deus haveria de nascer, a forma e o lugar onde deveria nascer e quem era o Cristo, o único rei eterno. Predisseram também que, uma vez feito homem, haveria de curar aos que efetivamente curou, de ressuscitar os mortos que efetivamente ressuscitou; que seria odiado, desprezado, torturado, assassinado e crucificado, como de fato foi odiado, desprezado e assassinado.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Os milagres de Jesus</strong></p>
<p style="text-align: justify;">67. Trataremos agora das curas. Diz Isaías: &#8220;Suportou nossas doenças e agüentou nossas dores&#8221; (Is. 53,4; Mat. 8,17), isto é, suportará e agüentará. Às vezes, o Espírito de Deus narra no passado aos profetas, mas são acontecimentos que se sucederão no futuro. Isto ocorre porque em Deus o que é estabelecido, determinado e destinado a existir já se considera como existente e o Espírito se expressa tendo em conta o tempo em que se realiza a profecia. Nestes termos, recorda os distintos modos de curas: &#8220;Naquele dia, ouvirão os surdos as palavras do livro; e nas trevas e obscuridade verão os olhos dos cegos&#8221; (Is. 29,18). E, todavia: &#8220;Fortalecei-vos, mãos débeis, joelhos vacilantes e débeis; animai-vos, pusilânimes, tomai força, não temais. Olha! Nosso Deus faz justiça, virá nos salvar. Então se abrirão os olhos dos cegos e ouvirão os ouvidos dos surdos; então o coxo saltará como um cervo e se soltará a língua do mudo&#8221; (Is. 35,3-6). E acerca da ressurreição dos mortos, diz: &#8220;Assim ressuscitarão os mortos e se levantarão os que se encontram nos sepulcros&#8221; (Is. 26,19). Quando isto se cumprir, se crerá que é o Filho de Deus&#8230;</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A Paixão de Cristo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">68. Isaías diz que seria desprezado, torturado e, finalmente, assassinado: &#8220;Eis aqui sobre o meu Filho: será exaltado e grandemente glorificado. Como muitos se espantarão de ti, assim sem glória será o teu rosto aos olhos dos homens; muitos povos se assombrarão e os reis fecharão a boca porque contemplaram algo inenarrável e compreenderam algo inaudito. Senhor, quem criou nosso anúncio? A quem se revelou o braço do Senhor? Temos narrado perante Ele, como a uma criança, como a uma raiz em terra árida; não tinha figura, nem glória. O vimos sem aspecto e sem beleza. Seu aspecto era desprezível, mais abatido que os demais homens. Homem de dores acostumado a sofrimentos; porque voltava seu rosto para outro lado, era desprezado e diminuído. Ele carregou nossos pecados e sofreu por amor a todos; o temos como vítima da dor, dos golpes e torturas. Foi traspassado por nossos delitos, maltratado por nossos pecados. O castigo que nos dá a paz caiu sobre Ele e suas cicatrizes nos curaram&#8221; (Is. 52,13-53,5). Davi anuncia com estas palavras as suas torturas: &#8220;Fui torturado&#8221; (Sal. 38,9). No entanto, Davi nunca foi torturado, mas Cristo, quando ordenaram que fosse crucificado. Uma vez mais o Verbo diz em Isaías: &#8220;Ofereci as costas aos golpes e a face às bofetadas; não escondi meu rosto dos ultrajes e cusparadas&#8221; (Is. 50,6). O profeta Jeremias repete o mesmo, nestes termos: &#8220;Apresentará a face ao que bate e será cumulado de xingamentos&#8221; (Lam. 3,30). Tudo isto sofreu Cristo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A Paixão e sua sentença</strong></p>
<p style="text-align: justify;">69. Isaías continua assim: &#8220;Graças às suas chagas, fomos todos curados. Éramos errantes como um rebanho, cada qual seguia seu próprio caminho e o Senhor o consignou por nossos pecados&#8221; (Is. 53,5-6.7). Está claro que pela vontade do Pai se sucederam estas coisas em favor da nossa salvação. E logo prossegue: &#8220;Apesar de seus padecimentos, não abriu a boca; como ovelha, foi levado ao matadouro; como cordeiro perante o tosquiador está sem voz&#8221; (Is. 53,7). Desta forma, anuncia que aceita livremente a morte. Mas ao dizer o profeta: &#8220;Na humilhação foi eliminado seu juízo&#8221; (Is. 53,8), refere-se ao seu aspecto exterior humilde. Segundo seu aspecto, sem honra foi pronunciada a sentença; e proferida a sentença, conduz alguns à salvação e, a outros, às penas da perdição. Efetivamente, toma a alguns e rejeita a outros. Assim é a sentença: alguns sofrem e tomam para si a própria condenação; para outros, é eliminada e se salvam. Carregam a sentença sobre si aqueles que o crucificaram e, portando-se assim, não creram n’Ele; de tal sorte, a sentença recebida por eles os condenará à perdição entre os tormentos. A sentença foi eliminada para os que n’Ele creram, e já não estão mais sujeitos à ela, isto é, à sentença de condenação. A sentença de condenação, acompanhada de fogo, será o extermínio dos incrédulos, no fim deste mundo.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A geração inenarrável</strong></p>
<p style="text-align: justify;">70. A continuação diz: &#8220;Quem narrará seu nascimento?&#8221; (Is. 53,8). Isto se disse para que fiquemos atentos a fim de que não sejamos considerados como homem insignificante e de pouca importância, em razão dos Seus adversários e das dores da Sua Paixão. Aquele que sofreu tudo isto possui origem inefável. Porque, por nascimento, se entende sua origem, ou seja, seu Pai inefável e indescritível. Reconhece, pois, que esta é a origem d’Aquele que suportou esta Paixão. E não desprezes a Paixão que sofreu intencionalmente por ti! Mas, por sua origem, guardai-lhe temor!</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A vida à sombra de seu corpo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">71. Diz em outra parte Jeremias: &#8220;O Espírito de nosso rosto é o Senhor Cristo; como foi apressado em suas redes aquele de quem falamos: à sua sombra viveremos entre as nações&#8221; (Lam. 4,20). A Escritura diz que Cristo, mesmo sendo Espírito de Deus, deveria fazer-se homem, submetido ao sofrimento, e revela, de certo modo, surpresa e sobressalto pela Paixão, como sofreria Aquele à cuja sombra dissemos que iríamos viver. Sombra significa seu corpo, pois assim como a sombra é produzida por um corpo, assim o corpo de Cristo foi produzido por seu Espírito. Mas a palavra sombra significa, também, a humilhação de seu corpo e a facilidade de ser humilhado. Com efeito, como a sombra dos corpos erguidos se projeta ao solo e é pisada pelos pés, assim o corpo de Cristo, atirado à terra na Paixão foi, por assim dizer, pisado pelos pés. Chama-se &#8220;sombra&#8221; ao corpo de Cristo por ter sido a sombra da glória do Espírito que velava. Com freqüência, ao passo do Senhor, havia, ao longo de seu caminho, pessoas afetadas por diversas enfermidades e todas as que eram tocados por sua sombra alcançavam a salvação.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A morte do Justo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">72. E o mesmo profeta, referindo à Paixão de Cristo, diz o seguinte: &#8220;Eis aqui como o Justo pereceu e ninguém deu importância; os justos são retirados do meio e ninguém se preocupa, pois o justo é levado perante a injustiça. Sua sepultura será a paz: ele foi preservado&#8221; (Is. 57,1-4). Que outro alguém foi perfeitamente justo senão o Filho de Deus, que torna justos aqueles que n’Ele crêem, os quais, à semelhança d’Ele, são perseguidos e mortos? Quando diz: &#8220;Sua sepultura será a paz&#8221;, dá a conhecer como morreu por nossa salvação, que está na paz da salvação; e [anuncia] que, por sua morte, aqueles que antes eram inimigos e adversários uns dos outros, tendo acreditado n’Ele, alcançarão a paz entre si, oferecendo e recebendo sinais de amizade em razão da fé comum n’Ele. É exatamente isso o que ocorre. A expressão &#8220;foi preservado&#8221; refere-se à ressurreição dos mortos, porque, após sepultado, ninguém O viu morto. Logo, uma vez morto e ressuscitado, Cristo permaneceria imortal, como diz o profeta, nestes termos: &#8220;Pediu a vida e Tu a concedeste além da longevidade pelos séculos dos séculos&#8221; (Sal. 21,5). Por que disse &#8220;pediu a vida&#8221;, quando deveria morrer? Com efeito, anuncia Sua ressurreição de entre os mortos, e uma vez ressuscitado dos mortos, é imortal. Assim, recebeu a vida para ressuscitar e a &#8220;longevidade pelos séculos dos séculos&#8221; para ser incorruptível.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A morte (sonho) e ressurreição segundo Davi</strong></p>
<p style="text-align: justify;">73. E diz novamente Davi, a respeito da morte e ressurreição de Cristo: &#8220;Encostei-me e dormi; despertei porque o Senhor me acolheu&#8221; (Sal. 3,6). Davi não dizia isto de si mesmo, pois uma vez morto, não ressuscitou. Mas o Espírito de Cristo, que também falou d’Ele por outros profetas, fala também agora através de Davi: &#8220;Encostei-me e dormi; despertei porque o Senhor me acolheu&#8221; (Sal. 3,6). Chama a morte de sonho, porque ressuscitou.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Herodes e Pilatos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">74. Sobre a Paixão de Cristo, Davi diz: &#8220;Porque se agitam os gentios e os povos planejam fracassos? Os reis da terra se aliam e os príncipes conspiram contra o Senhor e seu Ungido&#8221; (Sal. 2,1-2; At. 4,24-28). De fato, Herodes, rei dos judeus, e Pôncio Pilatos, procurador de Cláudio César, reuniram-se e O condenaram à crucificação. Porque Herodes temia perder o reinado, como se Ele quisesse ser um rei mundano; e Pilatos foi obrigado, contra a sua vontade, por Herodes e pelos judeus que o cercavam, a condená-Lo à morte, porque, de outra forma, interpretariam-no como contrário a César, por deixar livre um homem que atribuiu a Si mesmo o título de Rei.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O anúncio da Paixão</strong></p>
<p style="text-align: justify;">75. E, a respeito da Paixão, diz também o mesmo profeta: &#8220;Tu nos rejeitaste e desprezaste; repudiaste ao teu Ungido; rompeste a aliança de meu Servo; demoliste o teu santuário, derrubaste sua cerca, estremeceste suas fortalezas; quantos que passam por ali a saqueiam; converteu-se na ironia de seus vizinhos; fortaleceste a energia de seus opressores, alegraste aos seus inimigos; torceste-lhe a espada e não a sustentas no combate; excluíste-lhe da purificação, atirando por terra o seu trono; abreviaste os dias de seu tempo e a cobriste de ignomínia&#8221; (Sal. 88,39-46). O profeta afirma abertamente que Ele deveria sofrer tudo isto, por ser a vontade do Pai. Pela vontade do Pai, sofreu a Paixão.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A captura de Jesus</strong></p>
<p style="text-align: justify;">76. Zacarias assim se expressa: &#8220;Apontaste a espada contra o meu Pastor, contra o Homem, meu companheiro; fere o Pastor e se dispersarão as ovelhas do rebanho&#8221; (Zac. 13,7; Mat. 26,31; Luc. 14,27). Isto se sucedeu quando foi capturado pelos judeus. Então todos os discípulos O abandonaram, com medo de perecer com Ele, porque não acreditavam firmemente n’Ele, até que O viram ressuscitado dos mortos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Jesus, motivo de reconciliação entre Pilatos e Herodes</strong></p>
<p style="text-align: justify;">77. E também se diz nos doze profetas: &#8220;Prisioneiro, apresentaram-No ao rei como tributo&#8221; (Os. 10,6 [LXX]). Pôncio Pilatos era procurador da Judéia e guardava então um profundo rancor contra Herodes, rei dos judeus. Neste contexto, Pilatos enviou Cristo, que lhe fora entregue, amarrado, até Herodes, pedindo para que fosse interrogado e confirmasse o que se faria com Ele. Assim, Cristo se converteu em um bom pretexto para [Pilatos] reconciliar-se com o rei.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A descida aos infernos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">78. E repara com que termos Jeremias se expressa para dar a conhecer Sua morte e Sua descida aos Infernos: &#8220;E o Senhor, o Santo de Israel, preocupou-se com seus mortos, os que já adormeceram no pó da terra, e, descendo até eles, levou-lhes a boa nova de sua salvação para salvá-los&#8221;. Revelam-se, aqui também, as razões da Sua morte, porque Sua descida aos infernos visava a salvação dos defuntos.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Profecias sobre a Cruz</strong></p>
<p style="text-align: justify;">79. E novamente à respeito da cruz, diz Isaías: &#8220;Estendi as mãos todos os dias para um povo indócil e rebelde&#8221; (Is. 65,2). Prefigurava, assim, a cruz. E, todavia, diz Davi mais claramente: &#8220;Os cães da casa me rodearam, uma multidão de ímpios me cercou; perfuraram minhas mães e meus pés&#8221; (Sal. 21,17). E novamente: &#8220;Meu coração ficou como cera líquida, em meio às minhas entranhas; meus ossos se desconjuntaram&#8221; (Sal. 21,15). E prossegue, dizendo: &#8220;A espada perdoa a minha alma e perfura minhas carnes, pois uma multidão de ímpios se levantou contra mim&#8221;. Estas passagens mostram e indicam, de um modo claro, a Sua crucificação. Moisés diz a mesma coisa para o seu povo: &#8220;E tua vida passará diante de teus olhos, e temerás dia e noite, e não crerás na tua vida&#8221; (Deut. 28,66).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Profecias sobre as vestes</strong></p>
<p style="text-align: justify;">80. De novo, diz Davi: &#8220;Eles me olharam fixamente. Dividiram as minhas vestes e lançaram à sorte a minha túnica&#8221; (Sal. 21,19). Com efeito, quando O crucificaram, os soldados repartiram suas vestes, conforme o costume; &#8220;as vestes foram divididas após tê-las desgarrado; mas, quanto à túnica, como era tecida desde o alto  e sem costura, lançaram à sorte, para ver quem a levava&#8221; (Jo. 19,23-24).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Judas, a venda de Cristo e a compra do campo do oleiro</strong></p>
<p style="text-align: justify;">81. O profeta Jeremias acrescenta: &#8220;Tomaram as trinta moedas de prata, o preço de alguém que foi taxado segundo a taxa dos filhos de Israel, e pagaram com elas o campo do oleiro, como me mandara o Senhor&#8221; (Mt. 27,9). Com efeito, Judas, um dos discípulos de Jesus, tendo se comprometido com os judeus e selado com eles um pacto - de fato, sabia que queriam matá-Lo - e porque fora repreendido por Ele, aceitou os trinta denários do país e entregou Cristo. A seguir, movido pelos remorsos do que havia feito, atirou o dinheiro aos pés dos chefes dos judeus e se enforcou. Estes, porém, não consideraram conveniente devolver o dinheiro ao Tesouro, pois era o preço de sangue, e com ele compraram o campo pertencente a um oleiro, para enterrar ali os estrangeiros.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Profecia sobre o vinagre misturado com fel</strong></p>
<p style="text-align: justify;">82. E uma vez crucificado, ao pedir para beber, deram-Lhe vinagre misturado com fel. Isto mesmo havia dito Davi: &#8220;Me darão fel como alimento e, para minha sede, ofereceram-me vinagre para beber&#8221; (Sal. 69,22; Mat. 27,34; Jo. 19,28).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A Ascensão</strong></p>
<p style="text-align: justify;">83. Eis aqui o que diz Davi sobre Sua ascensão ao céu, após a ressurreição de entre os mortos: &#8220;Os carros de Deus, em dezenas de milhares, com milhares de cocheiros, tem o Senhor entre eles; em Sião, no Santuário, subiu ao alto, cativou o cativeiro; recebeu e entregou dons aos homens&#8221; (Sal. 67,18-19). Por cativar, entende-se a destruição do poder dos anjos rebeldes. Deu a conhecer o lugar a partir de onde ascenderia, da terra para o céu, isto é, o Senhor, em Sião, ascendeu ao alto (Sal. 67,18). Com efeito, no monte das Oliveiras, em frente a Jerusalém, após ter ressuscitado dos mortos, reuniu seus discípulos e, recordando-lhes sobre o reino dos céus, foi elevado ante seus olhos e viram como O acolhiam, abertos, os céus.</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O triunfo do Rei da glória</strong></p>
<p style="text-align: justify;">84. A mesma coisa diz novamente Davi: &#8220;Içai, ó príncipes, vossas portas; levantai, portas eternas, e entrará o rei da glória&#8221; (Sal. 23,7). As portas eternas são, efetivamente os céus. Mas como o Verbo desceu invisível para as criaturas, não foi reconhecido por elas. Porém, como se encarnara, fez-se visível quando ascendeu ao céu. Ao vê-Lo, os principados dos anjos inferiores gritaram aos que estavam no firmamento: &#8220;Içai vossas portas; içai, portas eternas, para que entre o rei da glória&#8221;. Estes, assombrados, se perguntavam: &#8220;Quem é este?&#8221;; e os que O tinham visto, atestaram pela segunda vez: &#8220;O Senhor, poderoso e forte, é o rei da glória&#8221; (Sal. 23,10).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>O Juízo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">85. Ressuscitado e ascendido ao céu, aguarda, à direita do Pai, o momento por Ele fixado para julgar todos os seus inimigos, que a Ele serão submetidos. Os inimigos são todos os que se rebelaram: anjos, arcanjos, principados, tronos, os que menosprezaram a verdade. Davi diz ainda: &#8220;Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que Eu ponha teus inimigos sob os teus pés&#8221; (Sal. 109,1). Ainda mais, Davi diz que subiu para o lugar de onde tinha vindo: &#8220;Ele sobe dos últimos confins do céu e seu repouso alcança o outro extremo do céu&#8221;. Assinala depois o juízo, ao dizer: &#8220;Ninguém escapará ao seu ardor&#8221; (Sal. 18,7).</p>
<p style="text-align: justify;"><strong>A BOA NOVA (caps. 86-97)</strong></p>
<p><strong>O testemunho dos Apóstolos</strong></p>
<p style="text-align: justify;">86. Pois bem: se os profetas vaticinaram que o Filho de Deus deveria manifestar-se sobre a terra e predisseram o lugar, a maneira e a forma de sua manifestação sobre a terra, e se no Senhor se cumpriram todas estas predições, nossa fé n’Ele está bem fundamentada, é autêntica a tradição da pregação, isto é, o testemunho dos apóstolos. Estes, enviados pelo Senhor, pregaram pelo mundo inteiro que o Filho de Deus viera para sofrer a Paixão, a suportara para destruir a morte e dar vida ao corpo e, pondo fim à hostilidade a Deus, isto é, à iniqüidade, obteremos sua paz cumprindo o que for de Seu agrado. Assim nos foi dado a conhecer, pelos profetas, quando dizem: &#8220;Quão formosos são os pés dos mensageiros que anunciam a boa nova da paz, que pregam a alegre notícia do bem!&#8221; (Is. 52,7; Rom. 10,15). Isaías diz que estes mensageiros viriam da Judéia e de Jerusalém para nos anunciar a palavra de Deus, que para nós é também lei: &#8220;Pois de Sião sairá a lei e de Jerusalém a palavra de Deus&#8221; (Is. 2,3). Davi afirma que pregariam sobre toda a terra: &#8220;A toda terra alcança sua pregação e até os limites do orbe a sua palavra&#8221; (Sal. 18,5).</p>
<p><strong>O primado do amor</strong></p>
<p style="text-align: justify;">87. Porém, não é com a loquacidade da lei que se salva o gênero humano, mas com a brevidade e precisão da fé e da caridade. Isaías diz: &#8220;Uma palavra concisa e breve na justiça, porque Deus enviará uma palavra concisa, eficiente, sobre toda terra&#8221;(Is. 10,23 [LXX];</p>
<p style="text-align: justify;">Rom. 9,28). Por isso, Paulo afirma: &#8220;O amor é a plenitude da lei&#8221; (Rom. 13,10). Pois o que ama a Deus cumpre a lei. Quando perguntaram ao Senhor: &#8220;Qual o mandamento é o primeiro de todos?&#8221;, respondeu: &#8220;Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua força. E o segundo é similar a este: Amarás ao próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem a lei e os profetas&#8221; (Mc. 12,30; Mat. 22,37). Assim, pois, com a fé n’Ele, cresceu nosso amor por Deus e pelo próximo, fazendo-nos piedosos, justos e bons. É por isso que enviou, com eficácia, &#8220;uma palavra concisa sobre a terra&#8221;, no mundo.</p>
<p><strong>Salvos pelo Homem-Deus</strong></p>
<p style="text-align: justify;">88. E que depois da ascensão deveria ser elevado sobre todas as criaturas e que ninguém haveria de ser semelhante ou comparado a Ele, o diz Isaías: &#8220;Quem é justo? Que compareça. Quem é justificado? Que se aproxime do Filho do Senhor. Ai de vós que os consumís como um vestido, pois o caruncho vos roerá. O homem será humilhado e abatido. Somente o Senhor será exaltado com aqueles que serão enaltecidos&#8221; (Is. 50,8.10.9). Isaías afirma que os que servirem a Deus serão, ao final, salvos por intermédio de seu nome: &#8220;Os que me servem receberão um novo nome, que será bendito sobre toda a terra, e eles bendizerão ao Deus verdadeiro&#8221; (Is. 65,15-16). Esta bênção deveria Ele realizá-la pessoalmente e Ele mesmo deveria salvar-nos por seu próprio sangue, segundo nos deu a conhecer Isaías, quando disse: &#8220;Não um intercessor ou um anjo, mas o Senhor pessoalmente os salvou, pois ama e toma cuidado com eles. Ele mesmo os redimiu&#8221; (Is. 63,9).</p>
<p><strong>O Espírito sobre a face da Terra</strong></p>
<p style="text-align: justify;">89. Aos que foram assim libertados, [Deus] não quer levá-los novamente para a lei de Moisés - pois a lei se cumpriu em Cristo - mas sim salvá-los mediante a fé e o amor, pelo Filho de Deus, na renovação da Palavra, como o deu a conhecer Isaías, quando exclama: &#8220;Não recordeis o passado, não penseis no antigo; olha que renovo quem germina agora, e vós o conhecereis. Abrirei um caminho no deserto, suscitarei rios na região árida para dar de beber à minha nação e meu povo eleito, que adquiri para contar minhas proezas&#8221; (Is. 43,18-20). Deserta e erma era, antes, a vocação dos gentios, pois o Verbo não havia passado entre eles, nem lhes havia dado de beber do Espírito Santo. O [Verbo] dispôs o novo caminho da piedade e da justiça e fez brotar rios em abundância, disseminando o Espírito Santo sobre a terra, segundo prometera pelos profetas, que estenderia, ao fim [nos últimos tempos], o Espírito sobre a face da terra.</p>
<p><strong>A novidade do Espírito</strong></p>
<p style="text-align: justify;">90. Nossa vocação, pois, acontece &#8220;na novidade do Espírito e não na letra vazia&#8221;, como profetizou Isaías: &#8220;Olha que chegam dias - diz o Senhor - em que Eu, com a casa de Israel e de Judá, farei [uma aliança nova, não como] a aliança que fiz com seus pais, quando os conduzi pela mão para tirá-los do Egito, pois eles quebraram a aliança e Eu me desinteressei deles - diz o Senhor. Porque esta será a aliança que farei com a casa de Israel após aqueles dias - diz o Senhor - colocarei minha lei em suas mentes e também as escreverei em seus corações. Eu serei seu Deus e eles serão o meu povo. Não ensinarão uns aos outros, como concidadãos e irmãos que dizem: ‘Conhecei ao Senhor’, porque todos me conhecerão, do menor ao maior, porque perdoarei suas maldades e não conhecerei mais seus pecados&#8221;.</p>
<p><strong>A abertura da nova Aliança (o Novo Testamento)</strong></p>
<p style="text-align: justify;">91. E estas promessas seriam uma herança no tempo da vocação dos gentios, para quem foi também inaugurada a Nova Aliança. Assim o recorda Isaías, nestes termos: &#8220;Diz o Deus de Israel: Naquele dia, o homem colocará sua esperança em seu Criador e seus olhos contemplarão o Santo de Israel; e já não colocarão sua esperança nos altares dos ídolos, nem nas obras de suas mãos, que fabricaram com seus dedos&#8221; (Is. 17,6-8). Manifestamente, estas palavras são dirigidas àqueles que abandonam aos ídolos e crêem em Deus, nosso Criador, graças ao Santo de Israel. O Santo de Israel é Cristo. Ele se manifestou aos homens e n’Ele fixamos nosso olhar. E já não colocamos nossa esperança nos altares [dos ídolos] nem nas obras das nossas mãos.</p>
<p><strong>Manifestado aos que não o buscavam</strong></p>
<p style="text-align: justify;">92. E que devia manifestar-se em meio a nós - porque o Filho de Deus se faria filho do homem - e que nós haveríamos de encontrar o que desconhecíamos, afirma o mesmo Verbo em Isaías: &#8220;Me manifestei aos que não me procuravam; fui encontrado pelos que não perguntavam de mim. Disse: Aqui estou, perante um povo que não invocara o meu nome&#8221; (Is. 65,1; Rom. 10,20).</p>
<p><strong>Profecias sobre o povo de Deus</strong></p>
<p style="text-align: justify;">93. Que este povo fora chamado a ser um povo santo, vaticinou Oséias, um dos doze profetas: &#8220;Ao que não era meu povo, chamarei ‘povo meu’ e a não-amada será amada. Onde se diz que ali não pertence ao meu povo, ali se chamarão ‘filhos do Deus vivo’&#8221;(Os. 2,25; 1,9; Rom. 9,25-26). Também João Batista volta a dizer o mesmo: &#8220;Deus pode suscitar destas pedras filhos de Abraão&#8221; (Mat. 3,9). Com efeito, após sermos arrancados, pela fé, do culto às pedras, nossos corações vêem a Deus e fazem-nos filhos de Abraão, &#8220;o qual foi justificado pela fé&#8221; (Rom. 3,28; 4,3; Gál. 3,6). Por isso, diz Deus, pela boca do profeta Ezequiel: &#8220;E lhes darei um outro coração e colocarei neles um espírito novo; retirarei de seus corpos seus corações de pedra e lhes darei corações de carne, para que sigam meus mandamentos e observem e pratiquem os meus preceitos. Eles serão o meu povo e Eu serei o seu Deus&#8221; (Ez. 11,19-20; 36,26-27).</p>
<p><strong>A Igreja e a Sinagoga</strong></p>
<p style="text-align: justify;">94. Daí que, pela nova chamada, realiza-se uma mudança de coração entre os gentios, por meio do Verbo de Deus que &#8220;se encarnou e armou sua tenda entre os homens&#8221;, como diz João, seu discípulo: &#8220;E seu Verbo se fez carne e habitou entre nós&#8221; (Jo. 1,14). Portanto, a Igreja gera um grande número de frutos, isto é, de salvos, porque já não é um intercessor, Moisés, nem um mensageiro, Elias, quem nos salva, mas o próprio Senhor, que dá mais filhos à Igreja que à Sinagoga do passado, como predisse Isaías, nestes termos: &#8220;Regozija-te, estéril, que não davas à luz&#8221; - e estéril era a Igreja que, antes, não dava nenhum filho a Deus - &#8220;grita e chora, tu que não tiveste dores, porque os filhos da abandonada são mais numerosos que os filhos da que tinha marido&#8221; (Is. 54,1; Gál. 4,27). A antiga Sinagoga tinha por marido a lei.</p>
<p><strong>A incorporação dos Gentios</strong></p>
<p style="text-align: justify;">95. Moisés diz, no Deuteronômio, que os gentios estarão à frente e o povo incrédulo atrás. E pouco depois: &#8220;Provocaste meu zelo com vossos não-deuses; irritaste-me com vossos ídolos. Eu provocarei vosso zelo com alguém que não é meu povo e vos irritarei com um povo insensato&#8221; (Deut. 32,21). Pois, abandonando ao Deus verdadeiro, adoraram falsos deuses, mataram profetas de Deus e profetizaram por meio de Baal, que era um ídolo dos cananeus; rejeitaram ao verdadeiro Filho de Deus ao elegerem Barrabás, um bandido detido em flagrante homicídio, ao abjurar do rei eterno e reconhecer como rei a César, que foi perecível. Por isso, Deus decidiu entregar sua herança aos insensatos gentios e àqueles que não eram cidadãos da cidade de Deus e que desconheciam quem era Deus. Pois bem, visto que por esta chamada nos foi dada a vida, tendo Deus restaurado em nós a fé de Abraão n’Ele, não devemos voltar atrás, isto é, à antiga legislação. Porque fomos acolhidos pelo Senhor da lei, o Filho de Deus, e, por meio da fé n’Ele, aprendemos a &#8220;amar a Deus com todo o coração e ao próximo como a nós mesmos&#8221;. Pois o amor a Deus exclui todo pecado e o amor ao próximo não causa mal a ninguém.</p>
<p><strong>A superação da Lei</strong></p>
<p style="text-align: justify;">96. Portanto, não necessitados da lei como pedagoga, eis que aqui falamos com o Pai e estamos na sua presença, convertidos em crianças sem malícia e presos à justiça e honestidade. A lei, com efeito, não afirma mais &#8220;não cometerás adultério&#8221; àquele que sequer deseja a mulher do próximo; ou &#8220;não matarás&#8221; àquele que erradicou de si a ira e a inimizade; ou &#8220;não cobiçarás o campo de teu vizinho, seu boi ou seu asno&#8221; àquele que não tem ambição por coisas terrenas, mas que visam os bens celestes; nem sequer &#8220;olho por olho, dente por dente&#8221; àquele que não tem inimigos e trata a todos como próximo e, por isso, não levanta a mão para se vingar. Nem se exige os dízimos de quem consagrou a Deus todos os seus bens e deixou pai, mãe e toda a família para seguir ao Verbo de Deus. [A lei] já não mandará guardar um dia de descanso àquele que, todos os dias, observa o sábado, isto é, ao que rende culto a Deus no templo de Deus, que é o corpo do homem, e pratica sempre a justiça. &#8220;Prefiro misericórdia&#8221; - diz - &#8220;ao sacrifício; o conhecimento de Deus aos holocaustos. Porém, o ímpio que imola um bezerro é como se matasse um cachorro, e quando oferece flor de farinha é como se oferecesse sangue de porco&#8221; (Is. 66,3). &#8220;E todo o que invocar o nome do Senhor se salvará&#8221; (At. 2,21; Rom 10,13; Jl. 2,32 [Vulg.]); &#8220;E nenhum outro nome nos é dado sob o céu pelo qual os homens se salvem&#8221; (At. 4,12), senão o nome de Deus, Jesus Cristo, Filho de Deus, a quem se submetem todos os demônios, os espíritos maus e todas as potências rebeldes.</p>
<p><strong>A salvação em Jesus Cristo</strong></p>
<p style="text-align: justify;">97. Pela invocação do nome de Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos, Satanás foi afastado definitivamente de entre os homens. Ali, onde alguém crê n’Ele e por sua vontade O recorde e invoque, Jesus se faz presente e atende às súplicas de quem O invoca com um coração puro. Deste modo, tendo obtido a salvação, permanecemos em constante ação de graças a Deus, nosso Salvador, que por sua grande e insondável Sabedoria, nos salva e proclama a salvação desde o alto dos céus, salvação que é a vinda visível de nosso Senhor, isto é, sua vida humana; salvação que por nossas próprias possibilidades não poderíamos alcançar. Porém, &#8220;o que é impossível para os homens, é possível para Deus&#8221; (Luc. 18,27). A este respeito, diz Jeremias: &#8220;Quem subiu ao céu e se apoderou dele e o fez descer das nuvens? Quem atravessou os mares e os descobriu e aceitou em preferência ao ouro mais puro? Não há quem tenha encontrado seu caminho, nem quem conhece seu sendero. Porém, o que sabe todas as coisas, o conhece com sua Sabedoria; o que fundamentou a terra para sempre e a encheu de animais quadrúpedes, o que manda à luz e esta se expande, o que a chama e esta tremula, os astros se levantam para suas vigílias e se comprazem. Ele os chamam e [estes] atestam: ‘Ei-nos aqui’ e reluzem alegremente em honra d’Aquele que os fez. Este é nosso Deus, nenhum outro vale nada. Ele descobriu todos os caminhos com sabedoria e os comunicou a Jacó, seu servo, e a Israel, seu amado. E depois disto, fez-se ver na terra e conversou com os homens. Este é o livro dos mandamentos de Deus e da Lei perdurável, para sempre. Os que a guardarem, alcançarão a vida; os que a abandonarem, morrerão&#8221;. Chama Jacó e Israel ao Filho de Deus, que recebeu do Pai domínio sobre a nossa vida e, depois de ter recebido a vida, faz que desça sobre nós, que estávamos afastados d’Ele, quando se manifestou sobre a terra e conversou com os homens, mesclando e unindo o Espírito de Deus Pai com o corpo plasmado por Deus, para que o homem fosse à imagem e semelhança de Deus.</p>
<p><strong>CONCLUSÃO (caps. 98-100)</strong></p>
<p><strong>A modo de conclusão</strong></p>
<p style="text-align: justify;">98. Esta é, meu querido amigo, a pregação da verdade e a imagem da nossa salvação: assim é o caminho da vida, que os profetas anunciaram, o que Cristo instituiu, que os apóstolos consignaram e que a Igreja transmite aos seus filhos, através de toda a terra. Deve ser custodiado com amor e com vontade decidida, para agradar a Deus com as boas obras e com um modo puro de pensar.</p>
<p><strong>Os desvios dos hereges</strong></p>
<p style="text-align: justify;">99. Portanto, que ninguém pense que existe outro Deus Pai, distinto de nosso Criador, como imaginam os hereges, que desprezam ao Deus verdadeiro e criam um ídolo do deus inexistente, criando um pai acima de nosso Criador, achando que descobriram algo maior que a verdade. Na realidade, todos esses são ímpios e blasfemam contra o seu Criador e Pai, como já havíamos demonstrado na &#8220;Exposição e Refutação da Falsa Gnose&#8221; [="Contra as Heresias"]. Outros, todavia, desprezam a vinda do Filho de Deus e a economia da sua encarnação, transmitida pelos apóstolos e vaticinada pelos profetas, para a restauração da humanidade, como brevemente demonstramos. Estas pessoas também devem ser contadas entre as incrédulas. Outras, todavia, não acolhem os dons do Espírito Santo e rejeitam o carisma profético, pelo qual o homem produz frutos de vida eterna. Destes, diz Isaías: &#8220;Serão como uma árvore sem folhas e como um jardim sem água&#8221; (Is. 1,30). Estes não são de utilidade alguma para Deus, pois não produzem frutos.</p>
<p><strong>Conclusão: Manter-se distante do erro</strong></p>
<p style="text-align: justify;">100. No tocante aos três artigos do nosso batismo, o erro motivou muitas digressões afastadas da verdade. Ou porque desprezam ao Pai, ou porque não acolhem ao Filho, falando contra a economia da encarnação, ou porque rejeitam ao Espírito, isto é, reprovam a profecia. Devemos nos defender deste tipo de pessoas, evitar os seus caminhos, se verdadeiramente queremos agradar a Deus e obter a salvação.</p>
<p><strong>Nota Final do Copista</strong></p>
<p style="text-align: justify;">[Demonstração da Pregação Apostólica, de Santo Ireneu. Toda glória à Santa Trindade, Deus único, Pai e Filho e Espírito Santo, Providência Universal, eternamente. Amém. Recordai no Senhor do magnífico e beatíssimo senhor Arcebispo João, proprietário deste livro, irmão do santo Rei. E lembrai também de mim, pobre copista].</p>
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<input type="hidden" name="postAuthor_0" value="Alessandro Lima">
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<input type="hidden" name="postContent_0" value="&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;Por &lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;a href=&quot;http://cocp.veritatis.com.br/index.php/biografia-de-santo-ireneu/&quot;&gt;Santo Ireneu de Lião (Séc II)&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Sobre a Obra&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;Por Carlos Martins Nabeto&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Esta obra, escrita em grego, uma das colunas da teologia patrística, era, há até pouco tempo, apenas conhecida pelo título (v. Eusébio de Cesaréia, História Eclesiástica V,26), até que foi descoberta uma versão armênia em 1904 (publicada em 1907), tornando o magnífico texto novamente acessível.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A obra, de certa forma, pode ser dividida em duas grandes partes; na primeira (até o capítulo 41), Ireneu discorre sobre a fé cristã (Deus, Trindade, criação e pecado original, redenção) em oposição à falsa gnose; na segunda parte, segue-se uma argumentação comprobatória do anúncio de Cristo, dirigida aos judeus, tomando por base o Antigo Testamento. Assim, verificam-se as etapas da História da Salvação, expostas com clareza, sem afetações nem digressões.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Digno de destaque é o atestado de elementos teológicos próximos da tradição judaica: a cosmologia angélica dos sete céus, relacionada com os sete dons do Espírito Santo de Is. 11,2 e com a tipologia do candelabro de sete braços (cap. 9); ou a exegese dos querubins e serafins de Is. 6 em referência ao Logos e ao Espírito Santo (cap. 10). Além disso, retrata a atividade missionária dos apóstolos e a vocação dos pagãos (caps. 86-97), concluindo com um apelo à defesa da pregação da verdade contra os hereges e remetendo o destinatário, Marciano, à sua obra mais conhecida: “Contra as Heresias”.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Para elaborar esta obra, Ireneu certamente fez uso de escritos anônimos mais antigos; e, assim, alcança seu objetivo: instruir, argumentar e defender a fé cristã, sem, contudo, se enveredar na polêmica. Com efeito, pode-se dizer que &amp;#8220;Demonstração da Pregação Apostólica&amp;#8221; representa uma obra de lucidez na compreensão da fé, de equilíbrio (em face da mística mórbida da gnose), de atualidade sempre real, graças ao caráter bem fundamental das perspectivas teológicas de Ireneu.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Para tornar ainda mais agradável a leitura, o texto aqui apresentado estará dividido em cinco partes: prólogo, catequese apostólica, demonstração profética, boa nova e conclusão.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Bibliografia:&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- B. Altaner; A. Stuiber. &amp;#8220;Patrologia&amp;#8221;. Paulinas, 1972.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- J. Liébart. &amp;#8220;Os Padres da Igreja - vol. 1&amp;#8243;. Loyola, 2000.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;- C. Moreschino; E. Norelli. &amp;#8220;História da Literatura Cristã Antiga Grega e Latina - vol. 1&amp;#8243;. Loyola, 1996.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Texto&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;Tradução de Carlos Martins Nabeto&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;PRÓLOGO (caps. 1-3)&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Ireneu escreve a seu amigo Marciano e lhe promete um compêndio da fé cristã&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;1. Conheço, querido Marciano, teu empenho em seguir o caminho da piedade, a única via que conduz o homem à vida eterna; alegro-me com isso e peço por ti, para que, conservando pura a fé, fiques grato a Deus, teu Criador. Oxalá pudéssemos estar sempre juntos para nos ajudar mutuamente e cuidar das preocupações da vida terrena mediante a troca contínua de questões proveitosas! Visto que atualmente estamos fisicamente separados um do outro, decidi, dentro das minhas possibilidades, conversar contigo por escrito e te expor brevemente a pregação da verdade para fortalecer a tua fé. O que te envio é uma espécie de recordação sobre os pontos fundamentais, de tal modo que, em poucas páginas, possas encontrar abundante material, reunindo concisamente as linhas fundamentais do corpo de verdade e, com este compêndio, tenhas à mão as provas das realidades divinas. Penso que te será útil não apenas para a tua salvação, mas também para rebateres aos que defendem falsas opiniões e, a quem quiser conhecer, possas expor com segurança o nosso ensino em sua integridade e pureza. Na realidade, para aqueles que enxergam, não há mais que um único caminho ascendente, iluminado pela luz celeste; porém, para aqueles que não enxergam, os caminhos são muitos, sem iluminação e em declive. O primeiro conduz ao reino dos céus e une o homem a Deus; os outros levam à morte e o afastam de Deus. Portanto, para ti e para os que desejam ardentemente Sua salvação, é necessário que caminhem na fé, sem se desviar, com coragem e determinação, para evitar que, por falta de tenacidade e perseverança, se entreguem aos prazeres materiais ou que, errando o caminho, se afastem da reta direção.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O conhecimento da verdade e as boas obras&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;2. E como o homem é um ser vivente composto de alma e corpo, é necessário e conveniente, assim, que exista em virtude de tais dois elementos. E visto que de um e de outro, dos dois, emanam as quedas, a pureza do corpo está em abster-se e evitar toda coisa inverídica e toda ação injusta, e a pureza da alma está em conservar intacta a fé em Deus, sem acrescentar ou retirar nada dela. Porque a piedade se empalidece e perde seu calor quando se contamina com a impureza do corpo; rompe-se, mancha-se e desintegra-se quando o erro entra na alma. Manter-se-á em sua beleza e em sua justa proporção quando a verdade habitar constantemente na alma e a santidade no corpo. Porém, para que serve conhecer a verdade da Palavra se se profana o corpo e se realizam ações deploráveis? De que serve a santidade do corpo se a verdade não habita na alma? Ambas, pois, se alegram de estarem juntas; estão aliadas e lutam constantemente para levar o homem à presença de Deus. Por isso, diz o Espírito Santo por meio de Davi: &amp;#8220;Ditoso o homem que não caminha no conselho dos ímpios&amp;#8221; (Sal. 1,1), isto é, no conselho dos povos que não conhecem a Deus. De fato, ímpios são aqueles que não adoram Aquele que é, por natureza, Deus. Assim, o Verbo diz a Moisés: &amp;#8220;Eu sou aquele que sou&amp;#8221; (Ex. 3,14). Portanto, os que não adoram Aquele que verdadeiramente é, são ímpios. &amp;#8220;Que tampouco se assenta na cátedra dos cínicos&amp;#8221; (Sal. 1,1). Cínicos são os que, com doutrinas falsas e perversas, não apenas corrompem-se a si mesmos, como também aos demais. A cátedra, de fato, é o símbolo da escola. Assim são os hereges: sentam-se na cátedra dos cínicos e corrompem aos que bebem do veneno das suas doutrinas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A regra da fé: fundamento da verdade e da salvação&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;3. Assim, pois, por temer coisa semelhante, devemos manter inalterada a regra da fé e cumprir os mandamentos de Deus, crendo n’Ele, temendo-O como Senhor e amando-O como Pai. Portanto, um comportamento deste estilo é uma conquista da fé, pois, como diz Isaías: &amp;#8220;Se não creres, não compreendereis&amp;#8221; (Is. 7,9). A fé nos é concedida pela verdade, pois a fé se fundamenta na verdade. De fato, cremos o que realmente é e como é; e crendo no que realmente é e como sempre foi, mantemos firme nossa adesão. Pois bem: posto que a fé sustenta nossa salvação, é necessário prestar-lhe muita atenção para obter uma inteligência autêntica da realidade. A fé é que nos faz procurar tudo isso, como nos transmitiu os Presbíteros, discípulos dos apóstolos. Em primeiro lugar, a fé nos convida insistentemente a relembrar que recebemos o batismo para o perdão dos pecados em nome de Deus Pai e em nome de Jesus Cristo, Filho de Deus encarnado, morto e ressuscitado, e [em nome] do Espírito Santo de Deus; que o batismo é o selo da vida eterna, o novo nascimento de Deus, de modo tal que não somos mais filhos de homens mortais, mas do Deus eterno e indefectível; que o Eterno e Indefectível é Deus, acima de todas as criaturas, e que cada coisa, seja qual for a sua espécie, está submetida a Ele; e tudo o que foi a Ele submetido foi por Ele criado. Deus, portanto, não exerce seu poder e soberania sobre o que pertence aos outros, mas sobre o que lhe é próprio. E tudo é de Deus. Com efeito, Deus é onipotente e tudo provém d’Ele.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A CATEQUESE APOSTÓLICA (caps. 4-41)&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Deus Criador de todas as coisas&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;4. Porque é necessário que as coisas criadas tenham por princípio algum grande motivo e o princípio de tudo é Deus, Ele não tem origem em outra coisa, antes, pelo contrário, tudo foi criado por Ele. É, pois, necessário crer, primeiramente, que há um Deus, o Pai, o qual criou e organizou para Si o conjunto dos seres, fez existir o que não existia e conteve no conjunto dos seres o Único incontível. Pois bem: em tal conjunto encontra-se igualmente este nosso mundo e, no mundo, o homem. Logo, pois, este mundo foi criado por Deus.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Deus cria por meio do Verbo e do Espírito&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;5. Eis aqui a demonstração [desta doutrina]: que há um só Deus, Pai, não criado, invisível, criador do universo; nem acima d’Ele, nem abaixo d’Ele há outro Deus; que Deus é racional e, por isso, todos os seres foram criados por meio do Verbo; e Deus é Espírito e, com o Espírito, dispôs-Lhe tudo, segundo diz o profeta: &amp;#8220;Pela palavra do Senhor, foram estabelecidos os céus, e por obra de seu Espírito, todas as suas potências&amp;#8221; (Sal. 32,6).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Pois bem, já que o Verbo estabelece, isto é, cria e outorga a consistência ao que é, ali onde o Espírito põe em ordem e em forma a múltipla variedade de potências, justa e convenientemente o Verbo é denominado Filho, e o Espírito, Sabedoria de Deus. Com este propósito, o apóstolo Paulo diz: &amp;#8220;Um só Deus Pai, que está acima de tudo, com tudo e em todos nós&amp;#8221; (Ef. 4,6). Porque sobre todas as coisas está o Pai, porém, com tudo está o Verbo, visto que, por seu intermédio, o Pai criou o universo; e em todos nós está o Espírito que clama &amp;#8220;Abbá&amp;#8221; (Pai) e modelou o homem à semelhança de Deus. Assim, pois, o Espírito mostra o Verbo; por sua vez, os profetas anunciaram o Filho de Deus; mas o Verbo leva consigo o Espírito e, assim, é Ele mesmo que comunica aos profetas a mensagem e eleva o homem ao Pai.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Os três artigos da fé: Pai, Filho e Espírito Santo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;6. Eis aqui a regra da nossa fé, o fundamento do edifício e a base de nossa conduta: Deus Pai, não criado, ilimitado, invisível, único Deus, criador do universo. Este é o primeiro e principal artigo. O segundo é este: o Verbo de Deus, Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso Senhor, que apareceu aos profetas segundo o desígnio de sua profecia e segundo a economia disposta pelo Pai; por meio d’Ele foi criado o universo. Ademais, no fim dos tempos, para recapitular todas as coisas, fez-se homem entre os homens, visível e tangível, para destruir a morte, para manifestar a vida e restabelecer a comunhão entre Deus e o homem. E como terceiro artigo: o Espírito Santo, por cujo poder os profetas profetizaram, os Padres foram instruídos no que concerne a Deus, os justos foram guiados pelo caminho da justiça e que, no fim dos tempos, foi difundido de um modo novo sobre a humanidade, por toda terra, renovando o homem para Deus.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O batismo: novo nascimento em Deus Pai, Filho e Espírito Santo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;7. Por isso, o batismo, nosso novo nascimento, tem lugar por estes três artigos e nos concede renascer de Deus Pai, por meio de seu Filho no Espírito Santo. Porque os portadores do Espírito de Deus são conduzidos ao Verbo, isto é, ao Filho, que é quem os acolhe e os apresenta ao Pai, e o Pai lhes dá a incorruptibilidade. Sem o Espírito Santo é, pois, impossível ver o Verbo de Deus; e sem o Filho, ninguém pode se aproximar do Pai, porque o Filho é o conhecimento do Pai e o conhecimento do Filho se obtém pelo Espírito Santo. Porém, o Filho, segundo a bondade do Pai, dispensa como ministro o Espírito Santo para quem Ele quer e como o Pai quer.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Deus Pai bondoso e justo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;8. E se o Pai é denominado, pelo Espírito Santo, Altíssimo, Onipotente e Senhor das potências, é para que possamos conhecer a Deus, ou seja, o criador do céu e da terra e de todo universo, criador dos anjos e dos homens, e Senhor de todos, por meio do qual tudo existe e permanece vivo, misericordioso, compassivo, terníssimo, bom, justo, Deus de todos, dos judeus, dos gentios e dos crentes; porém, dos crentes, é Deus Pai, pois no fim dos tempos permitiu Ele o testamento da adoção filial. Mesmo assim, para os judeus, é Senhor e legislador, porque quando aqueles homens, nos tempos médios, esqueceram-se de Deus, afastando-se e rebelando-se contra Ele, os reconduziu à obediência mediante a Lei pela qual souberam que tinham um Senhor, que é autor, criador e que confere o sopro da vida, a quem devemos cultuar dia e noite. E para os gentios é criador, demiurgo e onipotente. Para todos, sem exceção, é quem dá o alimento e manjar; rei e juiz, porque ninguém escapará do seu juízo, nem judeu, nem gentio, nem nenhum crente pecador, muito menos um anjo. Aqueles que presentemente se negam a crer na sua bondade, experimentam no juízo o seu poder, como diz o santo apóstolo: &amp;#8220;Não reconhecendo que a bondade de Deus te traz à emenda, antes pelo contrário, com a dureza e a impenitência do teu coração, armazenas a ira para o Dia da Ira, quando se revelará o justo juízo de Deus, que pagará a cada um conforme suas obras&amp;#8221; (Rom. 2,4-6). Este é Aquele que na Lei é chamado de &amp;#8220;o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, Deus dos vivos&amp;#8221; (Ex. 3,6). A transcendência e magnitude deste Deus são indescritíveis.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Os sete céus, os dons do Espírito e o culto angélico&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;9. Este mundo é rodeado por sete céus, nos quais habitam inúmeras potências, anjos e arcanjos, que asseguram um culto a Deus todo-poderoso e criador do universo. Não porque tenha necessidade deles, mas para que não estejam, ao menos, sem fazer nada, como inúteis e malditos. Por isso, é múltipla a presença interior do Espírito de Deus e o profeta Isaías a enumera em sete formas de ministério, que descansaram no Filho de Deus, a saber, o Verbo, em sua vinda humana. De fato, disse: &amp;#8220;Sobre Ele pousará o Espírito de Deus, Espírito de sabedoria e inteligência, Espírito de conselho e fortaleza, [Espírito de ciência] e piedade; lhe conquistará o Espírito do temor de Deus&amp;#8221; (Is. 11,2-3). O primeiro céu, pois, a partir do alto, que contém os restantes, é a sabedoria; o segundo é a inteligência; o terceiro é o conselho; o quarto, em linha descendente, é a fortaleza; o quinto é a ciência; o sexto é a piedade; o sétimo, que corresponde ao nosso firmamento, está repleto de temor deste Espírito que ilumina os céus. Daí Moisés adotar o modelo do candelabro de sete braços, que arde ininterruptamente no Santuário. De fato, organizou o culto segundo este esquema celeste, com o que lhe havia apontado o Verbo: &amp;#8220;Te ajustarás ao modelo que te foi mostrado na montanha&amp;#8221; (Ex. 25,40).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A glorificação do Pai pelo Filho e pelo Espírito Santo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;10. Este Deus, isto é, o Pai, vem, pois, glorificado por seu Verbo, que é seu Filho para sempre, e pelo Espírito Santo, que é a Sabedoria do Pai de todos. E suas potências, a do Logos e da Sabedoria, chamadas também Querubins e Serafins, glorificam a Deus com voz incessante; e qualquer outra criatura que com Eles está nos céus dá glória a Deus, Pai de todos. Ele, com a Palavra, conferiu a existência ao universo inteiro; e neste universo há também anjos; e a este universo inteiro deu leis, ordenando que cada qual esteja e permaneça em seu seio, sem sair dos limites decretados por Deus, cumprindo cada um o trabalho que lhe foi assinalado.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Deus modelou o homem com suas mãos&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;11. Deus modelou o homem com suas próprias mãos, tomando o pó mais puro e mais fino da terra e mesclando-o, em medida justa, com sua virtude. Deu àquele plasma sua própria fisionomia, de modo que o homem, ainda que visível, se tornasse imagem de Deus. Porque o homem foi posto na terra modelado conforme a imagem de Deus. E a fim de que pudesse viver, Deus soprou em seu rosto um hálito de vida, de modo que tanto no sopro como na carne plasmada fosse o homem semelhante a Deus. Foi criado por Deus livre e senhor de si, destinado para ser rei de todos os seres do cosmos. Este mundo criado, preparado por Deus antes de formar o homem, foi entregue ao homem como território próprio, com todos os bens que continha.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Neste lugar trabalhavam, cada um segundo suas próprias funções, os servos daquele Deus que criou todas as coisas; e ali mandava o regente e cabeça constituído, chefe de seus co-servos; os servos eram anjos e o regente e cabeça era um arcanjo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O paraíso: lugar de delícias&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;12. Tendo, pois, constituído o homem dono da terra e de toda coisa existente sobre ela, secretamente o constituiu também dono daqueles que nela tinham ofício de servos. Mesmo assim, estes, isto é, os anjos, encontravam-se na plenitude de suas possibilidades, ainda que o dono, isto é, o homem, fosse ainda pequeno, como criança, e devesse crescer para chegar à maturidade. E a fim de que se alimentasse e desenvolvesse com gozo e alegria, foi-lhe preparado um lugar melhor neste mundo, superior a ele pelo ar, beleza, luz, alimento, plantas, frutos, águas e todas as demais coisas necessárias para a vida. E este lugar teve por nome &amp;#8220;Jardim&amp;#8221; . O Jardim era tão belo e agradável que o Verbo de Deus freqüentemente apresentava-se nele; passeava e se entretinha com o homem, prefigurando o que haveria de se suceder no futuro, isto é, que o Verbo de Deus se faria concidadão do homem, conversaria e habitaria com todos os homens, ensinando-lhes a justiça. Porém, o homem era, todavia, menino e não tinha pleno uso da razão, de forma que foi fácil ao Sedutor enganá-lo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A criação de Eva&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;13. Então Deus fez comparecer perante a presença de Adão, que passeava pelo Jardim, todos os animais e lhe ordenou que para apontasse nomes para cada um; e o termo que denominou Adão como ser vivente passou a ser seu nome. Decidiu, assim mesmo, criar uma auxiliar para o homem, dizendo: &amp;#8220;Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliar que lhe corresponda&amp;#8221; (Gen. 2,18). Entre todos os viventes não foi encontrado igual auxiliar, agradável e similar a Adão. Deus mesmo inspirou, então, um êxtase a Adão e o fez adormecer. Como o sonho não existia no Jardim, foi inspirado sobre Adão, por vontade de Deus, para fazer uma obra a partir de outra obra. Tomou, então, uma costela de Adão e encheu de carne o vazio criado; e com a costela extraída, fez a mulher e a apresentou para Adão. &amp;#8220;Este, ao vê-la, exclamou: ‘Esta sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Seu nome será mulher, porque foi tirada de seu homem’&amp;#8221; (Gen. 2,23).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Adão e Eva em perfeita harmonia&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;14. E Adão e Eva - pois assim se chamava a mulher - estavam nus e não sentiam vergonha, porque sua mentalidade era inocente e infantil, e não brotavam neles imaginações e pensamentos como os que a concupiscência lança na alma e a paixão que atiça ao mal. De fato, viviam em estado de integridade, conservando sua própria natureza, porque assim lhes foi inspirado pelo sopro de vida quando foram plasmados. Pois bem: ainda que consistente e perseverante aquele sopro, com sua ordem e vigor, não entendiam e concebiam coisas abjetas; por isso, não sentiam vergonha ao beijarem-se e abraçarem-se com a inocência mais infantil.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O mandamento de Deus&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;15. Porém, para que o homem não tivesse pensamentos de soberba e se orgulhasse, como se não tivesse senhor em razão da autoridade que lhe havia sido conferida e da liberdade de acesso a Deus; para que não faltasse e, por complacência, concebesse pensamentos de orgulho contra Deus, foi-lhe dada, por Deus, uma lei a fim de que reconhecesse que tinha para si o Senhor como Senhor de tudo. E Deus lhe impôs algumas regras, de sorte que, se observasse o mandamento de Deus, permaneceria sempre como era, isto é, imortal. Porém, se não o observasse, se faria mortal, destinado a se dissolver na terra de onde fora plasmado. E este era o mandamento: &amp;#8220;De toda árvore que está no interior do Jardim, come e te alimenta. Mas da árvore de onde procede a ciência do bem e do mal, dessa apenas não comerás, pois no dia em que comeres dela, morrerás&amp;#8221; (Gen. 2,16-17).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Satanás provoca o pecado, a ruína do homem&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;16. O homem não cumpriu a ordem, mas desobedeceu a Deus. O anjo o seduziu, zeloso e invejoso pelos numerosos dons que Deus havia concedido ao homem. E ao persuadir a desobediência à ordem divina, [o anjo] provocou sua própria ruína, ao mesmo tempo que tornava o homem pecador. O anjo, convertido assim em chefe e guia do pecado, foi castigado por ofensa a Deus e conseguiu, ao mesmo tempo, que o homem fosse expulso do Jardim. E porque com seu intento se rebelou e apostatou de Deus, foi chamado &amp;#8220;Satanás&amp;#8221;, em hebraico, ou seja, apóstata, mas também é chamado &amp;#8220;diabo&amp;#8221;. Deus amaldiçoou também a serpente, por servir de disfarce ao diabo, maldição esta que alcançou o próprio animal e o anjo escondido nele, Satanás. Quanto ao homem, o expulsou da sua presença; transferindo-o, fez com que habitasse no caminho que conduz ao Jardim, uma vez que o Jardim não comportava o pecador.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;O drama dos filhos de Adão: Caim e Abel&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;17. Expulsos do Jardim, Adão e sua mulher, Eva, padeceram muitas misérias e viveram neste mundo cheios de tristeza, fadigas e lamentos. Porque o homem trabalhava a terra sob os raios do sol e a terra produzia espinhos e abrolhos, castigo do pecado. Então se cumpriu a palavra da Escritura: &amp;#8220;Adão se uniu à sua mulher; ela concebeu, deu à luz a Caim e, depois, deu à luz a Abel&amp;#8221;. Mas o anjo rebelde, o mesmo que impulsionou o homem à desobediência, que o tornou pecador e causou sua expulsão do Jardim, não contente com o que fizera anteriormente, planejou um novo dano, desta vez sobre os dois irmãos, porque enchendo Caim de seu próprio espírito, o fez fratricida. Assim, morreu Abel, assassinado por seu irmão, como um sinal do futuro, quando alguns seriam perseguidos, atormentados e mortos, e seriam os injustos os que viriam a matar e perseguir os justos. Por isso, Deus encoleralizou-se e amaldiçoou Caim e, desde então, todos os descendentes em linha de sua sucessão foram semelhantes ao seu progenitor. Deus, depois, fez com que Adão tivesse outro filho em substituição de Abel, assassinado.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Os Gigantes. O aumento da maldade e a diminuição da justiça&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;18. A maldade, estendendo-se continuamente, alcançou e inundou a raça humana; somente um pouco da semente de justiça restava nela. Porque, ademais, sobre a terra ocorriam uniões ilegítimas: os anjos fornicaram com as filhas dos homens, que deram à luz filhos que, por sua enorme estatura, foram chamados gigantes. Os anjos, então, deram às suas esposas, como presente, ensinamentos malignos. Ensinaram elas a produzir extratos de flores e plantas, tintas e pinturas, jóias e cosméticos, os zelos e as paixões, a sedução e o atrevimento, os sortilégios da magia e toda classe de adivinhação e idolatria, odiados por Deus. E uma vez desencadeadas todas essas coisas, o mal se expandiu até transbordar e a justiça diminuiu quase a ponto de desaparecer.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O dilúvio como juízo de Deus&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;19. Finalmente, quando veio sobre o mundo o justo juízo de Deus, com o dilúvio na décima geração contada a partir do primeiro homem, apenas Noé foi encontrado justo e, graças à sua própria justiça, foi salvo com sua mulher, seus três filhos e mulheres, juntamente com os animais que Deus ordenou a Noé introduzir em sua arca. Enquanto a destruição ocorria sobre toda a terra, atingindo homens e seres vivos, salvaram-se apenas os que estavam na arca. Os três filhos de Noé eram Sem, Cam e Jafet, e sua estirpe voltou a multiplicar-se novamente. Esta é a origem de todos os que nasceram após o dilúvio.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;As bênçãos e as maldições na família de Noé&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;20. Entre os filhos de Noé, um caiu em maldição, enquanto que os outros dois receberam a benção por suas obras. Eis que o mais jovem entre eles, chamado Cam, por ter ironizado seu pai e ser condenado pelo pecado da impiedade por causa do ultraje e ignomínia para com seu pai, atraiu uma maldição que transmitiu para toda a sua descendência. Com efeito, toda a raça que o seguiu tornou-se maldita e neste pecado cresceu e se multiplicou. Por outro lado, Sem e Jafet, seus irmãos, ante sua piedade para com o pai, obtiveram uma bênção. Eis aqui os termos da maldição lançada por Noé sobre Cam: &amp;#8220;Maldito seja este jovem, Cam. Seja ele o servo de seus irmãos&amp;#8221; (Gen. 9,25). Quando atingiu a idade adulta, teve sobre a terra uma posterioridade numerosa como uma floresta, desenvolvendo-se por catorze gerações de descendentes, até que, por ter sido condenada, foi cessada por Deus. De fato, os cananeus, os jeteus, os fereceus, os jeveus, os amorreus, os jebuseus, os guergeseus, os sodomitas, os árabes, os habitantes da Fenícia, todos os egípcios e os líbios descendem de Cam e caíram sob a maldição, a qual se estendeu amplamente sobre os ímpios.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O triunfo das bênçãos&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;21. Do mesmo modo como a maldição seguiu seu caminho, a bênção continuou na posterioridade dos que foram abençoados, cada um segundo sua ordem. Em primeiro lugar foi abençoado Sem, com estas palavras: &amp;#8220;Bendito o Senhor Deus de Sem. Seja Cam teu servo&amp;#8221; (Gen. 9,26). Desta bênção resultou que Deus, Senhor do universo, chegou a ser para Sem objeto privilegiado de sua piedade; a bênção se desenvolveu até alcançar Abraão, que, da posterioridade de Sem, chega até a décima-quarta geração segundo a ordem genealógica descendente. E é esta a razão pela qual o Pai, Deus do universo, se compraz em ser chamado &amp;#8220;Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó&amp;#8243; (Ex. 3,6; Mat. 22,32; Mc. 12,26; Luc. 20,37), porque a bênção de Sem chegou a Abraão. Já a bênção de Jafet foi formulada do seguinte modo: &amp;#8220;Que Deus multiplique Jafet e habite na casa de Sem; e Cam seja teu servo&amp;#8221; (Gen. 9,27). Esta bênção floresceu ao final deste período, quando o Senhor se manifestou às nações por seu chamamento - pois Deus multiplicou seu chamamento para elas - e &amp;#8220;toda terra alcançou sua pregação, e suas palavras chegaram até os limites do orbe&amp;#8221; (Sal. 18,5). Multiplicar significa, pois, o chamamento das nações, a saber, a Igreja. E habitar na casa de Sem indica a herança dos patriarcas, por ter Jesus Cristo recebido o direito de primogenitura. Deste modo, segundo a ordem da bênção, cada um recebeu por meio da descendência o fruto da bênção.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A Aliança universal&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;22. Depois do dilúvio, Deus estabeleceu um pacto de aliança com o mundo inteiro, em particular com todos os animais e com os homens, em virtude do qual não destruiria novamente com outro dilúvio o que refloresce sobre a terra, oferecendo um sinal: &amp;#8220;Quando o céu se cobrir de nuvens, aparecerá nas nuvens um arco e eu me recordarei da aliança e não voltarei a destruir com água tudo o que existe sobre a terra&amp;#8221; (Gen. 9,14-15). E alterou a alimentação dos homens, permitindo-lhes comer carne, pois desde a primeira criatura, Adão, até o dilúvio, os homens alimentavam-se apenas de grãos e frutos de árvores, já que o alimento da carne não lhes era permitido. E como os três filhos de Noé eram o princípio da raça humana, Deus os abençoou para que se multiplicassem e crescessem, dizendo: &amp;#8220;Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e dominai-a. Vos temerão e respeitarão todos os animais e todas as aves do céu. Vos servirão de alimento, da mesma forma como os vegetais. Porém, não comereis carne com sangue, que é sua vida, porque pedirei contas de vosso sangue a qualquer animal e também ao homem. Se alguém derramar o sangue de um homem, outro derramará o seu, porque Deus fez o homem segundo sua imagem&amp;#8221; (Gen. 9,1-6). E a imagem de Deus é o Filho, sob cuja imagem foi feito o homem. Eis aqui porque, nos últimos tempos, se manifestou, para dar a entender que a imagem era semelhante a Si. Depois desta aliança, o gênero humano se multiplicou e se propagou a partir da posterioridade dos três filhos de Noé. &amp;#8220;E havia, então, uma só boca sobre a terra&amp;#8221;, isto é, uma só língua.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A torre de Babel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;23. Levantadas as tendas, partiram do Oriente e, em sua peregrinação, chegaram até a extensa planície de Senaar, onde decidiram edificar uma torre. Buscavam com ela chegar até o céu, pretendendo, assim mesmo, deixar sua obra como memorial para as futuras gerações. Construíram o edifício com ladrilhos cozidos e betume; crescia sua audácia e temeridade, e, graças à sua união no mesmo objetivo e uso da mesma língua, o que pretendiam se concretizava. Porém, para que não fosse adiante sua obra, Deus dividiu suas línguas com o objetivo de que não se entendessem. Desta forma, se dispersaram e ocuparam a terra em grupos distintos, segundo suas línguas. Eis aqui as diferenças entre os povos e a diversidade das línguas. De fato, três raças humanas habitavam sobre a terra. Uma delas estava sob o peso da maldição, enquanto que as duas outras restantes eram abençoadas. A bênção desceu primeiro sobre Sem, cujos descendentes habitaram o Oriente e ocuparam o país dos caldeus.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A aliança com Abraão&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;24. Posteriormente, na décima geração após o dilúvio, se encontra Abraão, que busca a Deus, que o corresponde, por pertencer à bênção de seu antepassado [Sem]. Quando, seguindo o ardente desejo de seu coração, peregrinava pelo mundo perguntando-se onde estava Deus e começou a fraquejar, estando a ponto de desistir da busca, Deus teve piedade daquele que somente O buscava no silêncio. E se manifestou a Abraão, dando-se a conhecer por meio do Verbo, como que por um raio de sol. E, a partir do céu, lhe disse: &amp;#8220;Sai da tua terra, do teu povo e da casa de teu pai; emigra para o país que te indicarei e fixa ali a tua morada&amp;#8221; (Gen. 12,1). Ele confiou na voz celeste e, apesar de ter 70 anos e uma mulher idosa, com ela abandonou a Mesopotâmia e levou consigo Lot, filho de seu finado irmão. Quando chegou à terra que hoje se chama Judéia, habitada então por sete povos descendentes de Cam, Deus lhe apareceu em visão e disse: &amp;#8220;A ti e a tua descendência, nas futuras gerações, te darei esta terra como possessão perpétua&amp;#8221; (Gen. 12,7; 13,15; 17,8; At. 7,25). E acrescentou que a sua descendência andaria errante por um país estrangeiro, no qual seria maltratada, afligida e escravizada ao longo de 400 anos; porém, aquela, na quarta geração, voltaria à terra prometida a Abraão e Deus condenaria o povo que havia escravizado sua posterioridade. E para que Abraão conhecesse a grandeza e esplendor da sua descendência, Deus o fez sair de noite e lhe dirigiu estas palavras: &amp;#8220;Olha para o alto, para o céu, e, se puderes, conta as estrelas do céu. Assim será a tua descendência&amp;#8221; (Gen. 15,15). E Deus, vendo a fé e a firme decisão de seu espírito, atestou, dizendo na Escritura por meio do Espírito Santo: &amp;#8220;Abraão confiou em Deus e foi reputado justo&amp;#8221; (Gen. 15,6) Era incircunciso quando recebeu este atestado; e para que a grandeza da sua fé fosse reconhecida como sinal, deu a circuncisão como &amp;#8220;selo da justiça da fé da incircuncisão&amp;#8221; (Rom. 4,11). Depois disto, segundo a promessa de Deus, da estéril Sara lhe nasceu um filho, Isaac, que circuncidou conforme o pacto que Deus estipulara com ele. De Isaac nasceu Jacó. Desta maneira, a bênção inicial de Sem chegou até Abraão e de Abraão passou para Isaac e Jacó, graças ao assinalamento da herança feita pelo Espírito. Por isso, Deus é denominado &amp;#8220;Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacó&amp;#8243; (Ex. 3,6; Mat. 23,32). Jacó, por sua vez, gerou doze filhos, dos quais tomaram nome as doze tribos de Israel.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O mistério da Páscoa&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;25. Quando a fome afligiu toda a terra e somente o Egito contava com gêneros alimentícios, Jacó emigrou com toda a família para aquele país. O número total de emigrantes ascendia a 75 pessoas e, em 400 anos, chegaram a ser, segundo as predições, 660 mil. Visto que sofriam muitos vexames e opressões em uma cruel escravidão, e gemiam e se lamentavam perante Deus, o Deus de seus pais, Abraão, Isaac e Jacó, [Deus] os tirou do Egito valendo-se de Moisés e Aarão, depois de ter castigado os egípcios com dez pragas, sendo que, na última, mandou um anjo exterminador para matar os primogênitos tanto de homens como de animais. Assim, salvou os filhos de Israel, prefigurando de um modo misterioso a Paixão de Cristo na imolação de um cordeiro imaculado e, com seu sangue, derramado como garantia de imunidade, mandou assinalar as casas dos hebreus. Este mistério recebe o nome de &amp;#8220;Páscoa&amp;#8221;, manancial de liberdade. Dividido o mar Vermelho, conduziu - com toda espécie de cuidados - os filhos de Israel para o deserto, enquanto que os egípcios, que se lançaram em sua perseguição pelo mar, pereceram todos. Este foi o juízo de Deus contra os que injustamente haviam oprimido a estirpe de Abraão.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O Decálogo entregue a Moisés&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;26. Moisés, no deserto, recebeu de Deus a lei: o Decálogo, gravado em tábuas de pedra pelo dedo de Deus - o dedo de Deus é o que sai do Pai no Espírito Santo - , os preceitos e os direitos que transmitiu aos filhos de Israel para que observassem. Por ordem de Deus, construiu o tabernáculo do testemunho, construção visível na terra das realidades espirituais e invisíveis do céu, figura da Igreja e representação profética das realidades futuras. Ali colocou os vasos, os altares e a arca na qual depositou as tábuas. Constituiu sacerdotes a Aarão e seus filhos, que descendiam de Levi, conferindo o sacerdócio a toda esta estirpe para exercer o ministério cultual no templo de Deus. E lhes deu a lei levítica que fixa qual a qualidade e conduta que devem adornar os que permanentemente se dedicarão ao serviço do culto no templo de Deus.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A exploração da Terra Prometida e a peregrinação pelo Deserto&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;27. Quando estavam próximos da Terra Prometida por Deus a Abraão e à sua posterioridade, Moisés escolheu um homem de cada tribo e os enviou em exploração daquela terra, de suas cidades e habitantes. Foi quando Deus lhe revelou o único Nome capaz de salvar os que n’Ele crêem; Moisés mudou o nome de Oséias, filho de Nave, um dos exploradores, para &amp;#8220;Jesus&amp;#8221; [=Josué]. E Moisés os enviou junto com o poder daquele Nome, persuadido de que os acolheria incólumes quando voltassem, por terem sido conduzidos por aquele Nome; o que, de fato, ocorreu. Concluída sua missão de espionagem e exploração, regressaram trazendo um cacho de uvas; porém, algum dos doze exploradores atemorizou e alarmou o povo ao relatar que as cidades eram imensas e fortificadas, e que os homens, filhos dos Titãs, tinham uma estatura gigantesca e estavam preparados para defender suas terras. Ao receber tais notícias, o povo chorou, fraquejando na fé que tinham n’Aquele Deus que os fortalecia e lhes submetia todo o mundo. Murmuraram contra o país, como se não fosse bom, e se por um país de tal natureza mereciam correr algum risco. Porém, entre os doze, Jesus, filho de Nave, e Caleb, filho de Jefoné, rasgaram suas vestes pelo mal cometido e suplicaram ao povo para que não se deixasse abater e desanimar, porque Deus havia posto o país em suas mães e que o mesmo era excelente. Mas como o povo não se convencia e persistia na incredulidade, Deus o desviou e mudou seu itinerário para que se dispersasse, afligindo-o no deserto. E contando um ano para cada dia que os enviados levaram para explorar e inspecionar o país - isto é, 40 dias - Deus reteve [o povo] durante 40 anos no deserto. Nenhum adulto com pleno uso da razão foi julgado digno de entrar no país em razão da incredulidade, exceto Jesus, filho de Nave, e Caleb, filho de Jefoné, que tinham defendido a herança prometida, e as crianças incapazes de distinguir a direita da esquerda. Pouco a pouco, o povo incrédulo chegou ao final e, paulatinamente, pereceu no deserto, castigado justamente por sua incredulidade. As crianças que cresceram nestes 40 anos cobriram as vagas deixadas pelos mortos.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O Deuteronômio&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;28. Transcorridos os 40 anos, o povo chegou às proximidades do [rio] Jordão e, reagrupando-se, se alinhou para a batalha de Jericó. Aqui, perante o povo reunido, Moisés invocou a história passada, recordando os grandes feitos de Deus até aquele momento, preparando e dispondo aqueles que tinham crescido no deserto temendo a Deus e observando os mandamentos. Impôs a este [povo] uma nova legislação, acrescentando-a à que já tinha estabelecido anteriormente. Este novo corpo legislativo foi chamado Deuteronômio, isto é, a segunda lei, no qual estão escritas muitas profecias a respeito de nosso Senhor Jesus Cristo, do povo, da vocação dos gentios e do Reino.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A distribuição da terra&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;29. Quando Moisés estava a ponto de terminar seus dias, Deus lhe disse: &amp;#8220;Sobe ao monte e morre nele, porque não serás tu que entrarás com meu povo na Terra Prometida&amp;#8221;. Segundo a palavra do Senhor, morreu Moisés e lhe sucedeu Jesus, filho de Nave. Este atravessou o Jordão, conduziu o povo à terra prometida e, vencidos e aniquilados os sete povos que a habitavam, a distribuiu ao povo. Ali se encontra Jerusalém, onde reinaram Davi e seu filho Salomão, que construiu o templo em nome de Deus segundo a imagem do tabernáculo feito por Moisés como modelo das realidades celestes e espirituais.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O envio dos profetas&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;30. Para Jerusalém foram enviados, por Deus, por meio do Espírito Santo, os profetas que aconselhavam o povo e o convertia ao Deus onipotente de seus pais. Como colunas da revelação de nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, anunciavam que da estirpe de Davi haveria de florescer o Seu Corpo, para que fosse, segundo a carne, filho de Davi - que era filho de Abraão - em razão de uma extensa cadeia de gerações e, segundo o Espírito, Filho de Deus, preexistente com o Pai, gerado antes da fundação do mundo, e aparecido, como homem, ao mundo inteiro nos últimos tempos. Ele é o Verbo de Deus que &amp;#8220;recapitula em si todas as coisas, as do céu e as da terra&amp;#8221; (Ef. 1,10).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A desobediência e a Encarnação&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;31. Uniu, pois, o homem com Deus e operou a comunhão entre Deus e o homem, porque não poderíamos, em absoluto, obter participação alguma na incorruptibilidade se não houvesse vindo [o Verbo] habitar entre nós. Pois se a incorruptibilidade tivesse permanecido invisível e oculta, não nos seria de nenhuma utilidade. Fez-se, pois, visível a fim de que integralmente [isto é, em corpo e alma] recebêssemos uma participação desta incorruptibilidade. E porque todos nós estamos envoltos na criação originária de Adão e estamos vinculados à morte por causa da sua desobediência, era conveniente e justo que, por obra da obediência de quem se fez homem por nós, fossem quebradas as [cadeias] da morte. E porque a morte reinava sobre a carne, era preciso que fosse abolida por meio da carne e que o homem fosse libertado de sua opressão. &amp;#8220;E o Verbo se fez carne&amp;#8221; (Jo. 1,14) para destruir, por meio da carne, o pecado - que, por obra da carne, havia adquirido o poder, o direito de propriedade e domínio - para que não mais existisse entre nós. Por essa razão, nosso Senhor tomou uma corporeidade idêntica à da primeira criatura, para lutar em favor dos primogênitos e vencer em Adão, já que Adão havia nos ferido [de morte].&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Adão e Cristo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;32. Pois bem: de onde provém a essência da primeira criatura? Da vontade e da Sabedoria de Deus e da terra virgem. &amp;#8220;Porque Deus ainda não havia enviado chuva sobre a terra&amp;#8221; - diz a Escritura- &amp;#8220;antes que o homem fosse plasmado e antes que o homem estivesse ali para cultivá-la&amp;#8221; (Gen. 2,5). Desta terra, pois, todavia virgem, Deus tomou o barro e moldou o homem, princípio do gênero humano. Para dar, pois, cumprimento a esse homem, assumiu o Senhor a mesma disposição sua de corporeidade, que nasceu de uma Virgem por vontade e pela Sabedoria de Deus, para manifestar também Ele a identidade de sua corporeidade com a de Adão, e para que se cumprisse o que no princípio havia escrito: &amp;#8220;o homem é imagem e semelhança de Deus&amp;#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Eva e Maria&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;33. E assim como pela obra de uma virgem desobediente foi o homem ferido e, precipitado, morreu, assim também, reanimado o homem por obra de uma Virgem, que obedeceu a Palavra de Deus, recebeu Ele, no homem novamente reavivado, por meio da vida, a Vida. Pois o Senhor veio buscar a ovelha perdida, isto é, o homem que havia se perdido. De onde não fez o Senhor outra carne senão daquela mesma que trouxe origem a Adão e dela conservou a semelhança. Porque era conveniente e justo que Adão fosse recapitulado em Cristo, a fim de que fosse precipitado e submergido o que é mortal na imortalidade, e que Eva fosse recapitulada em Maria, a fim de que uma Virgem, chamada a ser advogada de uma virgem [Eva], descesse e destruísse a desobediência virginal através da obediência virginal. O pecado cometido por causa da árvore foi anulado pela obediência cumprida na árvore, obediência a Deus pela qual o Filho do homem foi elevado na árvore, abolindo a ciência do mal e aportando e presenteando com a ciência do bem. O mal é desobedecer a Deus; o bem, ao contrário, é obedecer [a Ele].&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A crucificação cósmica&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;34. O Verbo, preanunciando por meio do profeta Isaías os acontecimentos futuros - são profetas porque anunciam o que irá acontecer - se expressa assim: &amp;#8220;Eu não me rebelo, nem me contradigo. Ofereci minhas costas aos açoites e minha face às bofetadas; não furtarei meu rosto à afronta das cuspidas&amp;#8221; (Is. 50,5-6). Assim, pois, pela obediência a que se submeteu até a morte, pendurado no madeiro, destruiu a desobediência antiga cometida na árvore. E como o próprio Verbo onipotente de Deus, em sua condição invisível, está entre nós estendido por todo este universo [visível] e abraça sua largura e sua extensão e sua altura e sua profundidade - pois por intermédio do Verbo de Deus foram dispostas e governadas aqui todas as coisas -, a crucificação [visível] do Filho de Deus teve também lugar nessas [dimensões, antecipadas invisivelmente] na forma da cruz traçada [por Ele] no universo. Ao surgir visivelmente, manifestou a participação deste universo [sensível] em sua crucificação [invisível], a fim de revelar, graças à sua forma visível, sua ação [misteriosa e oculta] sobre o visível, a saber, como é Ele quem ilumina a altura - isto é, o celeste - e contém a profundidade - as regiões subterrâneas - e se estende ao largo, do Oriente até o Ocaso, e governa, como comandante, a região norte e a extensão da Média, e convoca todas as partes e os dispersos para conhecer ao Pai.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O cumprimento da promessa de Abraão&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;35. Realizou-se, assim, a promessa feita por Deus a Abraão, segundo a qual sua descendência seria como as estrelas do céu. Cristo cumpriu a promessa nascendo de uma Virgem, da estirpe de Abraão, e convertendo em estrelas do mundo os crentes n’Ele e justificando os gentios com Abraão por meio da mesma fé. &amp;#8220;Abraão creu no Senhor e foi reputado por justo&amp;#8221; (Gen. 15,6). Do mesmo modo, também nós somos justificados em virtude da fé em Deus, porque o justo viverá pela fé. A promessa de Abraão não foi feita pelo cumprimento da lei, mas pela fé. De fato, Abraão foi justificado pela fé: &amp;#8220;a lei não foi estabelecida para o justo&amp;#8221; (1Tim. 1,9). De igual forma, também nós não somos justificados pela lei, mas sim pela fé, que foi recebida pelo testemunho da lei e dos profetas, e que nos apresenta o Verbo de Deus.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Cristo, nascido da Virgem, da descendência de Davi&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;36. E cumpriu o que foi prometido a Davi, pois Deus havia se comprometido a suscitar do fruto de seu seio um Rei eterno, cujo reino não teria fim. Este Rei é Cristo, Filho de Deus, feito filho do homem, isto é, nascido, como fruto, da Virgem descendente de Davi; e se a promessa foi do fruto de seu seio - a saber, um rebento da concepção característica da mulher, e não fruto do homem nem dos rins, como é característico do varão - era para anunciar o que era de único e próprio na produção deste fruto de um seio virginal procedente de Davi, que reina na casa de Davi pelos séculos e cujo reino não conhecerá fim.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A Encarnação: destruição da morte e dom da vida&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;37. Em tais condições, pois, realizava magnificamente nossa salvação, mantinha as promessas feitas aos patriarcas e abolia a antiga desobediência. O Filho de Deus se fez filho de Davi e filho de Abraão. Para cumprir as promessas e recapitulá-las em Si mesmo, com o fim de restituir-nos à vida, o Verbo de Deus se fez carne pelo ministério da Virgem, a fim de desatar a morte e vivificar o homem, porque nós estávamos presos pelo pecado e destinados a nascer através do regime do pecado e a cair sob o império da morte.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Nascimento, morte e ressurreição de Cristo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;38. Deus Pai, por sua imensa misericórdia, enviou seu Verbo criador, o qual, vindo para nos salvar, esteve nos mesmos lugares, nas mesmas situações e ambientes onde perdemos a vida. E rompeu as correntes que nos faziam prisioneiros. Apareceu sua luz e fez desaparecer as trevas da prisão; santificou nosso nascimento e aboliu a morte, desatando aqueles mesmos laços que nos prendiam. Manifestou a ressurreição, tornando-se pessoalmente o primogênito dos mortos; sua pessoa levantou o homem caído sobre a terra, ao elevar-se às alturas do céu, estabelecendo-se à direita do Pai, como Deus prometera ao profeta que diz: &amp;#8220;Levantarei a tenda de Davi, caída sobre a terra&amp;#8221; (Am. 9,11), isto é, o corpo que provinha de Davi. Nosso Senhor Jesus Cristo cumpriu realmente isto, atuando gloriosamente a nossa salvação, a fim de ressuscitarmos verdadeiramente e nos apresentarmos livres diante do Pai. E se alguém não aceita o seu nascimento a partir de uma virgem, como admitirá sua ressurreição entre os mortos? Porque nada tem de milagroso, estranho e inesperado o que ressuscitou dos mortos sem ter antes nascido; nem sequer podemos falar de ressurreição d’Aquele que veio à existência sem nascer; quem não nasce, com efeito, é imortal; e quem não se submete ao nascimento tampouco estará sujeito à morte. Ora, quem não obteve o princípio humano, como poderá obter seu fim?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Cristo, primogênito de toda a criação&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;39. Sim, pois se não nasceu, tampouco morreu. E se não morreu, tampouco ressuscitou dos mortos. E se não ressuscitou dos mortos, não venceu a Morte, nem destruiu seu império. E se não caiu vencida a Morte, como obterão a vida aqueles que, desde as origens, sucumbiram ao império da Morte? Esses, que negam ao homem a redenção e não crêem que Deus o ressuscitará dos mortos, desprezam também a natividade de nosso Senhor, que por nós se submeteu o Verbo de Deus, fazendo-se carne, a fim de mostrar a ressurreição da carne e ter a primazia sobre todos no céu. Como primogênito da mente do Pai, o Verbo perfeito dirige todas as coisas pessoalmente e legisla sobre a terra; como primogênito da Virgem, é justo, homem santo, piedoso, bom, agradável a Deus, perfeito em tudo e livra do inferno todos os que O seguem; como primogênito dos mortos, é origem e sinal da vida de Deus.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A contínua chamada do Verbo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;40. Assim, pois, o Verbo de Deus ostenta o primado sobre todas as coisas, porque é verdadeiro homem e &amp;#8220;admirável conselheiro e Deus forte&amp;#8221; (Is. 9,6), que chama novamente [com a ressurreição] o homem à comunhão com Deus para que, por intermédio da comunhão com Ele, participemos da incorruptibilidade. O que foi anunciado por Moisés e pelos profetas do Deus altíssimo e onipotente, Pai do universo, origem de tudo, que conversou com Moisés, veio à Judéia, gerado por Deus através do Espírito Santo e nascido da Virgem Maria, era da estirpe de Davi e de Abraão: Jesus, o Ungido de Deus, o que se revelou a Si mesmo, como havia sido predito pelos profetas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A Igreja comunica o espírito de salvação por meio do Batismo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;41. João Batista, o precursor, quando preparava e dispunha o povo para receber o Verbo da vida, fez saber que este era o Cristo, sobre quem o Espírito de Deus havia pousado, unindo com sua carne. Os discípulos e testemunhas de todas as suas boas obras, de seu ensino, de sua Paixão, de sua morte, de sua ressurreição, de sua ascensão ao céu após a ressurreição corporal, isto é, os apóstolos, com o poder do Espírito Santo, foram enviados por Ele para toda terra, convocaram os gentios, ensinaram aos homens o caminho da vida para afastá-los dos ídolos, da fornicação e da avareza, purificaram suas almas e seus corpos com o batismo de água e do Espírito Santo, distribuíram e administraram aos crentes este Espírito que receberam do Senhor. Assim, instituíram e fundaram esta Igreja. Com a fé, a caridade e a esperança, confirmaram a chamada dos gentios que, preanunciada pelos profetas, lhes foi dirigida segundo a misericórdia de Deus, manifestada com seu ministério, acolhendo-os na promessa feita aos patriarcas, isto é, àqueles que creram e amaram a Deus. E aos que vivem em sua santidade, a justiça e a paciência, o Deus de todos outorgará a vida eterna, por meio da ressurreição dos mortos. Graças Àquele que morreu e ressuscitou, Jesus Cristo, a quem [Deus Pai] confiou a realeza sobre todos os seres da terra, a autoridade sobre os vivos e os mortos e o juízo. Os apóstolos, com a palavra da verdade, exortaram os gentios a guardarem seus corpos sem mancha, tendo em vista a ressurreição, e sua alma afastada da corrupção.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A DEMOSTRAÇÃO PROFÉTICA (caps. 42-85)&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A obra do Espírito nos fiéis e nos profetas&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;42. Com efeito, assim devem se comportar os crentes, pelo fato de que neles habita permanentemente o Espírito Santo, dado pelo Senhor no momento do batismo e custodiado por aquele que O recebe, se é que vive na verdade e santidade, na justiça e paciência. De fato, a ressurreição dos crentes é também obra deste Espírito, quando o corpo acolhe novamente a alma e, unida a ela, ressuscita pela força do Espírito Santo, introduzindo-se no reino de Deus. O fruto da bênção de Jafet é manifestado pela Igreja, que chamou os gentios que vivem em contínua obediência, para poder habitar a casa de Sem, segundo a promessa de Deus. Que estas coisas ocorreriam, predisse o Espírito Santo por meio dos profetas, a fim de que todos os que servem a Deus na verdade tenham fé firme sobre elas. Na verdade, todos esses fatos impossíveis à natureza humana e, portanto, pouco críveis aos homens, Deus, através dos profetas, os predisse muito tempo antes - e se realizaram cada um a seu tempo, como se anunciara - para que, pelo fato de terem sido profetizados, mesmo muito tempo antes, conhecêssemos que era Deus e que, desde o princípio, havia preanunciado a nossa salvação.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Identidade entre o Verbo e o Filho de Deus, por meio do qual tudo foi feito&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;43. Devemos crer em Deus porque Ele é verdadeiro em tudo. E crer que um Filho existia em Deus e que existia não só antes da sua aparição sobre o mundo mas também antes que o mundo fosse criado. Moisés foi o primeiro a profetizá-Lo, quando escreveu em hebraico: &amp;#8220;beresit bara elovim basan benowam sament’ares&amp;#8221;. Isto significa: &amp;#8220;No princípio Deus estabeleceu o Filho, logo estabeleceu o céu e a terra&amp;#8221;. O profeta Jeremias O testemunhou quando disse: &amp;#8220;Antes da estrela da manhã te gerar e antes do sol, [é] teu nome&amp;#8221;, isto é, antes da criação do mundo e antes das estrelas criadas com o mundo. Disse, todavia: &amp;#8220;Ditoso Aquele que existia antes de ser homem&amp;#8221;, pois, para Deus, o Filho foi o princípio anterior à criação do mundo, porém, para nós, não existe a partir de agora, isto é, desde que se manifestou. Antes, pois, não existia para nós, porque não O conhecíamos. Por isso, seu discípulo João, explicando-nos quem era o Filho de Deus que estava junto ao Pai antes que o mundo fosse formado e, por sua mediação, tudo foi criado, disse: &amp;#8220;No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava, no princípio, com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele e, sem Ele, nada do que foi feito se faria&amp;#8221; (Jo. 1,1-3). Desta forma, demonstra claramente que todas as coisas foram criadas por meio deste Verbo, o qual desde o princípio estava com o Pai, isto é, seu Filho.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O Filho de Deus conversa com Abraão&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;44. Diz também Moisés que o Filho de Deus se aproximou de Abraão para conversar como ele: &amp;#8220;E Deus apareceu junto aos carvalhos de Mambré, ao meio dia&amp;#8230; E levantando os olhos, viu três homens de pé frente a ele; se prostrou por terra, dizendo: ‘Se realmente encontrei graça aos vossos olhos&amp;#8230;’&amp;#8221; (Gen. 18,1-3). E, em continuação, o que dialogaram entre si. Pois bem, dois dos três eram anjos, mas o terceiro era o Filho de Deus. A Ele também se dirigiu Abraão, ao suplicar-lhe pelos habitantes de Sodoma, para que não fossem exterminados se ao menos fossem encontrados dez justos entre eles. Não obstante a isso, os dois anjos que vieram a Sodoma foram recebidos por Lot. A este respeito diz a Escritura: &amp;#8220;O Senhor fez chover enxofre e fogo provenientes do Senhor, a partir do céu, sobre Sodoma e Gomorra&amp;#8221; (Gen. 19,24). Quer dizer que o Filho, aquele mesmo que conversava com Abraão, sendo &amp;#8220;Senhor&amp;#8221;, recebera o poder de castigar os habitantes de Sodoma, &amp;#8220;do Senhor, a partir do céu&amp;#8221;, do Pai, que é o Senhor do universo. Abraão, pois, era profeta e viu o que se sucederia no futuro, a saber, como o Filho de Deus, sob a forma humana, conversaria com os homens, comeria com eles e logo exerceria o ofício de juiz, pelo fato de ter recebido do Pai, Senhor do universo, a autoridade para castigar os habitantes de Sodoma.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Jacó contempla o Verbo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;45. E também Jacó, quando viajou à Mesopotâmia, sonhou que estava de pé, no alto de uma escada, isto é, no madeiro que fixava a terra ao céu. Pois, por este madeiro, os que crêem n’Ele ascendem ao céu, porque sua paixão é nossa ascensão. Todas as visões deste gênero significam o Filho de Deus que conversa com os homens e está no meio deles. Certamente, não é o Pai do universo, invisível ao mundo e criador de tudo, quem diz: &amp;#8220;O céu é o meu trono e a terra o estrado de meus pés; que casa edificareis para o meu descanso?&amp;#8221; (Is. 66,1-2; At. 7,49), e: &amp;#8220;Quem sustenta a terra em um punho e o céu na palma da mão?&amp;#8221; (Is. 40,12). Não era certamente Ele que estava de pé em um pequeno espaço e conversava com Abraão, mas sim o Verbo de Deus que, sempre presente no meio do gênero humano, nos dava a conhecer antecipadamente o que iria se suceder e instruía os homens sobre as coisas de Deus.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O Filho de Deus conversa com Moisés&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;46. Foi Ele que na sarça ardente conversou com Moisés e disse: &amp;#8220;Tenho visto os sofrimentos do meu povo no Egito e vim libertá-lo&amp;#8221; (Ex. 3,7-8). Ele subia e descia para libertar os oprimidos, arrancando-os do poder dos egípcios, isto é, de toda classe de idolatria e impiedade; salvando-os do mar Vermelho, isto é, libertando-os das turbulências homicidas dos gentios e das águas amargas de suas blasfêmias. Estes acontecimentos eram contínua repetição do que se refere a nós, no sentido de que o Verbo de Deus mostrava, antecipadamente, o que ocorreria no futuro, enquanto que, agora, nos arranca de verdade da servidão cruel dos gentios. E no deserto, fez brotar, com abundância, a partir da pedra, um rio de água. E a pedra era Ele. E produziu fontes potáveis, isto é, a doutrina dos doze apóstolos. E aos recalcitrantes e incrédulos, fez morrer e desaparecer no deserto; e aos que creram n’Ele, feitos meninos para a malícia, os introduziu na herança dos pais, que recebeu e distribuiu, não Moisés, mas Jesus. E mais: nos libertou de Amaleq, estendendo suas mãos, e nos conduziu e elevou ao reino do Pai.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A Unção do Verbo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;47. O Pai, pois, é Senhor e o Filho é Senhor; é Deus o Pai e é Deus o Filho, porque o que nasceu de Deus é Deus. Assim, segundo a essência de seu ser e de seu poder, há um só Deus; porém, ao mesmo tempo, na administração da economia de nossa redenção, Deus aparece como Pai e como Filho. E visto que o Pai do universo é invisível e inacessível aos seres criados, é por meio do Filho que os destinados a aproximarem-se de Deus devem conseguir o acesso ao Pai. Davi, clara e objetivamente, se expressou deste modo a propósito do Pai e do Filho: &amp;#8220;Teu trono, ó Deus, permanece para sempre; tu amas a justiça e detestas a iniqüidade. Por isso, Deus te ungiu com óleo de alegria mais que aos teus companheiros&amp;#8221;. Isto significa que o Filho, enquanto Deus, recebe do Pai, isto é, de Deus, o trono de um reino eterno e o óleo da unção mais que seus companheiros. O óleo da unção é o Espírito Santo com que é ungido, e seus companheiros são os profetas, os justos, os apóstolos e todos os que participam do reino, isto é, seus discípulos.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O primado e realeza de Cristo, Sacerdote eterno&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;48. E também disse Davi: &amp;#8220;Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que eu faça dos teus inimigos o estrado de teus pés. A partir de Sião, estenderá o Senhor um cetro de poder, dominará em meio aos teus inimigos! Contigo, no princípio, no dia do teu poder, no esplendor dos santos, do seio antes da aurora, te gerei. O Senhor jurou e não se arrependerá. Tu és sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedec e o Senhor está à tua direita. No dia de sua cólera, derrubará os reis, julgará as nações, encherá de ruínas e quebrará as cabeças de muitos sobre a terra. No caminho, beberá da torrente e, por isso, levantará a cabeça&amp;#8221; (Sal. 109,1-7). Por estas palavras, anunciou que veio primeiro à existência, dominou os povos, julgou os homens e os reis, e os que o aborrecem agora e perseguem seu nome, pois esses são seus inimigos. Denominando-lhe &amp;#8220;sacerdote eterno&amp;#8221; de Deus, declara-lhe a imortalidade. Quando disse: &amp;#8220;No caminho, beberá da torrente e, por isso, levantará a cabeça&amp;#8221;, se referia à sua exaltação gloriosa, depois de sua condição humana, de sua humilhação e rejeição.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O Filho de Deus rei universal&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;49. O profeta Isaías, por sua vez, afirma: &amp;#8220;Assim diz o Senhor Deus ao Ungido, meu Senhor, o qual coloquei à minha direita para que O obedeçam as nações&amp;#8221; (Is. 45,1). Quanto à afirmação de que o Filho de Deus é chamado Ungido e rei das nações, significa: de todos os homens. Davi repete que Ele é chamado Filho de Deus e rei de todos, com estas palavras: &amp;#8220;O Senhor me disse: tu és meu Filho. Eu te gerei hoje. Pede e te darei como herança as nações; as darei como propriedade até os confins da terra&amp;#8221; (Sal. 2,7-8). Estas palavras não foram pronunciadas com referência a Davi, pois não governou todas as nações, nem toda terra, mas somente os judeus. É, pois, evidente, que a promessa feita ao Ungido, de reinar sobre toda a terra, se refere ao Filho de Deus, Aquele que o próprio Davi reconhece como seu Senhor quando escreve: &amp;#8220;Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita&amp;#8221; (Sal. 109,1), como nos referimos há pouco. Com efeito, isto significa que o Pai conversa com o Filho, como demonstramos acima, à propósito de Isaías que diz: &amp;#8220;Assim disse o Senhor ao Ungido, meu Senhor: obedeçam-te as nações&amp;#8221;. Idêntica promessa aparece em ambos os profetas: Ele será rei - consequentemente, as palavras de Deus se referem a uma só e mesma pessoa, a saber, Cristo, Filho de Deus. Desde o momento em que Davi disse: &amp;#8220;Disse o Senhor&amp;#8221;, é preciso afirmar que nem Davi nem outro profeta falam por iniciativa própria, pois não é o homem quem profere profecias, mas o Espírito de Deus, o qual, tomando figura e formas semelhantes às pessoas interessadas, falava pelos profetas e discorria ora em nome de Cristo, ora em nome do Pai.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Testemunho dos profetas sobre a preexistência de Cristo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;50. Oportunamente, pois, Cristo afirma, por intermédio de Davi, que o Pai fala com Ele, e, por meio dos profetas, diz Ele mesmo, por conta própria, as demais coisas, como, por exemplo, entre outras que Isaías escreveu: &amp;#8220;E agora, assim fala o Senhor, o que me formou para ser seu servidor desde o seio materno, para fazer que Jacó volte a Ele e que se una a Israel. Serei glorificado aos olhos do Senhor e meu Deus será a minha força&amp;#8230; Ele me disse: ‘Grande coisa será para ti ser chamado de meu servo, para levantar e restabelecer as tribos de Jacó e fazer voltar os afastados de Israel. Te coloquei como luz das gentes, para que a minha salvação alcance até os confins da terra’&amp;#8221; (Is. 49,5-6).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O Filho servo do Pai&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;51. Porque aqui, sobretudo, do colóquio do Pai com o Filho e do fato de que ainda antes de seu nascimento o Pai O fez visível aos homens, deduz-se a preexistência do Filho de Deus. Depois, [também se manifesta], ainda antes de nascer, o que deveria ser homem nascido de humanos, o que Deus formaria do seu seio - isto é, que nasceria do Espírito de Deus -, o que é Senhor de todos os homens e Salvador dos que crêem n’Ele, dos judeus e de todos os homens. &amp;#8220;Israel&amp;#8221;, de fato, é o nome do povo judeu em língua hebraica, nome que provém do patriarca Jacó, que foi o primeiro a ser chamado &amp;#8220;Israel&amp;#8221;; e denomina &amp;#8220;gentios&amp;#8221; a todos os homens. O Filho de Deus chama a Si mesmo &amp;#8220;servo do Pai&amp;#8221;, por causa de sua obediência ao Pai, já que todo filho, ainda aqui entre os homens, é servo do seu pai.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A preexistência à luz da Escritura&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;52. Cristo, Filho de Deus, existente antes do mundo, estava com o Pai e junto ao Pai, e, ao mesmo tempo, próximo aos homens e em íntima união com eles, rei do universo, pois o Pai lhe submeteu todas as coisas; é Salvador daqueles que crêem n’Ele; tal é a mensagem dos textos da Escritura. Porque não é nossa intenção, nem está, por outro lado, dentro de nossas possibilidades, fazer a relação de todos os textos bíblicos, mas com o auxílio das passagens já citadas, poderás compreender também as outras que falam de maneira semelhante, devendo interpretá-las com a condição de que creias em Cristo e peças a Deus sabedoria e inteligência para compreender tudo o que foi dito pelos profetas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O sinal profético que anuncia o Messias-Cristo e Jesus-Salvador&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;53. Que este Cristo, que estava junto ao Pai, deveria encarnar-se, fazer-se homem, submeter-se à geração e ao nascimento de uma Virgem, e viver entre os homens, operando, assim mesmo, o Pai do universo sua encarnação, é o que expressa Isaías: &amp;#8220;Pois o Senhor mesmo vos dará um sinal; eis que uma virgem conceberá e dará à luz a um filho, que chamareis Emanuel; comerá manteiga e mel e, antes de distinguir o mal, escolherá o bem, porque antes que esse menino conheça o bem e o mal, rejeitará o mal para escolher o bem&amp;#8221; (Is. 7,14-16). Apontou que nasceria de uma Virgem; demonstrou que seria verdadeiramente homem pelo fato de comer e chamar-lhe &amp;#8220;menino&amp;#8221;, e até mesmo a designar seu nome, já que este provém do porquê nasceu. Em hebraico, tem um duplo nome: Messias-Cristo e Jesus-Salvador. Estes dois nomes indicam as obras que realizaria. Com efeito, ao receber o nome de Cristo, porque o Pai, por seu intermédio e considerando sua vinda como homem, O ungiu e lhe dispôs todas as coisas; porque foi ungido pelo Espírito de Deus, seu Pai, como afirma, referindo-se a Si mesmo em Isaías: &amp;#8220;O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para levar a boa nova aos pobres&amp;#8221; (Is. 61,1). E o nome de Salvador porque é causa de salvação para todos os que, a partir de então, foram libertados por Ele de toda enfermidade e da morte; para os que viessem a crer n’Ele após estes, também dá a salvação eterna.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Emanuel: Deus conosco&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;54. Eis aqui por que é chamado de Salvador: Emanuel se traduz por &amp;#8220;Deus conosco&amp;#8221;, ou como expressão de bom desejo formulada pelo profeta, &amp;#8220;Deus está conosco&amp;#8221;. Deste modo, Ele é a interpretação e a revelação da boa nova. Por isso diz: &amp;#8220;Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz a um filho&amp;#8221; (Is. 7,14). E este, que é Deus, tem o destino de estar conosco. E ao mesmo tempo, maravilhado por tal acontecimento, anuncia o que se sucederá, isto é, que Deus estará conosco. E também, com relação ao seu nascimento, o mesmo profeta diz em outra parte: &amp;#8220;Antes que gere a que está em dores e antes que cheguem as dores do parto, dará à luz um menino&amp;#8221; (Is. 66,7). Assim, deu a conhecer o inesperado e inaudito de seu nascimento a partir de uma Virgem. O mesmo profeta diz também: &amp;#8220;Um filho nos nasceu, um menino nos foi dado; e recebeu o nome ‘Admirável Conselheiro’, ‘Deus Forte’&amp;#8221; (Is. 9,6).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Admirável Conselheiro&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;55. É chamado &amp;#8220;Admirável Conselheiro&amp;#8221;, seja do Pai, seja nosso! Do Pai é indicado pelo fato de que o Pai fez com ele todas as coisas, segundo diz o primeiro livro de Moisés, intitulado &amp;#8220;Gênese&amp;#8221;: &amp;#8220;E disse Deus: façamos o homem à nossa imagem e semelhança&amp;#8221; (Gen. 1,26). Aqui, visivelmente, falou o Pai ao Filho, como Admirável Conselheiro do Pai&amp;#8230; Ele também é nosso conselheiro; fala e não obriga, como Deus, ainda que seja igualmente como o Pai, &amp;#8220;Deus forte&amp;#8221;. Nos aconselha a renunciar à ignorância e receber o conhecimento, aparta-nos do erro para conduzir à verdade, rejeitar a corrupção para possuir a incorruptibilidade.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A paz e seu domínio não terão limites&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;56. E Isaías diz de novo: &amp;#8220;Quererão ser consumidos pelo fogo, porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, em cujos ombros esteve o poder e é chamado com o nome do anjo do grande conselho. E trará a paz entre os príncipes e também a paz e a salvação para Ele. Grande é o seu domínio e a paz não terá limites sobre o trono de Davi e seu reino, para sustentá-lo e consolidá-lo com a justiça e o direito, a partir de agora e para sempre&amp;#8221; (Is. 9,5-7 [LXX]). Nestes termos é anunciado o nascimento do Filho de Deus e a eternidade do seu reino. Porém, as palavras &amp;#8220;quererão ser consumidos pelo fogo&amp;#8221; (Is. 9,5 [LXX]) são ditas dirigindo-se àqueles que não crêem no Emanuel e lutaram contra Ele. Pois dirão no dia do Juízo: &amp;#8220;Oxalá tivéssemos sido queimados antes do nascimento do Filho de Deus que não ter crido n’Ele após seu nascimento!&amp;#8221;, porque aqueles que morreram antes da manifestação de Cristo têm esperança de obter a salvação no Juízo do Ressuscitado. A esta categoria pertencem todos os que temeram a Deus e morreram na justiça, possuídos pelo Espírito de Deus, como os patriarcas, os profetas e os justos. Mas para aqueles que após a manifestação de Cristo não creram n’Ele, será inexorável a reivindicação em juízo. Quanto à expressão &amp;#8220;em cujos ombros estiveram o poder&amp;#8221; (Is. 9,6), designa-se alegoricamente a cruz, na qual teve pregados seus braços, porque a cruz, que era e é opróbrio para Ele - e para nós, em razão d’Ele - essa mesma cruz é, dizemos, seu poder, a saber, o sinal de sua realeza. É chamado &amp;#8220;anjo do grande conselho&amp;#8221; d’Aquele Pai que Ele nos revelou.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O esperado das nações&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;57. Por tudo o que foi dito e exposto, com a ajuda dos profetas, está claro que o Filho de Deus deveria nascer, a maneira como deveria nascer e como se daria a conhecer como Cristo. Inclusive, foi predito em qual país e entre quais homens deveria nascer e dar-se a conhecer. Assim o dá a entender Moisés, na Gênese: &amp;#8220;Não faltará um príncipe a Judá, nem um chefe de sua estirpe, até que venha Aquele a quem está reservado; e Ele será esperado pelo povo, lavará no vinho sua vestimenta e no produto da uva o seu manto&amp;#8221; (Gen. 49, 10-11). Porém, Judá, filho de Jacó, é o antepassado dos judeus, de quem estes tomaram seus nomes. Até a vinda de Cristo, não lhes faltou nem príncipe, nem chefe. Porém, depois da sua vinda, foram-lhes retiradas as armas e o país dos judeus foi submetido pelos romanos e não mais voltou a ter um príncipe ou rei próprio, já que havia vindo Aquele a quem está reservado o reino do céu, Aquele que lavou &amp;#8220;sua vestimenta no vinho e no produto da uva&amp;#8221;. Sua vestimenta, igual ao manto, são aqueles que crêem n’Ele, a quem Ele também purificou, com seu sangue. E Seu sangue se diz &amp;#8220;de uva&amp;#8221; porque assim como não é produto do homem o produto da uva (mas de Deus, que faz com que se alegrem aqueles que dele bebem), de igual forma Seu corpo e Seu sangue não são obra do homem, mas de Deus. O próprio Senhor deu o sinal da Virgem, isto é, o Emanuel nascido da Virgem, e alegra os ânimos de quem o bebe, isto é, daqueles que recebem seu Espírito, alegria eterna. Por isso, também é esperado pelo povo, para aqueles que esperam n’Ele; também nós esperamos d’Ele a restauração do reino.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A estrela de Jacó&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;58. E Moisés, quando escreve novamente: &amp;#8220;Se levantará uma estrela de Jacó e um chefe surgirá de Israel&amp;#8221; (Núm. 24,17), anuncia explicitamente que a economia de Sua encarnação se realizará entre os hebreus e que Aquele que desceu do céu e nasceu de Jacó e da estirpe judaica se submeteu a esta economia. Porque uma estrela apareceu no céu e se se chama chefe a um rei é porque este é o rei de todos os salvos. Por outro lado, esta estrela apareceu, quando de Seu nascimento, aos magos que habitavam no Oriente e, por seu intermédio, tomaram conhecimento do nascimento de Cristo. Guiados pela estrela, vieram à Judéia, até que a estrela chegou em Belém, onde tinha nascido Cristo, e, entrando na casa onde o menino estava envolto em panos, se deteve sobre sua cabeça, indicando aos magos o Filho de Deus, Cristo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O broto de Jessé&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;59. E o mesmo Isaías diz uma vez mais: &amp;#8220;Sairá um broto do tronco de Jessé e de sua raiz brotará uma flor. Sobre Ele pousará o Espírito de Deus, espírito de sabedoria e inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de piedade. O espírito o encherá de temor de Deus. Não julgará apenas pela opinião, nem acusará somente pelos rumores, mas julgará a causa do humilde e terá piedade dos humildes da terra. Castigará a terra com a palavra da sua boca, executará o ímpio com o sopro dos seus lábios. A justiça será o cinturão de seu lombo e a lealdade o cinturão de seus rins. Pastará o lobo com o cordeiro, o leopardo com o cabrito, o novilho e o leão pastarão juntos&amp;#8230; A criança colocará a mão na boca da áspide e na toca das víboras e não lhe causarão dano. Naquele dia sucederá&amp;#8230; A raiz de Jessé é aquele que se verga para exercer o poder sobre as nações e estas a Ele buscaram; e sua ressurreição será gloriosa&amp;#8221; (Is. 11,1-10). Com estas palavras, quer dizer que nascerá daquela que descende de Davi e de Abraão. Efetivamente, Jessé descendia de Abraão e era pai de Davi. Deste modo, a Virgem, que concebeu a Cristo era o broto. Por isso, Moisés fazia seus prodígios perante o faraó, servindo-se de um bastão. Entre os homens, o bastão é símbolo de poder. Chama &amp;#8220;flor&amp;#8221; ao seu corpo, que floresceu sob a ação do Espírito, como já indicamos.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Justo Juiz&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;60. Quanto a: &amp;#8220;Não julgará somente pela opinião, nem acusará somente pelos rumores, mas julgará a causa do humilde e terá piedade do humilde da terra&amp;#8221; (Is. 11,3-4), dá a entender, com maior firmeza, sua divindade. Pois julgar imparcialmente e sem acepção de pessoas, sem honrar o ilustre e outorgando ao pobre o que merece em eqüidade e igualdade é conforme à suprema e celeste justiça de Deus. Deus, com efeito, não se deixa influenciar por ninguém, e só se compadece do justo. E fazer misericórdia é próprio e peculiar daquele Deus que pode, assim mesmo, salvar em virtude da sua misericórdia. E &amp;#8220;ferirá a terra com uma palavra e destruirá o ímpio com uma só palavra&amp;#8221; (Is. 11,4) é próprio de Deus que faz todas as coisas com seu Verbo. Quando disse: &amp;#8220;A justiça será o cinturão de seu lobo e a verdade cinturão de seus rins&amp;#8221; (Is. 11,5), anuncia sua forma externa humana e sua verdadeira e suprema justiça.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A concordância e a paz universal&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;61. Quanto ao entendimento, a concórdia e a paz entre os animais de espécies diferentes e que, por natureza, são contrários e hostis uns aos outros, ensinam os Presbíteros que assim será verdadeiramente quando da vinda de Cristo, no tempo que deverá pessoalmente reinar sobre todas as coisas. Pois já [aqui], simbolicamente, dá a conhecer que os homens de raças diferentes, mas de costumes semelhantes, se juntarão na concórdia e paz, graças ao nome de Cristo; porque os justos [unidos], vistos que comparados aos novilhos, cordeiros, cabritos e crianças pequenas, não sofrerão dano por parte de ninguém que, em época anterior, eram - homens e mulheres - bestas ferozes, em razão de sua cobiça, por formas e costumes, a ponto de alguns se assemelharem a lobos ou leões; ou despojavam dos bens os mais pobres e empreendiam guerra contra seus semelhantes; ou mulheres que eram como leopardos e víboras, quando, recorrendo a venenos mortais, entregavam à morte seus próprios amantes, ou os arrastavam em paixões&amp;#8230; Reunidos sob um só nome, passarão a ter costumes justos, pela graça de Deus, mudando sua natureza selvagem e feroz. Isso já ocorreu, pois os que antes eram extremamente cruéis, a ponto de não retroceder em nenhum ato ímpio, uma vez instruídos sobre Cristo e acreditando n’Ele, têm testemunhado a fé e mudado a ponto de não retrocederem perante nenhum excesso de justiça. Grande é a mudança que a fé em Cristo, Filho de Deus, opera naqueles que crêem n’Ele. E se diz: &amp;#8220;Se levantou para governar os gentios&amp;#8221; (Is. 11,10), é porque, uma vez morto, ressuscitará e será confessado e aceito por Filho de Deus, rei. Por isso, diz: &amp;#8220;E sua ressurreição será gloriosa&amp;#8221; (Is. 11,10), isto é, magnífica, porque no momento em que ressuscitou foi glorificado como Deus.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A tenda de Davi e o corpo de Cristo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;62. Por isso, o profeta, quando diz: &amp;#8220;Naquele dia levantarei a tenda de Davi, caída sobre a terra&amp;#8221; (Am. 9,11), afirma claramente que o corpo de Cristo, nascido de Davi, como dissemos, depois da morte, é ressuscitado dos mortos. Chama tenda ao seu corpo e, com efeito, por estas palavras, diz também que Cristo - o qual, segundo a carne, descende de Davi - será Filho de Deus e, depois de sua morte, ressuscitará e será homem no aspecto externo, porém Deus pelo poder, se tornando juiz do universo e o único justo e redentor. Tudo isso se encontra na Escritura.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Belém, pátria de Davi&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;63. Por sua vez, o profeta Miquéias indicou também o lugar do nascimento de Cristo, a saber, em Belém de Judá. Expressa-se assim: &amp;#8220;E tu, Belém de Judá, não és insignificante entre as cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe que será pastor do meu povo, Israel&amp;#8221; (Miq. 5,1). Porém, Belém é também o povo de Davi, de sorte que Cristo é da posterioridade de Davi, não apenas pela Virgem que lhe trouxe à luz, mas também por ter nascido em Belém, pátria de Davi.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Rei para sempre&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;64. Por sua vez, diz Davi que Cristo nasceria da sua posterioridade: &amp;#8220;Por causa de Davi, teu servo, não apartes o rosto de teu Cristo. O Senhor jurou a Davi a verdade e não a mentira: do fruto do teu seio colocarei sobre o teu trono, se teus filhos guardarem a minha aliança e os meus testemunhos, objeto de meu pacto com eles; e assim será até a eternidade&amp;#8221; (Sal. 131,10-12). Mas não há nenhum, entre os filhos de Davi, que tenha reinado até a eternidade, nem seu reino permaneceu para sempre, pois foi destruído; indica, com efeito, o rei que nasceu de Davi, a saber, Cristo. Todos estes testemunhos dão a entender claramente sobre o seu descendente segundo a carne, tanto a linhagem como o lugar onde iria nascer. Os homens não têm razão para procurar o nascimento do Filho de Deus entre os gentios ou em qualquer outro lugar, mas apenas em Belém de Judá, entre a descendência de Abraão e Davi.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A entrada em Jerusalém&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;65. Sua entrada em Jerusalém, a capital da Palestina, onde estava sua residência e o Templo de Deus, é atestada por Isaías: &amp;#8220;Dizei à Filha de Sião: eis que aqui vem o teu doce rei, sentado em um asno, sobre um burrico, filhote de asna&amp;#8221; (Is. 62,11). Entrou em Jerusalém sentado sobre um filhote de asna e a multidão cobria seu caminho com mantos para que passasse por cima. &amp;#8220;Filha de Sião&amp;#8221; é o nome dado à Jerusalém.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O anúncio dos profetas&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;66. Os profetas anunciavam, então, que o Filho de Deus haveria de nascer, a forma e o lugar onde deveria nascer e quem era o Cristo, o único rei eterno. Predisseram também que, uma vez feito homem, haveria de curar aos que efetivamente curou, de ressuscitar os mortos que efetivamente ressuscitou; que seria odiado, desprezado, torturado, assassinado e crucificado, como de fato foi odiado, desprezado e assassinado.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Os milagres de Jesus&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;67. Trataremos agora das curas. Diz Isaías: &amp;#8220;Suportou nossas doenças e agüentou nossas dores&amp;#8221; (Is. 53,4; Mat. 8,17), isto é, suportará e agüentará. Às vezes, o Espírito de Deus narra no passado aos profetas, mas são acontecimentos que se sucederão no futuro. Isto ocorre porque em Deus o que é estabelecido, determinado e destinado a existir já se considera como existente e o Espírito se expressa tendo em conta o tempo em que se realiza a profecia. Nestes termos, recorda os distintos modos de curas: &amp;#8220;Naquele dia, ouvirão os surdos as palavras do livro; e nas trevas e obscuridade verão os olhos dos cegos&amp;#8221; (Is. 29,18). E, todavia: &amp;#8220;Fortalecei-vos, mãos débeis, joelhos vacilantes e débeis; animai-vos, pusilânimes, tomai força, não temais. Olha! Nosso Deus faz justiça, virá nos salvar. Então se abrirão os olhos dos cegos e ouvirão os ouvidos dos surdos; então o coxo saltará como um cervo e se soltará a língua do mudo&amp;#8221; (Is. 35,3-6). E acerca da ressurreição dos mortos, diz: &amp;#8220;Assim ressuscitarão os mortos e se levantarão os que se encontram nos sepulcros&amp;#8221; (Is. 26,19). Quando isto se cumprir, se crerá que é o Filho de Deus&amp;#8230;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A Paixão de Cristo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;68. Isaías diz que seria desprezado, torturado e, finalmente, assassinado: &amp;#8220;Eis aqui sobre o meu Filho: será exaltado e grandemente glorificado. Como muitos se espantarão de ti, assim sem glória será o teu rosto aos olhos dos homens; muitos povos se assombrarão e os reis fecharão a boca porque contemplaram algo inenarrável e compreenderam algo inaudito. Senhor, quem criou nosso anúncio? A quem se revelou o braço do Senhor? Temos narrado perante Ele, como a uma criança, como a uma raiz em terra árida; não tinha figura, nem glória. O vimos sem aspecto e sem beleza. Seu aspecto era desprezível, mais abatido que os demais homens. Homem de dores acostumado a sofrimentos; porque voltava seu rosto para outro lado, era desprezado e diminuído. Ele carregou nossos pecados e sofreu por amor a todos; o temos como vítima da dor, dos golpes e torturas. Foi traspassado por nossos delitos, maltratado por nossos pecados. O castigo que nos dá a paz caiu sobre Ele e suas cicatrizes nos curaram&amp;#8221; (Is. 52,13-53,5). Davi anuncia com estas palavras as suas torturas: &amp;#8220;Fui torturado&amp;#8221; (Sal. 38,9). No entanto, Davi nunca foi torturado, mas Cristo, quando ordenaram que fosse crucificado. Uma vez mais o Verbo diz em Isaías: &amp;#8220;Ofereci as costas aos golpes e a face às bofetadas; não escondi meu rosto dos ultrajes e cusparadas&amp;#8221; (Is. 50,6). O profeta Jeremias repete o mesmo, nestes termos: &amp;#8220;Apresentará a face ao que bate e será cumulado de xingamentos&amp;#8221; (Lam. 3,30). Tudo isto sofreu Cristo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A Paixão e sua sentença&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;69. Isaías continua assim: &amp;#8220;Graças às suas chagas, fomos todos curados. Éramos errantes como um rebanho, cada qual seguia seu próprio caminho e o Senhor o consignou por nossos pecados&amp;#8221; (Is. 53,5-6.7). Está claro que pela vontade do Pai se sucederam estas coisas em favor da nossa salvação. E logo prossegue: &amp;#8220;Apesar de seus padecimentos, não abriu a boca; como ovelha, foi levado ao matadouro; como cordeiro perante o tosquiador está sem voz&amp;#8221; (Is. 53,7). Desta forma, anuncia que aceita livremente a morte. Mas ao dizer o profeta: &amp;#8220;Na humilhação foi eliminado seu juízo&amp;#8221; (Is. 53,8), refere-se ao seu aspecto exterior humilde. Segundo seu aspecto, sem honra foi pronunciada a sentença; e proferida a sentença, conduz alguns à salvação e, a outros, às penas da perdição. Efetivamente, toma a alguns e rejeita a outros. Assim é a sentença: alguns sofrem e tomam para si a própria condenação; para outros, é eliminada e se salvam. Carregam a sentença sobre si aqueles que o crucificaram e, portando-se assim, não creram n’Ele; de tal sorte, a sentença recebida por eles os condenará à perdição entre os tormentos. A sentença foi eliminada para os que n’Ele creram, e já não estão mais sujeitos à ela, isto é, à sentença de condenação. A sentença de condenação, acompanhada de fogo, será o extermínio dos incrédulos, no fim deste mundo.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A geração inenarrável&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;70. A continuação diz: &amp;#8220;Quem narrará seu nascimento?&amp;#8221; (Is. 53,8). Isto se disse para que fiquemos atentos a fim de que não sejamos considerados como homem insignificante e de pouca importância, em razão dos Seus adversários e das dores da Sua Paixão. Aquele que sofreu tudo isto possui origem inefável. Porque, por nascimento, se entende sua origem, ou seja, seu Pai inefável e indescritível. Reconhece, pois, que esta é a origem d’Aquele que suportou esta Paixão. E não desprezes a Paixão que sofreu intencionalmente por ti! Mas, por sua origem, guardai-lhe temor!&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A vida à sombra de seu corpo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;71. Diz em outra parte Jeremias: &amp;#8220;O Espírito de nosso rosto é o Senhor Cristo; como foi apressado em suas redes aquele de quem falamos: à sua sombra viveremos entre as nações&amp;#8221; (Lam. 4,20). A Escritura diz que Cristo, mesmo sendo Espírito de Deus, deveria fazer-se homem, submetido ao sofrimento, e revela, de certo modo, surpresa e sobressalto pela Paixão, como sofreria Aquele à cuja sombra dissemos que iríamos viver. Sombra significa seu corpo, pois assim como a sombra é produzida por um corpo, assim o corpo de Cristo foi produzido por seu Espírito. Mas a palavra sombra significa, também, a humilhação de seu corpo e a facilidade de ser humilhado. Com efeito, como a sombra dos corpos erguidos se projeta ao solo e é pisada pelos pés, assim o corpo de Cristo, atirado à terra na Paixão foi, por assim dizer, pisado pelos pés. Chama-se &amp;#8220;sombra&amp;#8221; ao corpo de Cristo por ter sido a sombra da glória do Espírito que velava. Com freqüência, ao passo do Senhor, havia, ao longo de seu caminho, pessoas afetadas por diversas enfermidades e todas as que eram tocados por sua sombra alcançavam a salvação.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A morte do Justo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;72. E o mesmo profeta, referindo à Paixão de Cristo, diz o seguinte: &amp;#8220;Eis aqui como o Justo pereceu e ninguém deu importância; os justos são retirados do meio e ninguém se preocupa, pois o justo é levado perante a injustiça. Sua sepultura será a paz: ele foi preservado&amp;#8221; (Is. 57,1-4). Que outro alguém foi perfeitamente justo senão o Filho de Deus, que torna justos aqueles que n’Ele crêem, os quais, à semelhança d’Ele, são perseguidos e mortos? Quando diz: &amp;#8220;Sua sepultura será a paz&amp;#8221;, dá a conhecer como morreu por nossa salvação, que está na paz da salvação; e [anuncia] que, por sua morte, aqueles que antes eram inimigos e adversários uns dos outros, tendo acreditado n’Ele, alcançarão a paz entre si, oferecendo e recebendo sinais de amizade em razão da fé comum n’Ele. É exatamente isso o que ocorre. A expressão &amp;#8220;foi preservado&amp;#8221; refere-se à ressurreição dos mortos, porque, após sepultado, ninguém O viu morto. Logo, uma vez morto e ressuscitado, Cristo permaneceria imortal, como diz o profeta, nestes termos: &amp;#8220;Pediu a vida e Tu a concedeste além da longevidade pelos séculos dos séculos&amp;#8221; (Sal. 21,5). Por que disse &amp;#8220;pediu a vida&amp;#8221;, quando deveria morrer? Com efeito, anuncia Sua ressurreição de entre os mortos, e uma vez ressuscitado dos mortos, é imortal. Assim, recebeu a vida para ressuscitar e a &amp;#8220;longevidade pelos séculos dos séculos&amp;#8221; para ser incorruptível.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A morte (sonho) e ressurreição segundo Davi&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;73. E diz novamente Davi, a respeito da morte e ressurreição de Cristo: &amp;#8220;Encostei-me e dormi; despertei porque o Senhor me acolheu&amp;#8221; (Sal. 3,6). Davi não dizia isto de si mesmo, pois uma vez morto, não ressuscitou. Mas o Espírito de Cristo, que também falou d’Ele por outros profetas, fala também agora através de Davi: &amp;#8220;Encostei-me e dormi; despertei porque o Senhor me acolheu&amp;#8221; (Sal. 3,6). Chama a morte de sonho, porque ressuscitou.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Herodes e Pilatos&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;74. Sobre a Paixão de Cristo, Davi diz: &amp;#8220;Porque se agitam os gentios e os povos planejam fracassos? Os reis da terra se aliam e os príncipes conspiram contra o Senhor e seu Ungido&amp;#8221; (Sal. 2,1-2; At. 4,24-28). De fato, Herodes, rei dos judeus, e Pôncio Pilatos, procurador de Cláudio César, reuniram-se e O condenaram à crucificação. Porque Herodes temia perder o reinado, como se Ele quisesse ser um rei mundano; e Pilatos foi obrigado, contra a sua vontade, por Herodes e pelos judeus que o cercavam, a condená-Lo à morte, porque, de outra forma, interpretariam-no como contrário a César, por deixar livre um homem que atribuiu a Si mesmo o título de Rei.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O anúncio da Paixão&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;75. E, a respeito da Paixão, diz também o mesmo profeta: &amp;#8220;Tu nos rejeitaste e desprezaste; repudiaste ao teu Ungido; rompeste a aliança de meu Servo; demoliste o teu santuário, derrubaste sua cerca, estremeceste suas fortalezas; quantos que passam por ali a saqueiam; converteu-se na ironia de seus vizinhos; fortaleceste a energia de seus opressores, alegraste aos seus inimigos; torceste-lhe a espada e não a sustentas no combate; excluíste-lhe da purificação, atirando por terra o seu trono; abreviaste os dias de seu tempo e a cobriste de ignomínia&amp;#8221; (Sal. 88,39-46). O profeta afirma abertamente que Ele deveria sofrer tudo isto, por ser a vontade do Pai. Pela vontade do Pai, sofreu a Paixão.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A captura de Jesus&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;76. Zacarias assim se expressa: &amp;#8220;Apontaste a espada contra o meu Pastor, contra o Homem, meu companheiro; fere o Pastor e se dispersarão as ovelhas do rebanho&amp;#8221; (Zac. 13,7; Mat. 26,31; Luc. 14,27). Isto se sucedeu quando foi capturado pelos judeus. Então todos os discípulos O abandonaram, com medo de perecer com Ele, porque não acreditavam firmemente n’Ele, até que O viram ressuscitado dos mortos.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Jesus, motivo de reconciliação entre Pilatos e Herodes&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;77. E também se diz nos doze profetas: &amp;#8220;Prisioneiro, apresentaram-No ao rei como tributo&amp;#8221; (Os. 10,6 [LXX]). Pôncio Pilatos era procurador da Judéia e guardava então um profundo rancor contra Herodes, rei dos judeus. Neste contexto, Pilatos enviou Cristo, que lhe fora entregue, amarrado, até Herodes, pedindo para que fosse interrogado e confirmasse o que se faria com Ele. Assim, Cristo se converteu em um bom pretexto para [Pilatos] reconciliar-se com o rei.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A descida aos infernos&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;78. E repara com que termos Jeremias se expressa para dar a conhecer Sua morte e Sua descida aos Infernos: &amp;#8220;E o Senhor, o Santo de Israel, preocupou-se com seus mortos, os que já adormeceram no pó da terra, e, descendo até eles, levou-lhes a boa nova de sua salvação para salvá-los&amp;#8221;. Revelam-se, aqui também, as razões da Sua morte, porque Sua descida aos infernos visava a salvação dos defuntos.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Profecias sobre a Cruz&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;79. E novamente à respeito da cruz, diz Isaías: &amp;#8220;Estendi as mãos todos os dias para um povo indócil e rebelde&amp;#8221; (Is. 65,2). Prefigurava, assim, a cruz. E, todavia, diz Davi mais claramente: &amp;#8220;Os cães da casa me rodearam, uma multidão de ímpios me cercou; perfuraram minhas mães e meus pés&amp;#8221; (Sal. 21,17). E novamente: &amp;#8220;Meu coração ficou como cera líquida, em meio às minhas entranhas; meus ossos se desconjuntaram&amp;#8221; (Sal. 21,15). E prossegue, dizendo: &amp;#8220;A espada perdoa a minha alma e perfura minhas carnes, pois uma multidão de ímpios se levantou contra mim&amp;#8221;. Estas passagens mostram e indicam, de um modo claro, a Sua crucificação. Moisés diz a mesma coisa para o seu povo: &amp;#8220;E tua vida passará diante de teus olhos, e temerás dia e noite, e não crerás na tua vida&amp;#8221; (Deut. 28,66).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Profecias sobre as vestes&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;80. De novo, diz Davi: &amp;#8220;Eles me olharam fixamente. Dividiram as minhas vestes e lançaram à sorte a minha túnica&amp;#8221; (Sal. 21,19). Com efeito, quando O crucificaram, os soldados repartiram suas vestes, conforme o costume; &amp;#8220;as vestes foram divididas após tê-las desgarrado; mas, quanto à túnica, como era tecida desde o alto  e sem costura, lançaram à sorte, para ver quem a levava&amp;#8221; (Jo. 19,23-24).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Judas, a venda de Cristo e a compra do campo do oleiro&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;81. O profeta Jeremias acrescenta: &amp;#8220;Tomaram as trinta moedas de prata, o preço de alguém que foi taxado segundo a taxa dos filhos de Israel, e pagaram com elas o campo do oleiro, como me mandara o Senhor&amp;#8221; (Mt. 27,9). Com efeito, Judas, um dos discípulos de Jesus, tendo se comprometido com os judeus e selado com eles um pacto - de fato, sabia que queriam matá-Lo - e porque fora repreendido por Ele, aceitou os trinta denários do país e entregou Cristo. A seguir, movido pelos remorsos do que havia feito, atirou o dinheiro aos pés dos chefes dos judeus e se enforcou. Estes, porém, não consideraram conveniente devolver o dinheiro ao Tesouro, pois era o preço de sangue, e com ele compraram o campo pertencente a um oleiro, para enterrar ali os estrangeiros.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;Profecia sobre o vinagre misturado com fel&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;82. E uma vez crucificado, ao pedir para beber, deram-Lhe vinagre misturado com fel. Isto mesmo havia dito Davi: &amp;#8220;Me darão fel como alimento e, para minha sede, ofereceram-me vinagre para beber&amp;#8221; (Sal. 69,22; Mat. 27,34; Jo. 19,28).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A Ascensão&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;83. Eis aqui o que diz Davi sobre Sua ascensão ao céu, após a ressurreição de entre os mortos: &amp;#8220;Os carros de Deus, em dezenas de milhares, com milhares de cocheiros, tem o Senhor entre eles; em Sião, no Santuário, subiu ao alto, cativou o cativeiro; recebeu e entregou dons aos homens&amp;#8221; (Sal. 67,18-19). Por cativar, entende-se a destruição do poder dos anjos rebeldes. Deu a conhecer o lugar a partir de onde ascenderia, da terra para o céu, isto é, o Senhor, em Sião, ascendeu ao alto (Sal. 67,18). Com efeito, no monte das Oliveiras, em frente a Jerusalém, após ter ressuscitado dos mortos, reuniu seus discípulos e, recordando-lhes sobre o reino dos céus, foi elevado ante seus olhos e viram como O acolhiam, abertos, os céus.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O triunfo do Rei da glória&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;84. A mesma coisa diz novamente Davi: &amp;#8220;Içai, ó príncipes, vossas portas; levantai, portas eternas, e entrará o rei da glória&amp;#8221; (Sal. 23,7). As portas eternas são, efetivamente os céus. Mas como o Verbo desceu invisível para as criaturas, não foi reconhecido por elas. Porém, como se encarnara, fez-se visível quando ascendeu ao céu. Ao vê-Lo, os principados dos anjos inferiores gritaram aos que estavam no firmamento: &amp;#8220;Içai vossas portas; içai, portas eternas, para que entre o rei da glória&amp;#8221;. Estes, assombrados, se perguntavam: &amp;#8220;Quem é este?&amp;#8221;; e os que O tinham visto, atestaram pela segunda vez: &amp;#8220;O Senhor, poderoso e forte, é o rei da glória&amp;#8221; (Sal. 23,10).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;O Juízo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;85. Ressuscitado e ascendido ao céu, aguarda, à direita do Pai, o momento por Ele fixado para julgar todos os seus inimigos, que a Ele serão submetidos. Os inimigos são todos os que se rebelaram: anjos, arcanjos, principados, tronos, os que menosprezaram a verdade. Davi diz ainda: &amp;#8220;Disse o Senhor ao meu Senhor: senta-te à minha direita, até que Eu ponha teus inimigos sob os teus pés&amp;#8221; (Sal. 109,1). Ainda mais, Davi diz que subiu para o lugar de onde tinha vindo: &amp;#8220;Ele sobe dos últimos confins do céu e seu repouso alcança o outro extremo do céu&amp;#8221;. Assinala depois o juízo, ao dizer: &amp;#8220;Ninguém escapará ao seu ardor&amp;#8221; (Sal. 18,7).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;strong&gt;A BOA NOVA (caps. 86-97)&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;O testemunho dos Apóstolos&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;86. Pois bem: se os profetas vaticinaram que o Filho de Deus deveria manifestar-se sobre a terra e predisseram o lugar, a maneira e a forma de sua manifestação sobre a terra, e se no Senhor se cumpriram todas estas predições, nossa fé n’Ele está bem fundamentada, é autêntica a tradição da pregação, isto é, o testemunho dos apóstolos. Estes, enviados pelo Senhor, pregaram pelo mundo inteiro que o Filho de Deus viera para sofrer a Paixão, a suportara para destruir a morte e dar vida ao corpo e, pondo fim à hostilidade a Deus, isto é, à iniqüidade, obteremos sua paz cumprindo o que for de Seu agrado. Assim nos foi dado a conhecer, pelos profetas, quando dizem: &amp;#8220;Quão formosos são os pés dos mensageiros que anunciam a boa nova da paz, que pregam a alegre notícia do bem!&amp;#8221; (Is. 52,7; Rom. 10,15). Isaías diz que estes mensageiros viriam da Judéia e de Jerusalém para nos anunciar a palavra de Deus, que para nós é também lei: &amp;#8220;Pois de Sião sairá a lei e de Jerusalém a palavra de Deus&amp;#8221; (Is. 2,3). Davi afirma que pregariam sobre toda a terra: &amp;#8220;A toda terra alcança sua pregação e até os limites do orbe a sua palavra&amp;#8221; (Sal. 18,5).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;O primado do amor&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;87. Porém, não é com a loquacidade da lei que se salva o gênero humano, mas com a brevidade e precisão da fé e da caridade. Isaías diz: &amp;#8220;Uma palavra concisa e breve na justiça, porque Deus enviará uma palavra concisa, eficiente, sobre toda terra&amp;#8221;(Is. 10,23 [LXX];&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Rom. 9,28). Por isso, Paulo afirma: &amp;#8220;O amor é a plenitude da lei&amp;#8221; (Rom. 13,10). Pois o que ama a Deus cumpre a lei. Quando perguntaram ao Senhor: &amp;#8220;Qual o mandamento é o primeiro de todos?&amp;#8221;, respondeu: &amp;#8220;Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua força. E o segundo é similar a este: Amarás ao próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem a lei e os profetas&amp;#8221; (Mc. 12,30; Mat. 22,37). Assim, pois, com a fé n’Ele, cresceu nosso amor por Deus e pelo próximo, fazendo-nos piedosos, justos e bons. É por isso que enviou, com eficácia, &amp;#8220;uma palavra concisa sobre a terra&amp;#8221;, no mundo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Salvos pelo Homem-Deus&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;88. E que depois da ascensão deveria ser elevado sobre todas as criaturas e que ninguém haveria de ser semelhante ou comparado a Ele, o diz Isaías: &amp;#8220;Quem é justo? Que compareça. Quem é justificado? Que se aproxime do Filho do Senhor. Ai de vós que os consumís como um vestido, pois o caruncho vos roerá. O homem será humilhado e abatido. Somente o Senhor será exaltado com aqueles que serão enaltecidos&amp;#8221; (Is. 50,8.10.9). Isaías afirma que os que servirem a Deus serão, ao final, salvos por intermédio de seu nome: &amp;#8220;Os que me servem receberão um novo nome, que será bendito sobre toda a terra, e eles bendizerão ao Deus verdadeiro&amp;#8221; (Is. 65,15-16). Esta bênção deveria Ele realizá-la pessoalmente e Ele mesmo deveria salvar-nos por seu próprio sangue, segundo nos deu a conhecer Isaías, quando disse: &amp;#8220;Não um intercessor ou um anjo, mas o Senhor pessoalmente os salvou, pois ama e toma cuidado com eles. Ele mesmo os redimiu&amp;#8221; (Is. 63,9).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;O Espírito sobre a face da Terra&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;89. Aos que foram assim libertados, [Deus] não quer levá-los novamente para a lei de Moisés - pois a lei se cumpriu em Cristo - mas sim salvá-los mediante a fé e o amor, pelo Filho de Deus, na renovação da Palavra, como o deu a conhecer Isaías, quando exclama: &amp;#8220;Não recordeis o passado, não penseis no antigo; olha que renovo quem germina agora, e vós o conhecereis. Abrirei um caminho no deserto, suscitarei rios na região árida para dar de beber à minha nação e meu povo eleito, que adquiri para contar minhas proezas&amp;#8221; (Is. 43,18-20). Deserta e erma era, antes, a vocação dos gentios, pois o Verbo não havia passado entre eles, nem lhes havia dado de beber do Espírito Santo. O [Verbo] dispôs o novo caminho da piedade e da justiça e fez brotar rios em abundância, disseminando o Espírito Santo sobre a terra, segundo prometera pelos profetas, que estenderia, ao fim [nos últimos tempos], o Espírito sobre a face da terra.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;A novidade do Espírito&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;90. Nossa vocação, pois, acontece &amp;#8220;na novidade do Espírito e não na letra vazia&amp;#8221;, como profetizou Isaías: &amp;#8220;Olha que chegam dias - diz o Senhor - em que Eu, com a casa de Israel e de Judá, farei [uma aliança nova, não como] a aliança que fiz com seus pais, quando os conduzi pela mão para tirá-los do Egito, pois eles quebraram a aliança e Eu me desinteressei deles - diz o Senhor. Porque esta será a aliança que farei com a casa de Israel após aqueles dias - diz o Senhor - colocarei minha lei em suas mentes e também as escreverei em seus corações. Eu serei seu Deus e eles serão o meu povo. Não ensinarão uns aos outros, como concidadãos e irmãos que dizem: ‘Conhecei ao Senhor’, porque todos me conhecerão, do menor ao maior, porque perdoarei suas maldades e não conhecerei mais seus pecados&amp;#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;A abertura da nova Aliança (o Novo Testamento)&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;91. E estas promessas seriam uma herança no tempo da vocação dos gentios, para quem foi também inaugurada a Nova Aliança. Assim o recorda Isaías, nestes termos: &amp;#8220;Diz o Deus de Israel: Naquele dia, o homem colocará sua esperança em seu Criador e seus olhos contemplarão o Santo de Israel; e já não colocarão sua esperança nos altares dos ídolos, nem nas obras de suas mãos, que fabricaram com seus dedos&amp;#8221; (Is. 17,6-8). Manifestamente, estas palavras são dirigidas àqueles que abandonam aos ídolos e crêem em Deus, nosso Criador, graças ao Santo de Israel. O Santo de Israel é Cristo. Ele se manifestou aos homens e n’Ele fixamos nosso olhar. E já não colocamos nossa esperança nos altares [dos ídolos] nem nas obras das nossas mãos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Manifestado aos que não o buscavam&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;92. E que devia manifestar-se em meio a nós - porque o Filho de Deus se faria filho do homem - e que nós haveríamos de encontrar o que desconhecíamos, afirma o mesmo Verbo em Isaías: &amp;#8220;Me manifestei aos que não me procuravam; fui encontrado pelos que não perguntavam de mim. Disse: Aqui estou, perante um povo que não invocara o meu nome&amp;#8221; (Is. 65,1; Rom. 10,20).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Profecias sobre o povo de Deus&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;93. Que este povo fora chamado a ser um povo santo, vaticinou Oséias, um dos doze profetas: &amp;#8220;Ao que não era meu povo, chamarei ‘povo meu’ e a não-amada será amada. Onde se diz que ali não pertence ao meu povo, ali se chamarão ‘filhos do Deus vivo’&amp;#8221;(Os. 2,25; 1,9; Rom. 9,25-26). Também João Batista volta a dizer o mesmo: &amp;#8220;Deus pode suscitar destas pedras filhos de Abraão&amp;#8221; (Mat. 3,9). Com efeito, após sermos arrancados, pela fé, do culto às pedras, nossos corações vêem a Deus e fazem-nos filhos de Abraão, &amp;#8220;o qual foi justificado pela fé&amp;#8221; (Rom. 3,28; 4,3; Gál. 3,6). Por isso, diz Deus, pela boca do profeta Ezequiel: &amp;#8220;E lhes darei um outro coração e colocarei neles um espírito novo; retirarei de seus corpos seus corações de pedra e lhes darei corações de carne, para que sigam meus mandamentos e observem e pratiquem os meus preceitos. Eles serão o meu povo e Eu serei o seu Deus&amp;#8221; (Ez. 11,19-20; 36,26-27).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;A Igreja e a Sinagoga&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;94. Daí que, pela nova chamada, realiza-se uma mudança de coração entre os gentios, por meio do Verbo de Deus que &amp;#8220;se encarnou e armou sua tenda entre os homens&amp;#8221;, como diz João, seu discípulo: &amp;#8220;E seu Verbo se fez carne e habitou entre nós&amp;#8221; (Jo. 1,14). Portanto, a Igreja gera um grande número de frutos, isto é, de salvos, porque já não é um intercessor, Moisés, nem um mensageiro, Elias, quem nos salva, mas o próprio Senhor, que dá mais filhos à Igreja que à Sinagoga do passado, como predisse Isaías, nestes termos: &amp;#8220;Regozija-te, estéril, que não davas à luz&amp;#8221; - e estéril era a Igreja que, antes, não dava nenhum filho a Deus - &amp;#8220;grita e chora, tu que não tiveste dores, porque os filhos da abandonada são mais numerosos que os filhos da que tinha marido&amp;#8221; (Is. 54,1; Gál. 4,27). A antiga Sinagoga tinha por marido a lei.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;A incorporação dos Gentios&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;95. Moisés diz, no Deuteronômio, que os gentios estarão à frente e o povo incrédulo atrás. E pouco depois: &amp;#8220;Provocaste meu zelo com vossos não-deuses; irritaste-me com vossos ídolos. Eu provocarei vosso zelo com alguém que não é meu povo e vos irritarei com um povo insensato&amp;#8221; (Deut. 32,21). Pois, abandonando ao Deus verdadeiro, adoraram falsos deuses, mataram profetas de Deus e profetizaram por meio de Baal, que era um ídolo dos cananeus; rejeitaram ao verdadeiro Filho de Deus ao elegerem Barrabás, um bandido detido em flagrante homicídio, ao abjurar do rei eterno e reconhecer como rei a César, que foi perecível. Por isso, Deus decidiu entregar sua herança aos insensatos gentios e àqueles que não eram cidadãos da cidade de Deus e que desconheciam quem era Deus. Pois bem, visto que por esta chamada nos foi dada a vida, tendo Deus restaurado em nós a fé de Abraão n’Ele, não devemos voltar atrás, isto é, à antiga legislação. Porque fomos acolhidos pelo Senhor da lei, o Filho de Deus, e, por meio da fé n’Ele, aprendemos a &amp;#8220;amar a Deus com todo o coração e ao próximo como a nós mesmos&amp;#8221;. Pois o amor a Deus exclui todo pecado e o amor ao próximo não causa mal a ninguém.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;A superação da Lei&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;96. Portanto, não necessitados da lei como pedagoga, eis que aqui falamos com o Pai e estamos na sua presença, convertidos em crianças sem malícia e presos à justiça e honestidade. A lei, com efeito, não afirma mais &amp;#8220;não cometerás adultério&amp;#8221; àquele que sequer deseja a mulher do próximo; ou &amp;#8220;não matarás&amp;#8221; àquele que erradicou de si a ira e a inimizade; ou &amp;#8220;não cobiçarás o campo de teu vizinho, seu boi ou seu asno&amp;#8221; àquele que não tem ambição por coisas terrenas, mas que visam os bens celestes; nem sequer &amp;#8220;olho por olho, dente por dente&amp;#8221; àquele que não tem inimigos e trata a todos como próximo e, por isso, não levanta a mão para se vingar. Nem se exige os dízimos de quem consagrou a Deus todos os seus bens e deixou pai, mãe e toda a família para seguir ao Verbo de Deus. [A lei] já não mandará guardar um dia de descanso àquele que, todos os dias, observa o sábado, isto é, ao que rende culto a Deus no templo de Deus, que é o corpo do homem, e pratica sempre a justiça. &amp;#8220;Prefiro misericórdia&amp;#8221; - diz - &amp;#8220;ao sacrifício; o conhecimento de Deus aos holocaustos. Porém, o ímpio que imola um bezerro é como se matasse um cachorro, e quando oferece flor de farinha é como se oferecesse sangue de porco&amp;#8221; (Is. 66,3). &amp;#8220;E todo o que invocar o nome do Senhor se salvará&amp;#8221; (At. 2,21; Rom 10,13; Jl. 2,32 [Vulg.]); &amp;#8220;E nenhum outro nome nos é dado sob o céu pelo qual os homens se salvem&amp;#8221; (At. 4,12), senão o nome de Deus, Jesus Cristo, Filho de Deus, a quem se submetem todos os demônios, os espíritos maus e todas as potências rebeldes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;A salvação em Jesus Cristo&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;97. Pela invocação do nome de Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos, Satanás foi afastado definitivamente de entre os homens. Ali, onde alguém crê n’Ele e por sua vontade O recorde e invoque, Jesus se faz presente e atende às súplicas de quem O invoca com um coração puro. Deste modo, tendo obtido a salvação, permanecemos em constante ação de graças a Deus, nosso Salvador, que por sua grande e insondável Sabedoria, nos salva e proclama a salvação desde o alto dos céus, salvação que é a vinda visível de nosso Senhor, isto é, sua vida humana; salvação que por nossas próprias possibilidades não poderíamos alcançar. Porém, &amp;#8220;o que é impossível para os homens, é possível para Deus&amp;#8221; (Luc. 18,27). A este respeito, diz Jeremias: &amp;#8220;Quem subiu ao céu e se apoderou dele e o fez descer das nuvens? Quem atravessou os mares e os descobriu e aceitou em preferência ao ouro mais puro? Não há quem tenha encontrado seu caminho, nem quem conhece seu sendero. Porém, o que sabe todas as coisas, o conhece com sua Sabedoria; o que fundamentou a terra para sempre e a encheu de animais quadrúpedes, o que manda à luz e esta se expande, o que a chama e esta tremula, os astros se levantam para suas vigílias e se comprazem. Ele os chamam e [estes] atestam: ‘Ei-nos aqui’ e reluzem alegremente em honra d’Aquele que os fez. Este é nosso Deus, nenhum outro vale nada. Ele descobriu todos os caminhos com sabedoria e os comunicou a Jacó, seu servo, e a Israel, seu amado. E depois disto, fez-se ver na terra e conversou com os homens. Este é o livro dos mandamentos de Deus e da Lei perdurável, para sempre. Os que a guardarem, alcançarão a vida; os que a abandonarem, morrerão&amp;#8221;. Chama Jacó e Israel ao Filho de Deus, que recebeu do Pai domínio sobre a nossa vida e, depois de ter recebido a vida, faz que desça sobre nós, que estávamos afastados d’Ele, quando se manifestou sobre a terra e conversou com os homens, mesclando e unindo o Espírito de Deus Pai com o corpo plasmado por Deus, para que o homem fosse à imagem e semelhança de Deus.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;CONCLUSÃO (caps. 98-100)&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;A modo de conclusão&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;98. Esta é, meu querido amigo, a pregação da verdade e a imagem da nossa salvação: assim é o caminho da vida, que os profetas anunciaram, o que Cristo instituiu, que os apóstolos consignaram e que a Igreja transmite aos seus filhos, através de toda a terra. Deve ser custodiado com amor e com vontade decidida, para agradar a Deus com as boas obras e com um modo puro de pensar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Os desvios dos hereges&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;99. Portanto, que ninguém pense que existe outro Deus Pai, distinto de nosso Criador, como imaginam os hereges, que desprezam ao Deus verdadeiro e criam um ídolo do deus inexistente, criando um pai acima de nosso Criador, achando que descobriram algo maior que a verdade. Na realidade, todos esses são ímpios e blasfemam contra o seu Criador e Pai, como já havíamos demonstrado na &amp;#8220;Exposição e Refutação da Falsa Gnose&amp;#8221; [=&quot;Contra as Heresias&quot;]. Outros, todavia, desprezam a vinda do Filho de Deus e a economia da sua encarnação, transmitida pelos apóstolos e vaticinada pelos profetas, para a restauração da humanidade, como brevemente demonstramos. Estas pessoas também devem ser contadas entre as incrédulas. Outras, todavia, não acolhem os dons do Espírito Santo e rejeitam o carisma profético, pelo qual o homem produz frutos de vida eterna. Destes, diz Isaías: &amp;#8220;Serão como uma árvore sem folhas e como um jardim sem água&amp;#8221; (Is. 1,30). Estes não são de utilidade alguma para Deus, pois não produzem frutos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Conclusão: Manter-se distante do erro&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;100. No tocante aos três artigos do nosso batismo, o erro motivou muitas digressões afastadas da verdade. Ou porque desprezam ao Pai, ou porque não acolhem ao Filho, falando contra a economia da encarnação, ou porque rejeitam ao Espírito, isto é, reprovam a profecia. Devemos nos defender deste tipo de pessoas, evitar os seus caminhos, se verdadeiramente queremos agradar a Deus e obter a salvação.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Nota Final do Copista&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;[Demonstração da Pregação Apostólica, de Santo Ireneu. Toda glória à Santa Trindade, Deus único, Pai e Filho e Espírito Santo, Providência Universal, eternamente. Amém. Recordai no Senhor do magnífico e beatíssimo senhor Arcebispo João, proprietário deste livro, irmão do santo Rei. E lembrai também de mim, pobre copista].&lt;/p&gt;
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		<title>A VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA, DE SÃO JERÔNIMO</title>
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		<pubDate>Fri, 15 May 2009 02:42:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Sousa</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Doutores da Igreja]]></category>

		<category><![CDATA[Padres Apologistas]]></category>

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		<description><![CDATA[Por São Jerônimo
Sobre a obra
Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto
 
Este tratado surgiu por volta do ano 383 dC, quando Jerônimo e Helvídio se encontravam em Roma, no tempo do papa Dâmaso. As únicas informações contemporâneas que se conservam de Helvídio são estas, fornecidas por Jerônimo.

A questão que trouxe este tratado à luz foi: [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Por São Jerônimo</em></p>
<p><strong>Sobre a obra</strong></p>
<p><em>Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto</em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><em>Este tratado surgiu por volta do ano 383 dC, quando Jerônimo e Helvídio se encontravam em Roma, no tempo do papa Dâmaso. As únicas informações contemporâneas que se conservam de Helvídio são estas, fornecidas por Jerônimo.</em></p>
<p><em></p>
<p style="text-align: justify;">A questão que trouxe este tratado à luz foi: teria a Mãe de Nosso Senhor permanecido virgem após o nascimento de seu Filho? Helvídio afirmava que os Evangelhos mencionando os &#8220;irmãos&#8221; e &#8220;irmãs&#8221; do Senhor provavam que Maria teria tido outros filhos, baseando sua opinião nos escritos de Tertuliano e Vitorino.</p>
<p style="text-align: justify;">A conclusão deste ponto de vista é que a virgindade se situa numa posição inferior ao casamento. Jerônimo defende o outro lado, mantendo três proposições contra Helvídio:</p>
<ol>
<li>José era o suposto marido de Maria, mas não o era de fato;</li>
<li>Os &#8220;irmãos&#8221; do Senhor eram seus primos (parentes), não irmãos de verdade; e</li>
<li>A virgindade é superior ao estado de casado.</li>
</ol>
<p style="text-align: justify;">A primeira proposição ocupa os capítulos 3 a 8. Baseia-se no registro de Mt 1,18-25, especialmente nas palavras: &#8220;antes que coabitassem&#8221; (cap. 4) e &#8220;não a conheceu até que&#8221; (caps. 5-8).</p>
<p style="text-align: justify;">A segunda, gira em torno da expressão: &#8220;filho primogênito&#8221; (caps. 9-10), que Jerônimo afirma ser aplicável não apenas ao primeiro de uma série de vários filhos, mas também ao filho único. Quanto à menção dos irmãos e irmãs de Jesus, Jerônimo garante serem filhos de outra Maria, esposa de Cléofas ou Clopas (caps. 11-16); para fundamentar sua posição, cita diversos escritores da Igreja (cap. 17).</p>
<p></em></p>
<p style="text-align: justify;"><em>Na terceira e última parte, para sustentar a preferência da virgindade sobre o casamento, Jerônimo afirma que não apenas Maria mas também José mantiveram seu estado virginal (cap. 19); diz, também, que embora o casamento possa ser um estado santo, apresenta grandes obstáculos para a oração (cap. 20) e que o ensinamento da Escritura declara que o estado de virgindade e continência estão mais de acordo com o desejo de Deus do que o casamento (caps. 21-22).</em></p>
<p><strong>Texto</strong></p>
<p><strong>Capítulo 1</strong></p>
<p align="justify">Há algum tempo, recebi o pedido de alguns irmãos para responder a um panfleto escrito por um tal Helvídio. Demorei para fazê-lo, não porque fosse tarefa difícil defender a verdade e refutar um ignorante sem cultura, que dificilmente tomou contato com os primeiros graus do saber, mas porque fiquei preocupado em oferecer uma resposta digna, que desmoronasse os seus argumentos.</p>
<p align="justify">Havia ainda a preocupação de que um discípulo confuso (o único sujeito do mundo que se considera clérigo e leigo; único também, como se diz, que pensa que a eloquência consiste na tagarelice, e que falar mal de alguém torna o testemunho de boa fé) poderia passar a blasfemar ainda mais, caso lhe fosse dada outra oportunidade para discutir. Ele, então, como se estivesse sobre um pedestal, passaria a espalhar suas opiniões em todos os lugares.</p>
<p align="justify">Também temia que, quando caísse na realidade, passasse a atacar seus adversários de forma ainda mais ofensiva.</p>
<p align="justify">Mas, mesmo que eu achasse justos todos esses motivos para guardar silêncio, muito mais justamente deixaram de me influenciar a partir do instante em que um escândalo foi instaurado entre os irmãos, que passaram a acreditar nesse falatório. O machado do Evangelho deve agora cortar pela raiz essa árvore estéril, e tanto ela quanto suas folhagens sem frutos devem ser atiradas no fogo, de tal maneira que Helvídio - que jamais aprendeu a falar - possa aprender, finalmente, a controlar a sua língua.</p>
<p><strong>Capítulo 2</strong></p>
<p align="justify">Invoco o Espírito Santo para que Ele possa se expressar através da minha boca e, assim, defenda a virgindade da bem-aventurada Maria. Invoco o Senhor Jesus para que proteja o santíssimo ventre no qual permaneceu por aproximadamente dez meses, sem quaisquer suspeitas de colaboração de natureza sexual. Rogo também a Deus Pai para que demonstre que a mãe de Seu Filho - que se tornou mãe antes de se casar - permaneceu Virgem ainda após o nascimento de seu Filho.</p>
<p align="justify">Não desejamos entrar no campo da eloquência, nem usar de armadilhas lógicas ou dos subterfúgios de Aristóteles. Usaremos as reais palavras da Escritura; [Helvídio] será refutado pelas mesmas provas que empregou contra nós, para que possa ver que lhe foi possível ler conforme está escrito, e, ainda assim, foi incapaz de perceber a conclusão de uma fé sólida.</p>
<p><strong>Capítulo 3</strong></p>
<p align="justify">Sua primeira declaração é: <em>&#8220;Mateus diz: </em>&#8216;O nascimento de Jesus Cristo foi<br />
assim: quando sua mãe Maria estava <strong>prometida</strong> a José, <strong>antes de coabitarem</strong>,<br />
encontrou-se grávida pelo Espírito Santo. E José, seu marido, sendo um homem<br />
justo e não desejando denunciá-la publicamente, pensou em repudiá-la em<br />
segredo.  Mas enquanto pensava essas coisas, um anjo do Senhor lhe apareceu<br />
em sonho e disse: &#8216;José, filho de Davi, não temas em tomar para ti  Maria<br />
como <strong>tua esposa</strong>, pois o que nela foi gerado provém do Espirito Santo&#8217;<em>.<br />
Notem&#8221; -</em> continua ele<em> -  &#8220;que a palavra empregada é &#8216;prometida&#8217; e não<br />
&#8216;confiada&#8217;, como vocês dizem; é óbvio que a única razão para estar<br />
prometida é porque deveria se casar um dia.  E o Evangelista não iria dizer<br />
&#8216;antes de coabitarem&#8217; se eles não viessem a coabitar no futuro, já que<br />
ninguém usaria a frase &#8216;antes de jantar&#8217; se certa pessoa não fosse jantar.<br />
Também o anjo a chama &#8216;tua esposa&#8217; e se refere a ela como unida a José. A<br />
seguir, somos chamados a ouvir a declaração da Escritura: </em>&#8216;E José despertou<br />
do seu sono e fez como o anjo do Senhor lhe havia ordenado, tomando-a para<br />
si como esposa; e <strong>não a conheceu até que</strong> deu à luz a seu filho&#8217;<em>&#8220;</em>.</p>
<p><strong>Capítulo 4</strong></p>
<p align="justify">Consideremos cada um desses pontos, pois seguindo o caminho dessa impiedade<br />
mostraremos que ele [Helvídio] está se contradizendo. Admite que [Maria]<br />
estava &#8220;prometida&#8221; e que o próximo passo seria se tornar esposa daquele<br />
homem  a quem estava prometida. Novamente, ele a chama de &#8220;esposa&#8221; e diz que<br />
a única razão para estar prometida seria pelo fato de casar-se um dia. E,<br />
temendo  que não o compreendêssemos suficientemente bem, ainda diz: <em>&#8220;a<br />
palavra usada é &#8216;prometida&#8217; e não &#8216;confiada&#8217;, isto é, ela ainda não<br />
se tornara esposa, nem mesmo havia sido unida pelo contrato de casamento&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Mas quando ele continua: <em>&#8220;o Evangelista jamais usaria tais palavras se eles<br />
não viessem a se juntar futuramente, já que não se usa a frase &#8216;antes de<br />
jantar&#8217; se certa pessoa não for jantar&#8221;</em>, sinceramente não sei se devo<br />
lamentar ou rir. Deveria acusá-lo de ignorância ou de imprudência? Como se<br />
isto, supondo que uma pessoa dissesse: <em>&#8220;Antes de jantar no porto, naveguei<br />
para a África&#8221;</em>, significasse que tais palavras obrigatoriamente<br />
demonstrassem que essa pessoa alguma vez já jantou no porto. Se eu<br />
preferisse dizer: <em>&#8220;o apóstolo Paulo, antes de ir para a Espanha, foi preso<br />
em Roma&#8221;</em>, ou (como também acho provável) <em>&#8220;Helvídio, antes de se<br />
arrepender, morreu&#8221;</em>; acaso teria Paulo obrigatoriamente estado na Espanha<br />
[após a prisão], ou Helvídio se arrependeria após a morte, ainda que a<br />
Escritura diga: <em>&#8220;No Sheol quem vos dará graças?&#8221;</em>?</p>
<p align="justify">Não podemos entender a preposição &#8220;antes&#8221; - ainda que muitas vezes signifique<br />
ordem no tempo - como também ordem de pensamento?  Portanto, não há<br />
necessidade que nossos pensamentos se concretizem, se alguma causa<br />
suficiente vier a evitá-los (sua concretização). Logo, quando o Evangelista<br />
diz  <em>&#8220;antes que coabitassem&#8221;</em>, indica apenas o tempo imediatamente<br />
precedente ao casamento, e  mostra que estava em estado bem adiantado, pois<br />
ela já estava prometida, a ponto de estar próximo o momento de se tornar<br />
esposa. Conforme diz [o Evangelista], antes de se beijarem e se abraçarem,<br />
antes da consumação do casamento, ela se encontrou grávida.  E ela foi<br />
determinada para pertencer a ninguém mais a não ser José, que guardou com<br />
zêlo o ventre cada vez maior de sua prometida, com olhar inquieto mas<br />
que, a esta altura, quase que com o privilégio de um marido.</p>
<p align="justify">Ainda que possa parecer - conforme o exemplo citado - que ele teve relações<br />
sexuais com Maria após o seu parto, o seu desejo poderia ter desaparecido<br />
pelo fato dela já ter concebido anteriormente.  E, embora encontremos que<br />
foi dito a José em um sonho: <em>&#8220;Não temas em receber Maria por tua esposa&#8221;</em><br />
e, de novo: <em>&#8220;José despertou do seu sono e fez conforme o anjo  lhe<br />
ordenara, tomando-a por sua esposa&#8221;</em>, não devemos nos preocupar com isto,<br />
pois ainda que seja chamada &#8220;esposa&#8221;, ela somente deixou de ser prometida,<br />
pois sabemos que é usual na Escritura dar esse título para aqueles que são<br />
noivos.</p>
<p align="justify">A seguinte evidência, retirada do Deuteronômio, assim o indica: <em>&#8220;Se um<br />
homem&#8221;</em> - diz o Escritor [sagrado] - <em>&#8220;encontra uma mulher prometida no campo<br />
e a violenta, deve ser morto porque humilhou a esposa do seu próximo&#8221;</em>; e,<br />
em outro lugar: <em>&#8220;Se uma virgem é prometida a um marido, e um homem a<br />
encontra na cidade e a violenta, então deveis trazê-los para fora do portão<br />
da cidade e os apedrejareis até à morte; a mulher porque não gritou,<br />
estando na cidade, e o homem porque humilhou a esposa do seu próximo.<br />
Fareis isto para eliminar o mal do meio de vós&#8221;</em>; e também, em outra parte:<br />
<em>&#8220;Que tipo de homem é este que possui uma esposa prometida e ainda não a<br />
recebeu? Que volte para sua casa, para que não morra na batalha, e que<br />
outro homem a despose&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Mas se alguém guarda dúvidas do porquê a Virgem concebeu após estar<br />
prometida [a José], uma vez que não estava prometida a mais ninguém, ou,<br />
para usar os termos da Escritura, estava sem marido,  deixe-me explicar três<br />
razões: [1ª] Pela genealogia de José, Maria possuía  parentesco com ele, e<br />
a origem de Maria também precisava ser demonstrada; [2ª] Porque ela não<br />
poderia ser enquadrada na Lei de Moisés para ser apedrejada como adúltera;<br />
[3ª] Porque em sua fuga para o Egito ela precisava de segurança, o que<br />
poderia ser obtido com a ajuda de um guardião, de preferência um marido.</p>
<p align="justify">Quem, naquele tempo, acreditaria na palavra da Virgem, de que teria<br />
concebido pelo poder do Espírito Santo, e que o anjo Gabriel lhe teria<br />
aparecido para anunciar o propósito de Deus?  Todos não a chamariam de<br />
adúltera, como fizeram com Suzana?  Ainda nos tempos presentes, quando<br />
praticamente toda a terra abraçou a Fé, não vêm os judeus afirmar que as<br />
palavras de Isaías: <em>&#8220;Eis que a &#8216;Virgem&#8217; conceberá e dará à luz um<br />
filho&#8221;</em> são equívocas porque o termo hebraico <em>almah</em> que aparece na frase,<br />
significa <em>mulher jovem</em>, enquanto que o termo <em>bethulah</em>, que significa<br />
<em>virgem</em> não é usado?  Tal posição, abordaremos com mais detalhes<br />
adiante.</p>
<p align="justify">Finalmente, com exceção de José, Isabel e da própria Maria - e talvez de<br />
mais alguns poucos que podemos supor ouviram a verdade da boca deles -<br />
todos supunham que Jesus era filho de José.  E de tal modo era essa a<br />
suposição que até mesmo os Evangelistas, expressando a opinião corrente -<br />
que é a regra correta para qualquer historiador - o chamavam de pai do<br />
Salvador, como, por exemplo: <em>&#8220;Movido pelo Espírito, ele (isto é, Simeão)<br />
veio  ao Templo. Então os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir as<br />
prescrições da Lei a seu respeito&#8221;</em>; e, em outro lugar: <em>&#8220;E seus pais iam<br />
todos os anos a Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa&#8221;</em>; e, mais adiante:<br />
<em>&#8220;Tendo completado os dias, eles retornaram, mas o menino Jesus permaneceu<br />
em Jerusalém, e seus pais não sabiam disso&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Note-se que a própria Maria respondeu  ao [anjo] Gabriel com as seguintes<br />
palavras: <em>&#8220;Como se sucederá isso, se não conheço varão?&#8221;</em>, dizendo isto a<br />
respeito de José; e, mais: <em>&#8220;Filho, por que fizeste isto conosco? Teu pai<br />
e eu estávamos à tua procura&#8221;</em>.  Não fazemos uso aqui, como muitos fazem, do<br />
discurso dos judeus ou dos escarnecedores. Os Evangelistas chamam José de<br />
&#8220;pai&#8221; e Maria confessa que ele era pai. Não - como já disse antes - que José<br />
fosse realmente o pai do Salvador, mas, preservando a reputação de Maria,<br />
todos o viam como sendo o pai [de Jesus], pois ouvira a advertência do<br />
anjo: <em>&#8220;José, filho de Davi, não  temas em tomar para ti Maria como tua<br />
esposa, pois o que nela foi gerado provém  do Espírito Santo&#8221;</em>, pois pensava em<br />
repudiá-la em segredo; tudo isto bem demonstrando que o filho não era dele.</p>
<p align="justify">Ao dizermos tudo isto, mais com o objetivo de oferecer uma instrução<br />
imparcial do que responder a um oponente, mostramos o porquê José era<br />
chamado de pai de Nosso Senhor e o porquê Maria era chamada de esposa de<br />
José. Isto também responde ao porquê de certas pessoas serem chamadas de <em>&#8220;seus irmãos&#8221;</em>.</p>
<p><strong>Capítulo 5</strong></p>
<p align="justify">Entretanto, este último ponto encontrará seu lugar apropriado mais adiante.</p>
<p align="justify">Vamos agora abordar outros tópicos. A passagem que discutiremos agora é:<br />
<em>&#8220;E José despertou de seu sono e fez conforme o anjo lhe ordenara, tomando-a<br />
como sua esposa; e não a conheceu até que deu à luz a um filho, e ele lhe<br />
colocou o nome de Jesus&#8221;</em>. Aqui, antes de mais nada, é absolutamente inútil<br />
para o nosso oponente querer demonstrar, de forma tão elaborada, que essas<br />
palavras se referem à cópula sexual, especialmente na compreensão<br />
intelectual:  qualquer um  pode negar isso e toda pessoa de bom senso pode<br />
imaginar a estupidez da refutação que Helvídio se esforçou por sustentar.<br />
Ele quer nos ensinar que o advérbio <em>&#8220;até que&#8221;</em> implica um tempo fixo e<br />
definitivo que, ao se completar, ocorre o evento que até então não se<br />
realizara; como neste caso: <em>&#8220;e não a conheceu <strong>até que</strong> deu à luz um filho&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Segundo ele, é claro que ela [Maria] foi conhecida depois, e que apenas<br />
aguardara o tempo necessário para o nascimento de seu filho. Para defender<br />
sua posição, [Helvídio] amontoa textos e mais textos  sem qualquer<br />
critério, comportando-se como um gladiador cego que fica movimentando sua<br />
espada a esmo, dizendo asneiras com sua língua barulhenta e terminando sem<br />
ferir ninguém, a não ser a si próprio.</p>
<p><strong>Capítulo 6</strong></p>
<p align="justify">Nossa resposta é brevemente esta: as palavras <em>&#8220;conhecer&#8221;</em> e <em>&#8220;até que&#8221;</em>, na<br />
linguagem da Sagrada Escritura, possuem duplo significado.  Do primeiro<br />
[quanto a "conhecer"], ele mesmo [Helvídio] nos ofereceu uma dissertação para<br />
mostrar que pode se referir a relação sexual, como também ninguém duvida que<br />
pode ser usada para significar percepção (entendimento, saber), como, por<br />
exemplo: <em>&#8220;o menino Jesus permaneceu em Jerusalém e seus pais não tinham<br />
conhecimento disso&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Já que provamos que ele seguiu o uso da Escritura neste caso,<br />
com relação à expressão <em>&#8220;até que&#8221;</em> será completamente refutado pela<br />
autoridade da mesma Escritura, pois várias vezes significa um certo tempo<br />
sem limitação, como quando Deus diz a certas pessoas pela boca do profeta:</p>
<p><em>&#8220;Até à vossa velhice Eu sou o mesmo&#8221;</em>; acaso Ele deixará de ser Deus após<br />
essas pessoas envelhecerem? E, no Evangelho, o Salvador diz aos Apóstolos:<br />
<em>&#8220;Estarei convosco até a consumação do mundo&#8221;</em>; será que quando chegar o fim<br />
dos tempos o Senhor abandonará Seus discípulos e estes, quando estiverem<br />
sentados sobre os doze tronos para julgar as doze tribos de Israel, estarão<br />
privados da companhia de seu Senhor?</p>
<p align="justify">Também  Paulo, ao escrever aos Coríntios, declara: <em>&#8220;[Cada um, porém, na<br />
sua ordem:] Cristo, as primícias; depois os que são de Cristo, na sua<br />
vinda. Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando<br />
houver destruído todo domínio e toda autoridade e todo poder. Pois é<br />
necessário que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de<br />
seus pés&#8221;</em>.  Certos de que a passagem relata a natureza humana de Nosso<br />
Senhor, não temos como negar que as palavras são Daquele que sofreu [morte]<br />
na cruz e que mais tarde se sentou à direita [de Deus]. O que Ele quer<br />
demonstrar ao dizer que <em>&#8220;é necessário que Ele reine até que haja posto todos<br />
os inimigos debaixo de seus pés&#8221;</em>? O Senhor reinará apenas até colocar<br />
todos os seus inimigos sob os seus pés e, depois disso, deixará de reinar?<br />
É óbvio que seu reino estará começando quando seus inimigos estiverem sob os<br />
seus pés.</p>
<p align="justify">Também Davi, na Quarta Canção da Ascensão, fala assim: <em>&#8220;Olhai: assim como<br />
os olhos dos servos olha para a mão de seu mestre; assim como os olhos da<br />
moça olham para a mão de sua senhora; assim também os nossos olhos olham<br />
para o Senhor, nosso Deus, até que tenha misericórdia de nós&#8221;</em>. Será então<br />
que o profeta, olhando para Deus com o intuito de obter misericórdia, irá<br />
desviar seu olhar para o chão assim que obtiver misericórdia? [Certamente<br />
que não,] ainda que ele, em algum lugar, diga: <em>&#8220;Meus olhos quedam pela tua<br />
salvação e pela palavra da tua justiça&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Eu poderia acrescentar inúmeras passagens como estas que, atestam esse uso,<br />
e cobriria com uma nuvem de provas a verbosidade do nosso contendente. Porém,<br />
acrescentarei mais algumas passagens e deixarei que o leitor descubra outras<br />
semelhantes por si mesmo.</p>
<p><strong>Capítulo 7</strong></p>
<p align="justify">A Palavra de Deus diz em Gênesis: <em>&#8220;Entregaram a Jacó todos os deuses<br />
estranhos que tinham em suas mãos, e as argolas que penduravam em suas<br />
orelhas;  e Jacó os escondeu debaixo do carvalho que está junto a Siquém , e<br />
continuam perdidos até o dia de hoje&#8221;</em>. Igualmente lemos no final do<br />
Deuteronômio: <em>&#8220;Assim, Moisés, servo do Senhor, morreu ali na terra de Moab,<br />
conforme a palavra do Senhor. E foi sepultado  no vale, na terra de Moab,<br />
defronte de Beth-Peor; até o dia de hoje ninguém sabe o lugar da sua<br />
sepultura&#8221;</em>.  Certamente devemos identificar a expressão <em>&#8220;até o dia de hoje&#8221;</em><br />
com o tempo da composição da história, podendo vocês preferirem o ponto de<br />
vista que afirma que Moisés foi o autor do Pentateuco ou que Esdras o<br />
reeditou.  Não faço qualquer objeção em ambos os casos. A questão agora é<br />
saber se as palavras <em>&#8220;até o dia de hoje&#8221;</em> se referem à época da publicação ou<br />
composição desses livros e, caso o sejam, por que [Helvídio] não mostra -<br />
agora que muitos e muitos anos se passaram desde aquele dia - que os ídolos<br />
escondidos sob o carvalho ou a sepultura de Moisés foram  descobertos, já<br />
que ele sustenta, com demasiada teimosia, que certa coisa não pode ocorrer<br />
dentro de um espaço de tempo delimitado pela expressão <em>&#8220;até que&#8221;</em> mas, para<br />
que venha a ocorrer, é necessário que atinja aquele ponto delimitado por<br />
<em>&#8220;até que&#8221;</em>?</p>
<p align="justify">Ele faria bem se prestasse atenção ao idioma da Sagrada Escritura e<br />
compreendesse como nós - já que se encontra mergulhado na lama; certas<br />
coisas parecem ambíguas quando não claramente declaradas, emboras outras<br />
coisas sejam deixadas assim para exercitar o nosso intelecto. Ora, se ainda<br />
quando o evento permanecia fresco na memória daqueles homens que viram e<br />
conviveram com Moisés já se desconhecia o local da sepultura, quanto mais<br />
agora depois que tantos anos se passaram!</p>
<p align="justify">E da mesma forma devemos interpretar o que se conta a respeito de José. O<br />
Evangelista apontou uma circunstância que poderia causar escândalo, ou seja,<br />
que Maria não foi conhecida por seu marido até dar à luz, e ele (o<br />
Evangelista) agiu assim para que tivéssemos a certeza de que ela - de quem<br />
José se absteve enquanto havia lugar para dúvidas sobre a importância da<br />
visão - não foi conhecida depois de seu parto.</p>
<p><strong>Capítulo 8</strong></p>
<p align="justify">Em resumo: o que eu gostaria de saber é por que José teria se privado [de<br />
Maria] até o dia de ter ela dado à luz?  Helvídio certamente responderia:<br />
<em>&#8220;Porque  ele ouviu o que o anjo disse:  &#8216;pois o que nela foi gerado provém<br />
do Espírito Santo&#8217;&#8221;</em>. Nós, então, responderíamos a seguir  que [José]<br />
certamente ouviu  o que o [anjo] disse: <em>&#8220;José, filho de Davi, não temas em<br />
tomar para ti Maria como tua  esposa&#8221;</em>. A razão pela qual ele estava proibido<br />
de repudiar sua esposa era porque não achava que ela fosse adúltera. Seria<br />
então verdade que o [anjo] ordenara que não tivesse relações sexuais com sua<br />
esposa? Não está suficientemente claro que a advertência feita foi para que<br />
não se separasse dela? E poderia o homem justo pensar em se aproximar dela<br />
tendo ouvido que o Filho de Deus estava em seu ventre? Ótimo! Vamos então<br />
acreditar que o mesmo homem que deu tanto crédito a um sonho, não se atreveu<br />
a tocar em sua esposa, mesmo depois, quando ele ouviu  dos pastores que o<br />
anjo do Senhor desceu dos céus e lhes disse: <em>&#8220;Não temais! Eis que vos<br />
anuncio uma grande alegria, que o será também para todo o povo: nasceu-vos<br />
hoje, na cidade de Davi, o Cristo Senhor&#8221;</em>;  e após, quando a multidão<br />
celeste se juntou ao anjo e entoaram: <em>&#8220;Glória a Deus nas alturas e paz na<br />
terra aos homens de boa vontade&#8221;</em>; e ainda quando o justo Simeão abraçou a<br />
criancinha e exclamou: <em>&#8220;Podeis levar agora para ti este teu Servo, Senhor,<br />
pois os meus olhos viram a tua salvação, conforme a tua palavra&#8221;</em>; e também<br />
quando [José] viu a profetisa Ana, os Magos, a Estrela [de Belém], Herodes,<br />
os anjos&#8230;</p>
<p align="justify">Eu diria então: quer Helvídio nos fazer acreditar que José, muito bem<br />
inteirado de tamanhas maravilhas, ousaria tocar o templo de Deus, a morada<br />
do Espírito Santo, a mãe do seu Senhor? Maria mantinha todos esses eventos<br />
<em>&#8220;guardados em seu coração&#8221;</em>. Vocês não podem cair na vergonha de dizer que<br />
José desconhecia tudo isso, pois Lucas nos diz: <em>&#8220;Seu pai e sua mãe ficavam<br />
maravilhados das coisas que diziam a Seu respeito&#8221;</em>.</p>
<p>E vocês ainda afirmam, arrogantemente, que a leitura dos manuscritos gregos<br />
é corrupta, embora seja exatamente isso que todos os escritores gregos<br />
fizeram constar em seus livros, e não apenas eles, mas também muitos<br />
escritores latinos interpretaram as palavras da mesma forma&#8230; E nem<br />
precisaremos considerar as variações existentes nas cópias, pois todos os<br />
registros existentes, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, se<br />
encontram assim desde que foram traduzidos para o Latim; portanto, devemos<br />
crer que a água da fonte brota mais pura que a [água] do rio.</p>
<p><strong>Capítulo 9</strong></p>
<p align="justify">Helvídio poderá responder: <em>&#8220;O que você diz é, na minha opinião,<br />
insignificante. Seus argumentos foram perdidos no tempo e esta discussão<br />
demonstra mais astúcia do que verdade. Por que a Escritura não diria como<br />
diz de Tamar e Judá: </em>&#8216;E ele a tomou como sua esposa e jamais a conheceu&#8217;<em>?<br />
Porque Mateus não usou estas palavras se quisesse mesmo expressar esse<br />
significado? Ele diz claramente: </em>&#8216;e não a conheceu até que deu à luz  a<br />
um filho&#8217;<em>. Logo, após o parto, certamente a conheceu, pois se privou dela<br />
até o momento do parto&#8221;</em>.</p>
<p><strong>Capítulo 10</strong></p>
<p align="justify">Se vocês são tão contenciosos, deveriam com suas próprias idéias testar o<br />
vosso mestre. Vocês não devem permitir que se faça uma separação entre o<br />
parto e o intercurso (sexual). Não devem dizer: <em>&#8220;Se uma mulher conceber e<br />
tiver um menino, será imunda sete dias; assim como nos dias da impureza de<br />
suas regras, será imunda. No oitavo dia, circundar-se-á o prepúcio do menino<br />
e, durante trinta e três dias, ela ficará ainda purificando-se do seu sangue<br />
e não tocará em qualquer coisa sagrada&#8221;</em> e outras coisas semelhantes. Devem<br />
recordar que se José se aproximasse dela, estaria sujeito à reprovação de<br />
Jeremias: <em>&#8220;São como cavalos de lançamento bem nutridos, que andam<br />
relinchando cada um à mulher do seu próximo&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">De outra maneira, como se explicariam as palavras <em>&#8220;e não a conheceu até<br />
que deu à luz a um filho&#8221;</em>, se ele ainda deveria aguardar o término do tempo<br />
de purificação, pois senão o seu desejo acabaria por sofrer com um período<br />
ainda mais longo, de 40 dias? A mãe precisava se purificar da mácula de seu<br />
filho recém-nascido de modo que este ficava sob os cuidados da parteira,<br />
enquanto o marido apoiava sua esposa enfraquecida. Portanto, é certo que<br />
[José e Maria] se casaram, já que o Evangelista não pode ser acusado de ter<br />
mentido. Mas Deus nos livre de pensarmos tais coisas a respeito da mãe do<br />
Salvador e de um homem justo! Nenhuma parteira assistiu ao nascimento de<br />
Jesus; nenhuma mulher se intrometeu ali. Com suas próprias mãos [Maria]<br />
envolveu o Menino em pedaços de pano; ela mesma foi mãe e parteira, e, como<br />
nos  é relatado, <em>&#8220;O colocou numa manjedoura, pois não havia nenhum quarto<br />
para eles na pousada&#8221;</em>; eis a declaração [canônica] que refuta as estórias<br />
apócrifas, pois foi Maria mesma que o envolveu em pedaços de pano e o que<br />
se sucederia a partir daí torna impossível a maliciosa idéia de Helvídio,<br />
uma vez que não havia um local adequado para o ato sexual naquela pousada.</p>
<p><strong>Capítulo 11</strong></p>
<p align="justify">Darei agora uma resposta mais ampla a respeito das palavras <em>&#8220;antes que<br />
coabitassem&#8221;</em> e <em>&#8220;não a conheceu até que deu à luz a um filho&#8221;</em>. Mas devo<br />
observar primeiro que a minha resposta segue a ordem do argumento dele até o<br />
terceiro ponto, pois ele dirá que Maria teve outros filhos quando cita a<br />
passagem: <em>&#8220;E José se dirigiu até a cidade de Davi, para se inscrever com<br />
Maria, sua noiva, que estava grávida. Enquanto lá estavam, completaram-se os<br />
dias para o parto e ela deu à luz ao <strong>seu filho primogênito</strong>&#8220;</em>. Esforça-se,<br />
assim, para provar que o termo <em>&#8220;primogênito&#8221;</em> só pode ser aplicado a uma<br />
pessoa que teve outros irmãos e que, no caso, seriam filhos de seus pais.</p>
<p> </p>
<p><strong>Capítulo 12</strong></p>
<p align="justify">Nossa posição é esta: todo filho único é primogênito mas nem todo<br />
primogênito é filho único. Por primogênito entendemos não apenas aquele que<br />
pode ser sucedido por outros, mas aquele que não teve predecessor. Assim diz<br />
o Senhor a Abraão: <em>&#8220;Todo aquele que abrir o útero, de toda a carne, será<br />
oferecido ao Senhor; tanto de homens como de animais, será teu. Contudo, os<br />
primogênitos dos homens deverão ser resgatados; também os primogênitos dos<br />
animais impuros resgatarás&#8221;</em>.</p>
<p align="justify"><em>&#8220;E aqueles que devem ser resgatados com um mês de idade, devem ser<br />
resgatados , de acordo com tua estimativa por cinco siclos [de moedas],<br />
além do siclo do santuário. Mas o<br />
primogênito de um boi  ou de uma ovelha ou de uma cabra, não deverás<br />
resgatar; eles são sagrados&#8221;</em>. A palavra de Deus  me compele a dedicar a Deus<br />
o que quer que abra o útero  se for o primogênito  de animais puros; se de<br />
animais impuros, devo resgatá-lo, dando o valor devido ao sacerdote.</p>
<p align="justify">Poderia replicar: Por que me sujeitais ao curto espaço de um mês?  Por<br />
que falais do primogênito, quando não posso dizer que há irmãos que irão<br />
nascer?  Esperai até que nasça o segundo filho.</p>
<p align="justify">Não explico nada ao sacerdote, como se apenas o nascimento do segundo desse<br />
ao primeiro  que tive a condição de primogênito. Não deveria, ao pé da<br />
letra, chamar-me e convencer-me de louco, se em vez de declarar que<br />
primogênito é um título devido àquele que rompe o útero, pretendesse<br />
restringir essa condição àqueles  que após terão irmãos?  Então, tomando o<br />
caso de João: estamos de acordo que ele foi filho único; eu precisaria<br />
saber se ele não foi também filho primogênito, e se não foi absolutamente<br />
sujeito à lei. Não há dúvidas quanto a isso.</p>
<p align="justify">À toda hora a Escritura assim fala do Salvador: <em>&#8220;E quando chegou o dia de<br />
sua purificação, de acordo com a lei de Moisés, eles o levaram a Jerusalém<br />
para apresentá-lo  ao Senhor [como está prescrito na lei do Senhor, todo<br />
macho  que abre o útero deve ser consagrado ao Senhor] e para oferecer em<br />
sacrifício de acordo com o que é prescrito na lei do Senhor,  um par de<br />
rolinhas ou  duas pombas novas&#8221;</em>. Se esta lei se refere somente aos<br />
primogênitos, e esses deveriam ser os primogênitos com irmãos sucessores,<br />
ninguém seria obrigado pela lei se não pudesse afirmar que houve sucessores.<br />
Mas visto que, como aquele que não tem irmãos mais novos, é sujeito à lei do<br />
primogênito, deduzimos  que é chamado primogênito aquele que abre o útero<br />
da mãe e que não foi precedido por ninguém, e não aquele cujo nascimento foi<br />
seguido por outro de irmão mais novo.</p>
<p align="justify">Moisés escreve no Êxodo: <em>&#8220;E acontecerá ao passar da meia-noite  que o<br />
Senhor ferirá todos os primogênitos das terras do Egito, desde o primogênito<br />
do Faraó que reina em seu trono  até os primogênitos dos cativos  que<br />
estiverem nas prisões; e todos os primogênitos do acampamento&#8221;</em>. Diga-me: eram<br />
os que pereceram pelas mãos do Exterminador  somente seus primogênitos, ou<br />
alguém mais, ou seja,  os filhos únicos?  Se somente aqueles que tinham<br />
irmãos  eram chamados primogênitos, somente os filhos únicos  escaparam da<br />
morte. E se, de fato, os filhos únicos  foram trucidados, isso se opõe �<br />
sentença pronunciada, porque nascidos para morrer eram somente os<br />
primogênitos. Você deverá ou livrar os filhos únicos da pena, e nesse caso,<br />
se tornará ridículo; ou, se concorda que eles foram mortos, ganhamos a<br />
questão, embora não tenhamos de lhe agradecer isso, porque os filhos únicos<br />
eram também primogênitos.</p>
<p><strong>Capítulo 13</strong></p>
<p align="justify">A última proposição de Helvídio era esta, e era o que ele queria demonstrar<br />
quando tratou dos primogênitos,  afirmando que são citados nos Evangelhos os<br />
irmãos de Jesus. Por exemplo:  <em>&#8220;Ora, sua mãe e seus irmãos permaneciam<br />
procurando falar com Ele&#8221;</em>. E em outro lugar: <em>&#8220;Depois disso Ele foi para<br />
Cafarnaum, com sua mãe e seus irmãos&#8221;</em>. E de novo: <em>&#8220;Seus irmãos então lhe<br />
disseram: &#8216;Parte daqui e vai para a Judéia, porque teus discípulos podem<br />
também  testemunhar  as obras que fazes. Porque  ninguém faz nada em<br />
segredo, mas procura ser conhecido abertamente. Se realizas tais coisas,<br />
manifesta-te ao mundo&#8221;</em>. E João acrescenta:  <em>&#8220;Porque  mesmo seus irmãos<br />
não acreditavam nele&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Também Marcos e Mateus: <em>&#8220;E indo à sua própria terra, ensinava  em suas<br />
sinagogas, tanto que [sua gente] ficava atônita e dizia: &#8216;De onde tirou<br />
este homem tal sabedoria e miraculosas obras?  Não é o filho do<br />
carpinteiro.  Não é sua mãe chamada Maria e seus irmãos Tiago, José, Simão e<br />
Judas? E suas irmãs não moram conosco?&#8217;&#8221;</em>. Lucas, também, nos Atos dos<br />
Apóstolos relata: <em>&#8220;Todos aqueles com um só propósito continuaram firmes na<br />
oração, com as mulheres e Maria, a mãe de Jesus, e com seus irmãos&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Paulo, o Apóstolo, também uma vez esteve com eles, e testemunha sua<br />
precisão histórica: <em>&#8220;E cresci pela revelação, mas não vi os outros<br />
apóstolos, a não ser Pedro e Tiago, o irmão do Senhor&#8221;</em>.  E de novo, em outro<br />
lugar: <em>&#8220;Não temos o direito de comer e beber?  Não temos o direito de<br />
trabalhar com as viúvas, assim como o resto dos Apóstolos, os irmãos do<br />
Senhor e Pedro?&#8221;</em></p>
<p align="justify">E, por medo, ninguém aceitou o testemunho dos judeus, pois foi de sua boca que<br />
ouvimos o nome de Seus irmãos, mas mantivemos que seus conterrâneos ficaram<br />
decepcionados com esse mesmo erro a respeito dos irmãos pelo qual [os<br />
judeus] passaram a  acreditar sobre o pai, Helvídio  profere uma dura<br />
observação de advertência e grita: <em>&#8220;Os mesmos nomes  estão repetidos pelos<br />
Evangelistas em outro lugar  e as mesmas pessoas são ali irmãos do Senhor e<br />
filhos de Maria&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Mateus diz: <em>&#8220;E muitas mulheres estavam ali (sem dúvida ao pé da cruz do<br />
Senhor), observando de alguma distância, e elas tinham seguido Jesus desde<br />
a Galiléia, ajudando-o, entre as quais estava Maria Madalena, Maria a mãe<br />
de Tiago menor e de José, e Salomé&#8221;</em>; e no mesmo lugar, logo depois: <em>&#8220;E<br />
muitas outras mulheres que subiram com Ele a Jerusalém&#8221;</em>.</p>
<p> </p>
<p align="justify">Lucas também diz: <em>&#8220;Ali estavam Maria Madalena e Joana, e Maria, a mãe de Tiago,<br />
e as outras mulheres com elas&#8221;</em>.</p>
<p><strong>Capítulo 14</strong></p>
<p align="justify">Minha razão para repetir sempre a mesma coisa é para adverti-lo para não<br />
fazer uma falsa afirmação, divulgando  que  eu deixei de lado tais<br />
passagens, como propícias a você, e que essa interpretação foi desfigurada e<br />
desfeita não pela evidência da Escritura, mas por argumentos evasivos.</p>
<p align="justify"><em>&#8220;Observe:&#8221;</em> - diz ele - <em>&#8220;Tiago e José são filhos de Maria, e são as mesmas<br />
pessoas que são chamadas irmãos pelos judeus. Note que Maria é a mãe de<br />
Tiago o menor e de José. E Tiago é chamado o menor para distingui-lo de<br />
Tiago o maior que era filho de Zebedeu, como Marcos afirma em outro lugar;<br />
E Maria Madalena e Maria a mãe de José  estavam onde ele (=Jesus) fora<br />
colocado. E quando passou o Sábado, elas compraram essências para irem<br />
ungi-lo&#8221;</em>. E, como era de se esperar, ele diz: <em>&#8220;Quão pobre e ímpia visão<br />
temos de Maria, se afirmamos que quando outras mulheres estavam ocupadas com<br />
o sepultamento de Jesus, ela, Sua mãe, estava ausente;  ou se inventamos<br />
alguma outra Maria; e tudo o mais porque o Evangelho de São João testemunha<br />
que ela estava ali presente, quando o Senhor, do alto da cruz a recomendou<br />
como Sua mãe, agora uma viúva, aos cuidados de João. Ou deveríamos supor<br />
que o Evangelista  caiu em tamanho erro e nos induziu a tamanho erro,<br />
chamando Maria a mãe daqueles que eram conhecidos dos judeus como irmãos de<br />
Jesus?&#8221;</em></p>
<p><strong>Capítulo 15</strong></p>
<p align="justify">Que cegueira, que raivosa loucura o leva à sua própria destruição!<br />
Você (Helvídio) diz que a mãe do Senhor estava presente ao pé da cruz; diz<br />
que ela foi confiada ao discípulo João por causa de sua viuvez e condição de<br />
soledade, como se no ponto de vista de sua própria afirmação, ela não<br />
tivesse quatro filhos e numerosas irmãs, com o conforto dos quais ela<br />
poderia se apoiar? Você também lhe dá o nome de viúva, que não se encontra<br />
na Escritura. E embora cite, a cada momento, o Evangelho, somente as palavras<br />
de João lhe desagradam. Você diz, de passagem, que ela estava presente ao<br />
pé da cruz porque parece que você não a omitiu de propósito, e contudo [não<br />
diz] nenhuma palavra  sobre as mulheres que estavam com ela.  Poderia<br />
perdoá-lo  se fosse ignorante, mas vejo que você tem uma razão para suas<br />
omissões.</p>
<p align="justify">Deixe-me destacar então o que João disse: <em>&#8220;Mas estavam de pé junto à cruz<br />
de Jesus sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, a esposa de Cléofas, e Maria<br />
Madalena&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Não há nenhuma dúvida que existiam dois apóstolos  chamados pelos nomes de<br />
Tiago: Tiago, o filho de Zebedeu, e Tiago, o filho de Alfeu.  Por acaso você<br />
tem em vista que o comparativamente desconhecido Tiago o menor, que é<br />
chamado nas Escrituras filho de Maria, não contudo de Maria a mãe do Nosso<br />
Senhor, era apóstolo ou não ?  Se era um apóstolo, devia ser o filho de<br />
Alfeu e um crente em Jesus, <em>&#8220;porque nem seus irmãos acreditavam n&#8217;Ele&#8221;</em>.<br />
Se não era um apóstolo mas um terceiro Tiago (que possa ser, não sei),<br />
como poderia ser tido como o irmão do Senhor, e como, sendo um terceiro,<br />
poderia ser chamado &#8220;menor&#8221; para ser destinguido do &#8220;maior&#8221; , porquanto<br />
maior e menor são usados para mostrar relação existente não entre três, mas<br />
entre dois?  Observe, ainda mais,  que o irmão do Senhor  é um apóstolo,<br />
uma vez que Paulo diz: <em>&#8220;Então depois de três dias eu fui a Jerusalém  para<br />
visitar Pedro  e  fiquei com ele  quinze dias. Mas não vi nenhum outro dos<br />
apóstolos, a não ser Tiago, irmão do Senhor&#8221;</em>. E na mesma Epístola: <em>&#8220;E<br />
quando eles perceberam a graça que me foi concedida, Tiago, Pedro e João que<br />
eram considerados os pilares&#8221;</em> etc.</p>
<p align="justify">E você não poderá supor que esse Tiago fosse o filho de Zebedeu, bastando<br />
para isso  ler os Atos dos Apóstolos, onde você encontrará  que esse último<br />
já tinha sido trucidado por Herodes.  A única conclusão  é que a Maria que é<br />
descrita como a mãe de Tiago o menor era a esposa de Alfeu e irmã de Maria,<br />
a mãe do Senhor, aquela  que é chamada por João Evangelista &#8220;Maria de<br />
Cléofas&#8221;, seja por filiação, seja por parentesco, seja por outra razão.</p>
<p align="justify">Mas se você julga que são duas pessoas porque em outro lugar lemos: <em>&#8220;Maria<br />
a mãe de Tiago menor&#8221;</em> e aqui: <em>&#8220;Maria de Cléofas&#8221;</em>, você terá a aprender<br />
ainda que era costume na Escritura  dar diferentes nomes ao mesmo indivíduo.<br />
Raguel, sogro de Moisés, é chamado também de Jetro. Gedeão, sem nenhuma outra<br />
razão aparente  para a troca, de repente se torna Jerubbaal. Ozias, rei de<br />
Judá, tem, como nome alternativo, Azarias.  O Monte Tabor é chamado<br />
Itabyrium. Igualmente, o Hermon é chamado pelos fenícios Sanior, e pelos<br />
amorreus Sanir. O mesmo pedaço do país é conhecido por três nomes: Negebb,<br />
Teman e Darom, em Ezequiel.  Pedro é também chamado Simão e Cefas. Judas, o<br />
zelote, em outro Evangelho é chamado Tadeu. Há numerosos outros exemplos que<br />
o leitor pode por si mesmo colecionar, em toda  a Escritura.</p>
<p><strong>Capítulo 16</strong></p>
<p align="justify">Agora  aqui temos a explicação  do que eu me esforcei por  mostrar, como foi<br />
que os filhos de Maria, a irmã da mãe de Nosso Senhor, que anteriormente<br />
eram tidos por não crentes, e que depois passaram a acreditar, podem ser<br />
chamados irmãos do Senhor.  Possivelmente, o caso foi que um dos irmãos<br />
acreditou imediatamente enquanto os outros não acreditaram senão muito<br />
depois, e que uma Maria era a mãe de Tiago e José, chamada &#8220;Maria de<br />
Cléofas&#8221;, que é a mesma dita esposa de Alfeu, e a outra, a mãe Tiago o<br />
menor. De qualquer modo, se ela (esta última) fosse a mãe do Senhor, São<br />
João teria lhe concedido seu sublime título, como em todos os demais<br />
lugares, e não teria passado uma impressão errônea, chamando-a mãe de outros<br />
filhos.  Mas neste ponto não desejo argüir  a favor ou contra a suposição de<br />
que Maria, a esposa de Cléofas, e Maria, a mãe de Tiago e José, eram<br />
mulheres diferentes, uma vez que está claramente entendido que Maria, a mãe<br />
de Tiago e José não era a mesma pessoa que a mãe do Senhor.</p>
<p align="justify">Como, então - pergunta Helvídio - explica você que eram chamados irmãos do<br />
Senhor aqueles que não eram seus irmãos?</p>
<p align="justify">Mostrarei como</p>
<p align="justify">Na Sagrada Escritura há quatro espécies de irmãos: pela natureza, pela<br />
raça, pelo parentesco e pelo amor.</p>
<p align="justify">Exemplos de irmãos pela natureza foram Esaú e Jacó,  os doze patriarcas,<br />
André e Pedro, Tiago e João.</p>
<p align="justify">Irmãos de raça, eram todos os judeus que assim se chamavam um ao outro, como<br />
no Deuteronômio: <em>&#8220;Se teu irmão, um homem hebreu, ou uma mulher hebréia, te<br />
for vendida, ele servirá por seis anos; então, no sétimo ano, deixarás que<br />
ele se vá livre&#8221;</em>. E antes, no mesmo livro: <em>&#8220;Deverás de qualquer maneira<br />
fazê-lo teu rei aquele que o Senhor teu Deus escolher: um dentre teus<br />
irmãos deverá ser feito teu rei; não porás um estrangeiro acima de ti, que<br />
não é teu irmão&#8221;</em>. E de novo: <em>&#8220;Não deverás ver o boi  ou a ovelha de teu<br />
irmão se extraviar e ficares omisso; deverás com segurança levá-los de novo<br />
para teu irmão. E se teu irmão não morar perto de ti, ou se não o conheces,<br />
então deves trazê-los para tua casa, e ficarão contigo até que teu irmão<br />
venha procurá-los, e tu deves devolvê-los a ele de volta&#8221;</em>. E o Apóstolo<br />
Paulo diz: <em>&#8220;Desejaria eu mesmo ser reprovado por Cristo pela salvação de<br />
meus irmãos, meus próximos pela carne, que são os israelitas&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">E ainda mais:  são chamados irmãos por parentesco aqueles que são de uma<br />
família, que é pátrio, que corresponde à palavra latina &#8220;paternidade&#8221;,<br />
porque de uma única raiz procede uma numerosa progênie. No Gênese, lemos:</p>
<p><em>&#8220;E Abraão disse a Lot: &#8216;Que não haja luta, eu te peço, entre mim e ti, e<br />
entre meus pastores  e os teus, porque somos irmãos&#8217;&#8221;</em>. E de novo: <em>&#8220;Assim<br />
Lot  escolheu para si toda a planície do Jordão, e se direcionou para leste.<br />
E eles se separaram, um irmão do outro&#8221;</em>. Certamente Lot não era irmão de<br />
Abraão, mas o filho do irmão Aram de Abraão. Porque Terah gerou Abraão,<br />
Nahor e Arão. E Arão gerou Lot. De novo, lemos: <em>&#8220;E Abraão tinha setenta e<br />
cinco anos quando partiu de Haram. E Abraão levou Sarai sua esposa, e Lot,<br />
filho de seu irmão&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Mas se você (Helvídio) ainda duvida que um sobrinho possa ser chamado filho,<br />
permita-me dar-lhe um outro exemplo: <em>&#8220;E quando Abraão ouviu que seu irmão fora<br />
feito escravo, tomou seus experimentados homens, nascidos em sua casa,<br />
trezentos e dezoito&#8221;</em>. E depois de descrever o ataque e o massacre noturno<br />
ele acrescenta: <em>&#8220;E trouxe de volta todos os bens, assim como seu irmão Lot&#8221;</em>.<br />
Que isso seja suficiente  como prova de minha afirmação. Mas por medo,<br />
você pode levantar alguma objeção cavilosa, e se contorcer em seu aperto<br />
como uma cobra; assim devo imobilizá-lo rapidamente com as garantias de<br />
provas para fazê-lo parar de sibilar e murmurar, porque sei que você<br />
gostaria de dizer que está baseado não tanto na verdade da Escritura mas em<br />
complicados argumentos.</p>
<p align="justify">Jacó, o filho de Isaac e Rebeca, quando por medo da perfídia de seu irmão<br />
tinha ido para a Mesopotâmia, retirou-se para perto [de Labão], rolou a<br />
pedra da tampa do poço e bebeu da fonte de Labão, irmão de sua mãe. <em>&#8220;E Jacó<br />
beijou Raquel, ergueu sua voz  e chorou. E Jacó disse a Raquel  que ele era<br />
irmão  de seu pai, que era filho de Rebeca&#8221;</em>. Aqui está um exemplo da regra<br />
já referida, pela qual um sobrinho é chamado de irmão. E mais: <em>&#8220;Labão<br />
disse a Jacó: &#8216;Porque tu és meu irmão, poderias doravante trabalhar para mim<br />
sem pagamento?  Diga-me qual o teu propósito&#8217;&#8221;</em>. E assim, quando ao fim de<br />
12 anos, sem conhecimento de seu tio e acompanhado por suas esposas e filhos<br />
estava retornando para sua terra, quando Labão os alcançou  na montanha de<br />
Gilead e não conseguiu encontrar os ídolos que Raquel escondera em sua<br />
bagagem, Jacó fez uma pergunta a Labão: <em>&#8220;Qual é minha transgressão? Qual<br />
é meu pecado, para que tu me venhas tão irado e me persigas? Procuraste<br />
tudo em minhas bagagens! O que encontraste em todos meus utensílios?  Digas<br />
aqui, irmãos perante irmãos,  para que eles julguem a nós dois&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Diga-me [Helvídio] quem são esses irmãos de Jacó e Labão  que estão aqui<br />
presentes? Esaú, irmão de Jacó, certamente não estava lá, e Labão, o filho<br />
de Bethuel, não tinha irmãos, embora tivesse uma irmã, Rebeca.</p>
<p><strong>Capítulo 17</strong></p>
<p align="justify">Inumeráveis exemplos da mesma espécie podem ser vistos nos Livros Sagrados.</p>
<p align="justify">Mas, para abreviar, volto à última  das quatro espécies de irmãos, aqueles,<br />
esclareço, que são irmãos por afeição, e estes novamente são de duas<br />
espécies: aqueles por um relacionamento espiritual e aqueles por um<br />
relacionamento geral.  Digo espiritual porque todos nós cristãos  somos<br />
chamados irmãos, como no verso: <em>&#8220;Veja como é bom e agradável para os<br />
irmãos viverem juntos na unidade&#8221;</em>.  E em outro Salmo, o Salvador diz: <em>&#8220;Eu<br />
enumerarei teu nome entre meus irmãos&#8221;</em>. E , em outro lugar: <em>&#8220;Vá a meus<br />
irmãos e dize-lhes&#8230;&#8221;</em></p>
<p align="justify">Eu disse - por relacionamento geral - porque nós somos todos filhos de um<br />
mesmo Pai, há como um penhor de irmandade entre nós todos. <em>&#8220;Dizei àqueles<br />
que vos odiarem:&#8221;</em> - diz o profeta - <em>&#8220;vós sois nossos irmãos&#8221;</em>. E o Apóstolo<br />
escrevendo aos Coríntios: <em>&#8220;Se algum homem que é chamado irmão for um<br />
fornicador, ou avarento, ou idólatra, ou caluniador, ou beberrão, ou autor<br />
de extorsões, com alguém assim, não se deve comer&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Agora eu pergunto à que classe você considera que devem pertencer os irmãos<br />
do Senhor, no Evangelho.  Eles são irmãos por natureza, você responde. Mas a<br />
Escritura não diz isso. Não os chama nem filhos de Maria, nem de José.<br />
Poderíamos dizer que eles eram irmãos pela raça?  No entanto, seria<br />
absurdo supor que uns poucos judeus fossem chamados irmãos quando todos os<br />
judeus daquele tempo poderiam, a esse título, reivindicar o nome. Eram eles<br />
irmãos pela virtude de intimidade estreita e de união de coração e<br />
pensamento? Se eram assim, quais eram exatamente seus irmãos mais do que<br />
os apóstolos que receberam sua instrução privada e eram chamados por Ele Sua<br />
mãe e Seus irmãos? Novamente, se todos os homens, como visto, eram seus<br />
irmãos, seria loucura dar uma mensagem especial: <em>&#8220;Vede, seus irmãos o<br />
procuram&#8221;</em> porque todos os homens semelhantemente mereceriam esse nome.</p>
<p align="justify">A única alternativa é adotar  a explicação anterior e considerar que são<br />
chamados irmãos em virtude do vínculo de parentesco, não de amor e simpatia,<br />
nem por prerrogativa de raça, nem pela natureza.  Exatamente como Lot foi<br />
chamado irmão de Abraão, e Jacó, de Labão, exatamente como as filhas de<br />
Zelophehad  receberam um lote entre seus irmãos, exatamente como o próprio<br />
Abraão tinha a esposa Sarai por sua irmã, porque ele diz: <em>&#8220;Ela é de fato<br />
minha irmã, por lado de pai, não pelo lado da mãe&#8221;</em> o que quer dizer, ela<br />
era filha de seu irmão e não de sua irmã. De outro modo, o que diremos de<br />
Abraão, um homem justo, falando  que a esposa era filha de seu próprio pai?</p>
<p align="justify">A Escritura, relatando a história dos homens nos tempos primitivos, não<br />
ultraja nossos ouvidos falando da amplitude em termos expressos, mas prefere<br />
deixá-la ser inferida pelo leitor.  Deus mais tarde aplicou a sanção de lei<br />
à proibição, estabelecendo: <em>&#8220;Quem toma sua irmã, filha de seu pai, ou de<br />
sua mãe, e mostra sua nudez, comete abominação, deverá ser  morto.  Aquele<br />
que descobre a nudez de sua irmã, deverá pagar seu pecado&#8221;</em>.</p>
<p><strong>Capítulo 18</strong></p>
<p align="justify">Há coisa que, em sua extrema ignorância, você nunca leu e, portanto, você<br />
negligenciou toda a imensidade da Escritura e usou sua maldade  para<br />
ultrajar a Virgem, como o homem da história que sendo desconhecido de todo<br />
mundo e achando que poderia tramar um mau ato pelo qual ganhasse renome,<br />
incendiou o templo de Diana; e quando ninguém revelou o ato sacrílego, diz-se<br />
que ele próprio apareceu e se proclamou como aquele  que nele pusera fogo.<br />
Os administradores de Éfeso ficaram curiosos em saber o que o levara  a agir<br />
de tal modo, quando então ele respondeu  que se não tinha fama por boas<br />
obras, todos poderiam lhe dar crédito por uma má.  A história grega relata o<br />
incidente.</p>
<p align="justify">Mas você fez pior. Você pôs fogo no templo do corpo do Senhor, você aviltou<br />
o santuário do Espírito Santo, do qual se propôs a fazer gerar um grupo de<br />
quatro irmãos e uma porção de irmãs.  Numa palavra, juntando-se ao coro dos<br />
judeus, você diz: <em>&#8220;Não é este o filho do carpinteiro  Não é sua mãe<br />
chamada Maria?  E seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?  E suas irmãs<br />
não  moram todas conosco?&#8221;</em>.  A palavra &#8220;todas&#8221;  não seria usada  se não<br />
houvesse um grande número delas. Rogo-te: diga-me quem, antes de você<br />
surgir, tinha conhecimento desta blasfêmia? Quem imaginou essa teoria digna<br />
de dois centavos?  Você obteve seu propósito e se tornou notório por um<br />
crime. Pois eu mesmo que sou  seu oponente, embora vivamos na mesma cidade,<br />
eu não o conheço como o autor disso,  não sei se você é branco ou negro.</p>
<p align="justify">Omito as faltas de dicção que abundam em todos os livros que escreveu. Não<br />
digo nada sobre sua introdução absurda. Bons céus! Eu não procuro<br />
eloquência, embora você mesmo não a tenha; você contou para isso com a ajuda<br />
de seu irmão, Cratério. Eu não procuro graça e estilo, mas busco pureza de<br />
alma, porque entre cristãos é o maior dos solecismos e dos vícios de estilo<br />
fundamentar algo na palavra ou ação. Chego à conclusão de meu argumento.<br />
Concordarei com você  em que eu não ganhei nada; e você se encontrará num<br />
dilema.</p>
<p align="justify">É claro que os irmãos de Nosso Senhor usaram o nome da mesma maneira como<br />
José era chamado seu pai: <em>&#8220;Eu e teu pai te procurávamos preocupados&#8221;</em>; foi<br />
Sua mãe que disse isso, não os judeus. O Evangelista relata que Seu pai e<br />
Sua mãe ficaram admirados com as coisas que se falavam  a Seu respeito, e há<br />
uma passagem semelhante, que já citamos, na qual  José e Maria são chamados<br />
Seus pais. Sabendo que você tem sido louco o bastante para se persuadir que<br />
os manuscritos gregos estão corrompidos,  agora você talvez alegue a<br />
diversidade de interpretações.</p>
<p align="justify">Então procuro o Evangelho de João  e ali  está claramente escrito: <em>&#8220;Filipe<br />
encontrou Natanael, e lhe disse, nós encontramos aquele de quem Moisés na<br />
lei, e os profetas escreveram, Jesus de Nazaré, o filho de José&#8221;</em>. Você<br />
encontrará certamente isso em seu manuscrito. Agora me diga: como Jesus é<br />
filho de José quando está claro que Ele fora gerado  pelo Espírito Santo?<br />
Era José seu verdadeiro pai?  Obtuso como você é, não  se aventurará a<br />
dizer isso.  Era seu suposto pai? Se era, que a mesma regra que você aplica<br />
a José, seja aplicada àqueles que eram chamados irmãos, assim como você<br />
chama José de pai.</p>
<p><strong>Capítulo 19</strong></p>
<p align="justify">Agora que ultrapassei as pedras  e encolhos, devo me por ao largo  e ir a<br />
toda velocidade para chegar ao destino. Você, se sentindo uma pessoa sem<br />
conhecimentos, usou Tertuliano como sua testemunha e citou as palavras de<br />
Vitorino, bispo de Perávio. De Tertuliano não direi senão que não pertenceu<br />
à Igreja. Mas com respeito a Vitorino, afirmo  que já ficou provado pelo<br />
Evangelho - que ele falou dos irmãos de Nosso Senhor não como sendo filhos<br />
de Maria, mas irmãos no sentido que expliquei, ou seja, irmãos sob o ponto<br />
de vista de parentesco, não de natureza.</p>
<p align="justify">Estamos, contudo, desperdiçando nosso percurso com ninharias e deixando a<br />
fonte da verdade, estamos seguindo insignificantes pontos de opinião. Não<br />
deveríamos arrolar contra você toda a série de escritores antigos? Inácio,<br />
Policarpo, Irineu, Justino Mártir e muitos outros homens apostólicos e<br />
eloqüentes, que expuseram as mesmas explicações contra Ebião, Theodoto de<br />
Bizâncio e Valentino, escreveram volumes repletos de conhecimentos. Se<br />
você alguma vez lesse o que eles escreveram, você se tornaria um homem<br />
sábio. Mas eu penso que é melhor refutar brevemente  cada ponto do que<br />
prolongar meu livro por uma extensão indevida.</p>
<p><strong>Capítulo 20</strong></p>
<p align="justify">Agora dirijo meu ataque contra a passagem na qual, desejando mostrar seu<br />
talento  você faz uma comparação entre virgindade e casamento.  Eu não<br />
poderia deixar de rir, e penso no provérbio: viu você alguma vez uma dança<br />
cautelosa?</p>
<p align="justify">Você pergunta:  <em>&#8220;São as virgens melhores do que Abraão, Isaac e Jacó, que<br />
foram casados? Não são as crianças diariamente moldadas pelas mãos de Deus<br />
no útero de suas mães? E se assim é, somos constrangidos a nos ruborizarmos<br />
pelo pensamento de Maria tendo um marido depois do parto? Se julgam que há<br />
alguma desgraça nisto,  não deviam coerentemente acreditar que Deus  nasceu<br />
da Virgem por parto normal. Porque de acordo com esses, há mais desonra numa<br />
virgem dando à luz a Deus pelos órgãos geradores, do que numa virgem que se<br />
juntou a seu próprio esposo depois que deu à luz&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Acrescente, se quiser, Helvídio, as outras humilhações da natureza, o útero de<br />
nove meses se tornando cada vez maior,  a doença, o parto, o sangue, os<br />
cueiros. Imagine você mesmo o menino envolto na placenta. Imagine a dura<br />
manjedoura, o choro do menino, a circuncisão no oitavo dia, o tempo de<br />
purificação, de modo que possa ficar comprovado que tudo era impuro. Não<br />
enrubescemos, você não nos impõe silêncio. Maior humilhação Ele sofreu por<br />
mim, a maior que o atingiu. E quando você tiver dado todos os detalhes, não<br />
estará apto a apontar nada mais vergonhoso do que a cruz que confessamos, na<br />
qual acreditamos e pela qual triunfamos  sobre todos nossos inimigos.</p>
<p><strong>Capítulo 21</strong></p>
<p align="justify">Mas  como não negamos o que está escrito, assim também rejeitamos o que não<br />
está escrito. Acreditamos que Deus nasceu de uma Virgem, porque lemos assim.<br />
Não acreditamos que Maria teve união marital depois que deu à luz  porque<br />
não lemos isso.  Nem afirmamos tal para condenar o casamento, porque a<br />
virgindade é o fruto do casamento; mas porque quando estamos tratando de<br />
santos não devemos julgar apressadamente. Pois se adotássemos a<br />
possibilidade como padrão de julgamento, poderíamos sustentar que José teve<br />
várias esposas porque Abraão teve, e também Jacó, e que aqueles que eram<br />
irmãos do Senhor nasceram daquelas esposas, uma criação imaginária que<br />
alguns sustentam com uma temeridade que nasce da audácia e da piedade.</p>
<p align="justify">Você diz que Maria não continuou virgem. Eu brado ainda mais  que José, ele<br />
mesmo, aceitou  que Maria era virgem, de modo que de um casamento virgem<br />
nasceu um filho virgem. Porque se, como um homem santo, ele não se<br />
apresentou com a acusação de fornicação, e está escrito que ele não teve<br />
outra esposa, mas foi o guardião de Maria, aquela que foi tida por sua<br />
esposa mas não ele por seu marido; a conclusão é que aquele que foi julgado<br />
digno de ser chamado pai do Senhor, permaneceu casto.</p>
<p><strong>Capítulo 22</strong></p>
<p align="justify">E agora que vou  fazer uma comparação entre virgindade e casamento, rogo a<br />
meus leitores para não suporem que louvando a virgindade, tenho em menor<br />
grau  o casamento, e discrimino os santos do Antigo Testamento com relação<br />
àqueles do Novo, isto é, aqueles que tinham esposas  daqueles que se<br />
mantiveram livres dos laços de mulheres; antes, penso que de acordo com a<br />
diferença de tempo e circunstâncias, uma regra foi aplicada aos primeiros,<br />
uma outra a nós, sobre quem sobrevirá o fim do mundo.</p>
<p align="justify">Tanto que continua  vigorando a lei : <em>&#8220;Sede férteis e multipliquai-vos e<br />
povoai a terra&#8221;</em>; e: <em>&#8220;Amaldiçoada é a mulher estéril que não gerou  semente<br />
em Israel&#8221;</em>; elas todas que casaram e foram dadas em matrimônio, deixaram<br />
pai e mãe, e se tornaram uma só carne.</p>
<p align="justify">Mas  de repente com a força do trovão se fizeram ouvir essas palavras: <em>&#8220;O<br />
tempo está se acabando, em que doravante aqueles que têm esposas sejam  como<br />
se não tivessem&#8221;</em>; aderindo ao Senhor, nós somos feitos um espírito com Ele.<br />
E por quê?</p>
<p align="justify">Porque <em>&#8220;aquele que é solteiro está preocupado com as coisas do Senhor, de<br />
modo que poderá agradar ao Senhor; mas aquele que é casado está preocupado<br />
com as coisas do mundo, do modo como agradará a sua esposa.  E aqui está a<br />
diferença também entre a esposa e a virgem.  Aquela que é solteira está<br />
preocupada com as coisas do Senhor,  porque  será santa tanto no corpo como<br />
no espírito; mas aquela que é casada, está preocupada com as coisas do<br />
mundo, do modo como agradará a seu marido&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Por que você sofisma? Por que resiste?  O vaso de eleição disse isso.<br />
Disse-nos que há uma diferença entre a esposa e a virgem. Observe qual deva<br />
ser a felicidade daquele estado no qual  mesmo a distinção de sexo<br />
desaparece.  A virgem não é mais chamada mulher. <em>&#8220;Aquela que é solteira está<br />
preocupada  com as coisas do Senhor, de modo  que é santa  no corpo e no<br />
espírito&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">A virgem é definida como aquela que é santa no corpo e no espírito,  porque<br />
não é bom  ter uma carne virgem se a mulher se põe casada no espírito.  <em>&#8220;Mas<br />
aquela que é casada está preocupada com as coisas do mundo, do modo como<br />
agradará a seu marido&#8221;</em>. Julga você  que não há diferença entre uma que gasta<br />
seu tempo em oração e jejuns daquela que se sente impelida, ao aproximar-se<br />
seu marido, a arranjar sua aparência, andar com passos afetados, e<br />
demonstrar atos de carinho?</p>
<p align="justify">O objetivo da virgem é aparecer menos faceira;  ela quer  se guardar de modo<br />
a esconder suas atrações naturais.  A mulher casada tem seu pincel preparado<br />
ante seu espelho, e em desacordo com seu Criador, esforça-se para adquirir<br />
algo mais do que sua beleza natural.  Então lhe chegam as conversas de seus<br />
filhos, o barulho da casa, as crianças  buscando sua palavra e pedindo seus<br />
beijos, a lista das despesas,  o cuidado para acertar as despesas. De um<br />
lado você a vê na companhia  dos cozidos, cercada de gritos  e preparando o<br />
alimento; você ali ouve  o barulho  de uma multidão de fiandeiras. Enquanto<br />
isso, chega uma mensagem  que o marido e seus amigos estão chegando. A<br />
esposa, como uma andorinha,  voa por toda a casa. Ela deve cuidar de<br />
todas as coisas.  Está o sofá arrumado?  Está o piso varrido?  Estão as<br />
flores nas jarras?  E o jantar está pronto?</p>
<p align="justify">Diga-me, rogo-lhe,  onde entre tudo isso há lugar para pensar em Deus?  São<br />
essas casas tranqüilas?  Onde há as batidas do tambor, o barulho e a<br />
algazarra do órgão e do alaúde, o tinir dos címbalos, pode se encontrar<br />
alguma preocupação com o temor de Deus? O parasita  é repreendido e se<br />
sente orgulhoso da honra. Entram depois as vítimas meio despreparadas<br />
para as paixões, uma referência para todo olhar lúbrico. A infeliz esposa ou<br />
deve achar prazer neles e perecer, ou ficar desgostosa e provocar seu<br />
marido. Disso surge a discórdia, a semente conspiratória do divórcio.</p>
<p align="justify">Ou suponha que você encontre uma casa onde essas coisas são desconhecidas, o<br />
que acontece em pequena proporção! Contudo, mesmo ali, o desempenho do dono<br />
da casa, a educação  das crianças, as necessidades do marido, a correção dos<br />
servos,  não falham  em afastar a mente do pensamento de Deus. <em>&#8220;Deixou de<br />
ficar com Sara como se fica com as mulheres&#8221;</em> - assim diz a Escritura, e<br />
mais tarde Abraão recebeu a ordem: <em>&#8220;Presta atenção em tudo o que Sara te<br />
disser&#8221;</em>. [Porque] ela não está tomada de ansiedades e dor de parto  e,<br />
tendo passado pela mudança de vida [sexual], deixou de exercer as funções de<br />
uma mulher, estando liberta do esquecimento de Deus; não tem desejo por seu<br />
marido,  mas, pelo contrário, seu marido se torna sujeita a ela,  e a voz do<br />
Senhor lhe ordena: <em>&#8220;Presta atenção em tudo o que Sara te disser&#8221;</em>. Então,<br />
começam a ter tempo para rezar. Porque enquanto demorou a ser pago o dever<br />
do matrimônio, a determinação de rezar foi negligenciada.</p>
<p><strong>Capítulo 23</strong></p>
<p align="justify">Não nego que se encontram mulheres santas  entre as viúvas e aquelas que têm<br />
marido; mas se tornam santas logo que deixam de ser esposas,  ou se no<br />
estrito dever do matrimônio imitam a castidade virginal.  O Apóstolo, como<br />
se  Cristo falasse por sua boca, brevemente deu testemunha disso quando<br />
disse: <em>&#8220;Aquela que é solteira  está preocupada com as coisas do Senhor,<br />
como poderá agradar ao Senhor; mas aquela  que é casada está preocupada com<br />
as coisas do mundo, como poderá agradar a seu marido&#8221;</em>.</p>
<p align="justify">Ele nos deixa ao livre exercício de nossa razão a esse respeito. Não<br />
determina obrigação a ninguém nem induz  alguém em cilada; somente persuade<br />
àquilo que é próprio quando deseja que todos os homens sejam como ele mesmo.<br />
Não emitiu, é verdade, um mandamento do Senhor a favor da virgindade, porque<br />
essa graça sobrepuja o poder do homem  desassistido, e seria usar um ar de<br />
imodéstia forçar os homens a se porem a voar em face de sua natureza, e<br />
dizer em outras palavras: <em>&#8220;Quero que você seja como são os anjos do céu&#8221;</em>.  É<br />
essa angélica pureza que assegura à virgindade a mais alta recompensa, e o<br />
Apóstolo  poderia parecer desprezar um sistema de vida que não é culposo.</p>
<p align="justify">Não obstante, no contexto a seguir  diz: <em>&#8220;Mas  presto meu julgamento como<br />
alguém que obteve misericórdia do Senhor para ficar fiel. Penso, portanto,<br />
que isso é bom em razão  da atual aflição, ou seja, que é bom para um homem<br />
ser como ele é&#8221;</em>. O que quer dizer com  <em>&#8220;a atual aflição&#8221;?</em></p>
<p align="justify"><em>&#8220;Haverá aflição para aqueles que tiverem crianças e para aquelas que<br />
amamentarem  naqueles dias!&#8221;</em> A razão por que a madeira cresce é que<br />
poderá ser cortada. O campo é semeado porque  poderá ser segado. O mundo<br />
está já repleto, e a população está demasiado grande para a terra. A cada<br />
dia somos dizimados pela guerra, levados pelas doenças, tragados pelos<br />
naufrágios, embora  continuemos a levar alguém a juízo por causa dos muros<br />
de nossa propriedade.</p>
<p align="justify">É somente uma adição  à regra geral que é feita por aqueles que seguem o<br />
Cordeiro, e que não desvestiram seus ornamentos, que continuam  em seu<br />
estado de virgindade.  Preste atenção ao significado de desvestir.  Eu não<br />
me aventuro a explicá-lo, por medo de que Helvídio possa se tornar abusivo.</p>
<p align="justify">Concordo com você, quando diz que algumas  virgens não são senão  mulheres<br />
de taverna;  digo ainda mais, que mesmo o pecado do adultério pode ser<br />
encontrado entre elas, e você ficará sem dúvida mais surpreso  de ouvir que<br />
alguns do clero  são taberneiros e alguns monges não são castos.  Quem não<br />
entende logo que uma mulher de taverna não persistirá virgem, nem adúltero<br />
um monge, nem taberneiro um clérigo? Exigiremos virgindade se a virgindade<br />
corrompida é um pecado?</p>
<p align="justify">De minha parte, me omitindo das outras pessoas, e tratando dos castos,<br />
afirmo que aquela que trabalha como vendeira, embora sem provas, poderá ser<br />
virgem no corpo, porém não mais será casta em espírito.</p>
<p><strong>Capítulo 24</strong></p>
<p align="justify">Eu me tornei retórico e agi um pouco como orador de plataforma. A isso me levou você, Helvídio; porque, da forma lúcida como brilha o Evangelho atualmente, você quer que se dê uma glória igual à virgindade e ao estado matrimonial. E porque penso que, sentindo a verdade muito forte, você virá aviltar minha vida e abusar de meu caráter (este é o modo das mulheres fracas cochicharem nos cantos quando são repreendidas por seus senhores), vou me antecipando a você:</p>
<p align="justify">- Asseguro que darei atenção às suas injúrias como a uma elevada distinção, uma vez que os mesmos lábios que me atacam aviltaram Maria, e eu - um servo do Senhor - sou favorecido com a mesma brava eloquência de Sua mãe.</p>
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<input type="hidden" name="postTitle_0" value="A VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA, DE SÃO JERÔNIMO">
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<input type="hidden" name="postAuthor_0" value="Rafael Sousa">
<input type="hidden" name="postDateTime_0" value="2009-05-14 23:05:48">
<input type="hidden" name="postContent_0" value="&lt;p&gt;&lt;em&gt;Por São Jerônimo&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Sobre a obra&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Tradução: José Fernandes Vidal e Carlos Martins Nabeto&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;Este tratado surgiu por volta do ano 383 dC, quando Jerônimo e Helvídio se encontravam em Roma, no tempo do papa Dâmaso. As únicas informações contemporâneas que se conservam de Helvídio são estas, fornecidas por Jerônimo.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A questão que trouxe este tratado à luz foi: teria a Mãe de Nosso Senhor permanecido virgem após o nascimento de seu Filho? Helvídio afirmava que os Evangelhos mencionando os &amp;#8220;irmãos&amp;#8221; e &amp;#8220;irmãs&amp;#8221; do Senhor provavam que Maria teria tido outros filhos, baseando sua opinião nos escritos de Tertuliano e Vitorino.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A conclusão deste ponto de vista é que a virgindade se situa numa posição inferior ao casamento. Jerônimo defende o outro lado, mantendo três proposições contra Helvídio:&lt;/p&gt;
&lt;ol&gt;
&lt;li&gt;José era o suposto marido de Maria, mas não o era de fato;&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;Os &amp;#8220;irmãos&amp;#8221; do Senhor eram seus primos (parentes), não irmãos de verdade; e&lt;/li&gt;
&lt;li&gt;A virgindade é superior ao estado de casado.&lt;/li&gt;
&lt;/ol&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A primeira proposição ocupa os capítulos 3 a 8. Baseia-se no registro de Mt 1,18-25, especialmente nas palavras: &amp;#8220;antes que coabitassem&amp;#8221; (cap. 4) e &amp;#8220;não a conheceu até que&amp;#8221; (caps. 5-8).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;A segunda, gira em torno da expressão: &amp;#8220;filho primogênito&amp;#8221; (caps. 9-10), que Jerônimo afirma ser aplicável não apenas ao primeiro de uma série de vários filhos, mas também ao filho único. Quanto à menção dos irmãos e irmãs de Jesus, Jerônimo garante serem filhos de outra Maria, esposa de Cléofas ou Clopas (caps. 11-16); para fundamentar sua posição, cita diversos escritores da Igreja (cap. 17).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;em&gt;Na terceira e última parte, para sustentar a preferência da virgindade sobre o casamento, Jerônimo afirma que não apenas Maria mas também José mantiveram seu estado virginal (cap. 19); diz, também, que embora o casamento possa ser um estado santo, apresenta grandes obstáculos para a oração (cap. 20) e que o ensinamento da Escritura declara que o estado de virgindade e continência estão mais de acordo com o desejo de Deus do que o casamento (caps. 21-22).&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Texto&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 1&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Há algum tempo, recebi o pedido de alguns irmãos para responder a um panfleto escrito por um tal Helvídio. Demorei para fazê-lo, não porque fosse tarefa difícil defender a verdade e refutar um ignorante sem cultura, que dificilmente tomou contato com os primeiros graus do saber, mas porque fiquei preocupado em oferecer uma resposta digna, que desmoronasse os seus argumentos.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Havia ainda a preocupação de que um discípulo confuso (o único sujeito do mundo que se considera clérigo e leigo; único também, como se diz, que pensa que a eloquência consiste na tagarelice, e que falar mal de alguém torna o testemunho de boa fé) poderia passar a blasfemar ainda mais, caso lhe fosse dada outra oportunidade para discutir. Ele, então, como se estivesse sobre um pedestal, passaria a espalhar suas opiniões em todos os lugares.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Também temia que, quando caísse na realidade, passasse a atacar seus adversários de forma ainda mais ofensiva.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Mas, mesmo que eu achasse justos todos esses motivos para guardar silêncio, muito mais justamente deixaram de me influenciar a partir do instante em que um escândalo foi instaurado entre os irmãos, que passaram a acreditar nesse falatório. O machado do Evangelho deve agora cortar pela raiz essa árvore estéril, e tanto ela quanto suas folhagens sem frutos devem ser atiradas no fogo, de tal maneira que Helvídio - que jamais aprendeu a falar - possa aprender, finalmente, a controlar a sua língua.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 2&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Invoco o Espírito Santo para que Ele possa se expressar através da minha boca e, assim, defenda a virgindade da bem-aventurada Maria. Invoco o Senhor Jesus para que proteja o santíssimo ventre no qual permaneceu por aproximadamente dez meses, sem quaisquer suspeitas de colaboração de natureza sexual. Rogo também a Deus Pai para que demonstre que a mãe de Seu Filho - que se tornou mãe antes de se casar - permaneceu Virgem ainda após o nascimento de seu Filho.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Não desejamos entrar no campo da eloquência, nem usar de armadilhas lógicas ou dos subterfúgios de Aristóteles. Usaremos as reais palavras da Escritura; [Helvídio] será refutado pelas mesmas provas que empregou contra nós, para que possa ver que lhe foi possível ler conforme está escrito, e, ainda assim, foi incapaz de perceber a conclusão de uma fé sólida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 3&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Sua primeira declaração é: &lt;em&gt;&amp;#8220;Mateus diz: &lt;/em&gt;&amp;#8216;O nascimento de Jesus Cristo foi&lt;br /&gt;
assim: quando sua mãe Maria estava &lt;strong&gt;prometida&lt;/strong&gt; a José, &lt;strong&gt;antes de coabitarem&lt;/strong&gt;,&lt;br /&gt;
encontrou-se grávida pelo Espírito Santo. E José, seu marido, sendo um homem&lt;br /&gt;
justo e não desejando denunciá-la publicamente, pensou em repudiá-la em&lt;br /&gt;
segredo.  Mas enquanto pensava essas coisas, um anjo do Senhor lhe apareceu&lt;br /&gt;
em sonho e disse: &amp;#8216;José, filho de Davi, não temas em tomar para ti  Maria&lt;br /&gt;
como &lt;strong&gt;tua esposa&lt;/strong&gt;, pois o que nela foi gerado provém do Espirito Santo&amp;#8217;&lt;em&gt;.&lt;br /&gt;
Notem&amp;#8221; -&lt;/em&gt; continua ele&lt;em&gt; -  &amp;#8220;que a palavra empregada é &amp;#8216;prometida&amp;#8217; e não&lt;br /&gt;
&amp;#8216;confiada&amp;#8217;, como vocês dizem; é óbvio que a única razão para estar&lt;br /&gt;
prometida é porque deveria se casar um dia.  E o Evangelista não iria dizer&lt;br /&gt;
&amp;#8216;antes de coabitarem&amp;#8217; se eles não viessem a coabitar no futuro, já que&lt;br /&gt;
ninguém usaria a frase &amp;#8216;antes de jantar&amp;#8217; se certa pessoa não fosse jantar.&lt;br /&gt;
Também o anjo a chama &amp;#8216;tua esposa&amp;#8217; e se refere a ela como unida a José. A&lt;br /&gt;
seguir, somos chamados a ouvir a declaração da Escritura: &lt;/em&gt;&amp;#8216;E José despertou&lt;br /&gt;
do seu sono e fez como o anjo do Senhor lhe havia ordenado, tomando-a para&lt;br /&gt;
si como esposa; e &lt;strong&gt;não a conheceu até que&lt;/strong&gt; deu à luz a seu filho&amp;#8217;&lt;em&gt;&amp;#8220;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 4&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Consideremos cada um desses pontos, pois seguindo o caminho dessa impiedade&lt;br /&gt;
mostraremos que ele [Helvídio] está se contradizendo. Admite que [Maria]&lt;br /&gt;
estava &amp;#8220;prometida&amp;#8221; e que o próximo passo seria se tornar esposa daquele&lt;br /&gt;
homem  a quem estava prometida. Novamente, ele a chama de &amp;#8220;esposa&amp;#8221; e diz que&lt;br /&gt;
a única razão para estar prometida seria pelo fato de casar-se um dia. E,&lt;br /&gt;
temendo  que não o compreendêssemos suficientemente bem, ainda diz: &lt;em&gt;&amp;#8220;a&lt;br /&gt;
palavra usada é &amp;#8216;prometida&amp;#8217; e não &amp;#8216;confiada&amp;#8217;, isto é, ela ainda não&lt;br /&gt;
se tornara esposa, nem mesmo havia sido unida pelo contrato de casamento&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Mas quando ele continua: &lt;em&gt;&amp;#8220;o Evangelista jamais usaria tais palavras se eles&lt;br /&gt;
não viessem a se juntar futuramente, já que não se usa a frase &amp;#8216;antes de&lt;br /&gt;
jantar&amp;#8217; se certa pessoa não for jantar&amp;#8221;&lt;/em&gt;, sinceramente não sei se devo&lt;br /&gt;
lamentar ou rir. Deveria acusá-lo de ignorância ou de imprudência? Como se&lt;br /&gt;
isto, supondo que uma pessoa dissesse: &lt;em&gt;&amp;#8220;Antes de jantar no porto, naveguei&lt;br /&gt;
para a África&amp;#8221;&lt;/em&gt;, significasse que tais palavras obrigatoriamente&lt;br /&gt;
demonstrassem que essa pessoa alguma vez já jantou no porto. Se eu&lt;br /&gt;
preferisse dizer: &lt;em&gt;&amp;#8220;o apóstolo Paulo, antes de ir para a Espanha, foi preso&lt;br /&gt;
em Roma&amp;#8221;&lt;/em&gt;, ou (como também acho provável) &lt;em&gt;&amp;#8220;Helvídio, antes de se&lt;br /&gt;
arrepender, morreu&amp;#8221;&lt;/em&gt;; acaso teria Paulo obrigatoriamente estado na Espanha&lt;br /&gt;
[após a prisão], ou Helvídio se arrependeria após a morte, ainda que a&lt;br /&gt;
Escritura diga: &lt;em&gt;&amp;#8220;No Sheol quem vos dará graças?&amp;#8221;&lt;/em&gt;?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Não podemos entender a preposição &amp;#8220;antes&amp;#8221; - ainda que muitas vezes signifique&lt;br /&gt;
ordem no tempo - como também ordem de pensamento?  Portanto, não há&lt;br /&gt;
necessidade que nossos pensamentos se concretizem, se alguma causa&lt;br /&gt;
suficiente vier a evitá-los (sua concretização). Logo, quando o Evangelista&lt;br /&gt;
diz  &lt;em&gt;&amp;#8220;antes que coabitassem&amp;#8221;&lt;/em&gt;, indica apenas o tempo imediatamente&lt;br /&gt;
precedente ao casamento, e  mostra que estava em estado bem adiantado, pois&lt;br /&gt;
ela já estava prometida, a ponto de estar próximo o momento de se tornar&lt;br /&gt;
esposa. Conforme diz [o Evangelista], antes de se beijarem e se abraçarem,&lt;br /&gt;
antes da consumação do casamento, ela se encontrou grávida.  E ela foi&lt;br /&gt;
determinada para pertencer a ninguém mais a não ser José, que guardou com&lt;br /&gt;
zêlo o ventre cada vez maior de sua prometida, com olhar inquieto mas&lt;br /&gt;
que, a esta altura, quase que com o privilégio de um marido.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Ainda que possa parecer - conforme o exemplo citado - que ele teve relações&lt;br /&gt;
sexuais com Maria após o seu parto, o seu desejo poderia ter desaparecido&lt;br /&gt;
pelo fato dela já ter concebido anteriormente.  E, embora encontremos que&lt;br /&gt;
foi dito a José em um sonho: &lt;em&gt;&amp;#8220;Não temas em receber Maria por tua esposa&amp;#8221;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
e, de novo: &lt;em&gt;&amp;#8220;José despertou do seu sono e fez conforme o anjo  lhe&lt;br /&gt;
ordenara, tomando-a por sua esposa&amp;#8221;&lt;/em&gt;, não devemos nos preocupar com isto,&lt;br /&gt;
pois ainda que seja chamada &amp;#8220;esposa&amp;#8221;, ela somente deixou de ser prometida,&lt;br /&gt;
pois sabemos que é usual na Escritura dar esse título para aqueles que são&lt;br /&gt;
noivos.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;A seguinte evidência, retirada do Deuteronômio, assim o indica: &lt;em&gt;&amp;#8220;Se um&lt;br /&gt;
homem&amp;#8221;&lt;/em&gt; - diz o Escritor [sagrado] - &lt;em&gt;&amp;#8220;encontra uma mulher prometida no campo&lt;br /&gt;
e a violenta, deve ser morto porque humilhou a esposa do seu próximo&amp;#8221;&lt;/em&gt;; e,&lt;br /&gt;
em outro lugar: &lt;em&gt;&amp;#8220;Se uma virgem é prometida a um marido, e um homem a&lt;br /&gt;
encontra na cidade e a violenta, então deveis trazê-los para fora do portão&lt;br /&gt;
da cidade e os apedrejareis até à morte; a mulher porque não gritou,&lt;br /&gt;
estando na cidade, e o homem porque humilhou a esposa do seu próximo.&lt;br /&gt;
Fareis isto para eliminar o mal do meio de vós&amp;#8221;&lt;/em&gt;; e também, em outra parte:&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&amp;#8220;Que tipo de homem é este que possui uma esposa prometida e ainda não a&lt;br /&gt;
recebeu? Que volte para sua casa, para que não morra na batalha, e que&lt;br /&gt;
outro homem a despose&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Mas se alguém guarda dúvidas do porquê a Virgem concebeu após estar&lt;br /&gt;
prometida [a José], uma vez que não estava prometida a mais ninguém, ou,&lt;br /&gt;
para usar os termos da Escritura, estava sem marido,  deixe-me explicar três&lt;br /&gt;
razões: [1ª] Pela genealogia de José, Maria possuía  parentesco com ele, e&lt;br /&gt;
a origem de Maria também precisava ser demonstrada; [2ª] Porque ela não&lt;br /&gt;
poderia ser enquadrada na Lei de Moisés para ser apedrejada como adúltera;&lt;br /&gt;
[3ª] Porque em sua fuga para o Egito ela precisava de segurança, o que&lt;br /&gt;
poderia ser obtido com a ajuda de um guardião, de preferência um marido.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Quem, naquele tempo, acreditaria na palavra da Virgem, de que teria&lt;br /&gt;
concebido pelo poder do Espírito Santo, e que o anjo Gabriel lhe teria&lt;br /&gt;
aparecido para anunciar o propósito de Deus?  Todos não a chamariam de&lt;br /&gt;
adúltera, como fizeram com Suzana?  Ainda nos tempos presentes, quando&lt;br /&gt;
praticamente toda a terra abraçou a Fé, não vêm os judeus afirmar que as&lt;br /&gt;
palavras de Isaías: &lt;em&gt;&amp;#8220;Eis que a &amp;#8216;Virgem&amp;#8217; conceberá e dará à luz um&lt;br /&gt;
filho&amp;#8221;&lt;/em&gt; são equívocas porque o termo hebraico &lt;em&gt;almah&lt;/em&gt; que aparece na frase,&lt;br /&gt;
significa &lt;em&gt;mulher jovem&lt;/em&gt;, enquanto que o termo &lt;em&gt;bethulah&lt;/em&gt;, que significa&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;virgem&lt;/em&gt; não é usado?  Tal posição, abordaremos com mais detalhes&lt;br /&gt;
adiante.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Finalmente, com exceção de José, Isabel e da própria Maria - e talvez de&lt;br /&gt;
mais alguns poucos que podemos supor ouviram a verdade da boca deles -&lt;br /&gt;
todos supunham que Jesus era filho de José.  E de tal modo era essa a&lt;br /&gt;
suposição que até mesmo os Evangelistas, expressando a opinião corrente -&lt;br /&gt;
que é a regra correta para qualquer historiador - o chamavam de pai do&lt;br /&gt;
Salvador, como, por exemplo: &lt;em&gt;&amp;#8220;Movido pelo Espírito, ele (isto é, Simeão)&lt;br /&gt;
veio  ao Templo. Então os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir as&lt;br /&gt;
prescrições da Lei a seu respeito&amp;#8221;&lt;/em&gt;; e, em outro lugar: &lt;em&gt;&amp;#8220;E seus pais iam&lt;br /&gt;
todos os anos a Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa&amp;#8221;&lt;/em&gt;; e, mais adiante:&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&amp;#8220;Tendo completado os dias, eles retornaram, mas o menino Jesus permaneceu&lt;br /&gt;
em Jerusalém, e seus pais não sabiam disso&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Note-se que a própria Maria respondeu  ao [anjo] Gabriel com as seguintes&lt;br /&gt;
palavras: &lt;em&gt;&amp;#8220;Como se sucederá isso, se não conheço varão?&amp;#8221;&lt;/em&gt;, dizendo isto a&lt;br /&gt;
respeito de José; e, mais: &lt;em&gt;&amp;#8220;Filho, por que fizeste isto conosco? Teu pai&lt;br /&gt;
e eu estávamos à tua procura&amp;#8221;&lt;/em&gt;.  Não fazemos uso aqui, como muitos fazem, do&lt;br /&gt;
discurso dos judeus ou dos escarnecedores. Os Evangelistas chamam José de&lt;br /&gt;
&amp;#8220;pai&amp;#8221; e Maria confessa que ele era pai. Não - como já disse antes - que José&lt;br /&gt;
fosse realmente o pai do Salvador, mas, preservando a reputação de Maria,&lt;br /&gt;
todos o viam como sendo o pai [de Jesus], pois ouvira a advertência do&lt;br /&gt;
anjo: &lt;em&gt;&amp;#8220;José, filho de Davi, não  temas em tomar para ti Maria como tua&lt;br /&gt;
esposa, pois o que nela foi gerado provém  do Espírito Santo&amp;#8221;&lt;/em&gt;, pois pensava em&lt;br /&gt;
repudiá-la em segredo; tudo isto bem demonstrando que o filho não era dele.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Ao dizermos tudo isto, mais com o objetivo de oferecer uma instrução&lt;br /&gt;
imparcial do que responder a um oponente, mostramos o porquê José era&lt;br /&gt;
chamado de pai de Nosso Senhor e o porquê Maria era chamada de esposa de&lt;br /&gt;
José. Isto também responde ao porquê de certas pessoas serem chamadas de &lt;em&gt;&amp;#8220;seus irmãos&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 5&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Entretanto, este último ponto encontrará seu lugar apropriado mais adiante.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Vamos agora abordar outros tópicos. A passagem que discutiremos agora é:&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&amp;#8220;E José despertou de seu sono e fez conforme o anjo lhe ordenara, tomando-a&lt;br /&gt;
como sua esposa; e não a conheceu até que deu à luz a um filho, e ele lhe&lt;br /&gt;
colocou o nome de Jesus&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Aqui, antes de mais nada, é absolutamente inútil&lt;br /&gt;
para o nosso oponente querer demonstrar, de forma tão elaborada, que essas&lt;br /&gt;
palavras se referem à cópula sexual, especialmente na compreensão&lt;br /&gt;
intelectual:  qualquer um  pode negar isso e toda pessoa de bom senso pode&lt;br /&gt;
imaginar a estupidez da refutação que Helvídio se esforçou por sustentar.&lt;br /&gt;
Ele quer nos ensinar que o advérbio &lt;em&gt;&amp;#8220;até que&amp;#8221;&lt;/em&gt; implica um tempo fixo e&lt;br /&gt;
definitivo que, ao se completar, ocorre o evento que até então não se&lt;br /&gt;
realizara; como neste caso: &lt;em&gt;&amp;#8220;e não a conheceu &lt;strong&gt;até que&lt;/strong&gt; deu à luz um filho&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Segundo ele, é claro que ela [Maria] foi conhecida depois, e que apenas&lt;br /&gt;
aguardara o tempo necessário para o nascimento de seu filho. Para defender&lt;br /&gt;
sua posição, [Helvídio] amontoa textos e mais textos  sem qualquer&lt;br /&gt;
critério, comportando-se como um gladiador cego que fica movimentando sua&lt;br /&gt;
espada a esmo, dizendo asneiras com sua língua barulhenta e terminando sem&lt;br /&gt;
ferir ninguém, a não ser a si próprio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 6&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Nossa resposta é brevemente esta: as palavras &lt;em&gt;&amp;#8220;conhecer&amp;#8221;&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;&amp;#8220;até que&amp;#8221;&lt;/em&gt;, na&lt;br /&gt;
linguagem da Sagrada Escritura, possuem duplo significado.  Do primeiro&lt;br /&gt;
[quanto a &quot;conhecer&quot;], ele mesmo [Helvídio] nos ofereceu uma dissertação para&lt;br /&gt;
mostrar que pode se referir a relação sexual, como também ninguém duvida que&lt;br /&gt;
pode ser usada para significar percepção (entendimento, saber), como, por&lt;br /&gt;
exemplo: &lt;em&gt;&amp;#8220;o menino Jesus permaneceu em Jerusalém e seus pais não tinham&lt;br /&gt;
conhecimento disso&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Já que provamos que ele seguiu o uso da Escritura neste caso,&lt;br /&gt;
com relação à expressão &lt;em&gt;&amp;#8220;até que&amp;#8221;&lt;/em&gt; será completamente refutado pela&lt;br /&gt;
autoridade da mesma Escritura, pois várias vezes significa um certo tempo&lt;br /&gt;
sem limitação, como quando Deus diz a certas pessoas pela boca do profeta:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&amp;#8220;Até à vossa velhice Eu sou o mesmo&amp;#8221;&lt;/em&gt;; acaso Ele deixará de ser Deus após&lt;br /&gt;
essas pessoas envelhecerem? E, no Evangelho, o Salvador diz aos Apóstolos:&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&amp;#8220;Estarei convosco até a consumação do mundo&amp;#8221;&lt;/em&gt;; será que quando chegar o fim&lt;br /&gt;
dos tempos o Senhor abandonará Seus discípulos e estes, quando estiverem&lt;br /&gt;
sentados sobre os doze tronos para julgar as doze tribos de Israel, estarão&lt;br /&gt;
privados da companhia de seu Senhor?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Também  Paulo, ao escrever aos Coríntios, declara: &lt;em&gt;&amp;#8220;[Cada um, porém, na&lt;br /&gt;
sua ordem:] Cristo, as primícias; depois os que são de Cristo, na sua&lt;br /&gt;
vinda. Então virá o fim quando ele entregar o reino a Deus o Pai, quando&lt;br /&gt;
houver destruído todo domínio e toda autoridade e todo poder. Pois é&lt;br /&gt;
necessário que Ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo de&lt;br /&gt;
seus pés&amp;#8221;&lt;/em&gt;.  Certos de que a passagem relata a natureza humana de Nosso&lt;br /&gt;
Senhor, não temos como negar que as palavras são Daquele que sofreu [morte]&lt;br /&gt;
na cruz e que mais tarde se sentou à direita [de Deus]. O que Ele quer&lt;br /&gt;
demonstrar ao dizer que &lt;em&gt;&amp;#8220;é necessário que Ele reine até que haja posto todos&lt;br /&gt;
os inimigos debaixo de seus pés&amp;#8221;&lt;/em&gt;? O Senhor reinará apenas até colocar&lt;br /&gt;
todos os seus inimigos sob os seus pés e, depois disso, deixará de reinar?&lt;br /&gt;
É óbvio que seu reino estará começando quando seus inimigos estiverem sob os&lt;br /&gt;
seus pés.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Também Davi, na Quarta Canção da Ascensão, fala assim: &lt;em&gt;&amp;#8220;Olhai: assim como&lt;br /&gt;
os olhos dos servos olha para a mão de seu mestre; assim como os olhos da&lt;br /&gt;
moça olham para a mão de sua senhora; assim também os nossos olhos olham&lt;br /&gt;
para o Senhor, nosso Deus, até que tenha misericórdia de nós&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Será então&lt;br /&gt;
que o profeta, olhando para Deus com o intuito de obter misericórdia, irá&lt;br /&gt;
desviar seu olhar para o chão assim que obtiver misericórdia? [Certamente&lt;br /&gt;
que não,] ainda que ele, em algum lugar, diga: &lt;em&gt;&amp;#8220;Meus olhos quedam pela tua&lt;br /&gt;
salvação e pela palavra da tua justiça&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Eu poderia acrescentar inúmeras passagens como estas que, atestam esse uso,&lt;br /&gt;
e cobriria com uma nuvem de provas a verbosidade do nosso contendente. Porém,&lt;br /&gt;
acrescentarei mais algumas passagens e deixarei que o leitor descubra outras&lt;br /&gt;
semelhantes por si mesmo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 7&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;A Palavra de Deus diz em Gênesis: &lt;em&gt;&amp;#8220;Entregaram a Jacó todos os deuses&lt;br /&gt;
estranhos que tinham em suas mãos, e as argolas que penduravam em suas&lt;br /&gt;
orelhas;  e Jacó os escondeu debaixo do carvalho que está junto a Siquém , e&lt;br /&gt;
continuam perdidos até o dia de hoje&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Igualmente lemos no final do&lt;br /&gt;
Deuteronômio: &lt;em&gt;&amp;#8220;Assim, Moisés, servo do Senhor, morreu ali na terra de Moab,&lt;br /&gt;
conforme a palavra do Senhor. E foi sepultado  no vale, na terra de Moab,&lt;br /&gt;
defronte de Beth-Peor; até o dia de hoje ninguém sabe o lugar da sua&lt;br /&gt;
sepultura&amp;#8221;&lt;/em&gt;.  Certamente devemos identificar a expressão &lt;em&gt;&amp;#8220;até o dia de hoje&amp;#8221;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;
com o tempo da composição da história, podendo vocês preferirem o ponto de&lt;br /&gt;
vista que afirma que Moisés foi o autor do Pentateuco ou que Esdras o&lt;br /&gt;
reeditou.  Não faço qualquer objeção em ambos os casos. A questão agora é&lt;br /&gt;
saber se as palavras &lt;em&gt;&amp;#8220;até o dia de hoje&amp;#8221;&lt;/em&gt; se referem à época da publicação ou&lt;br /&gt;
composição desses livros e, caso o sejam, por que [Helvídio] não mostra -&lt;br /&gt;
agora que muitos e muitos anos se passaram desde aquele dia - que os ídolos&lt;br /&gt;
escondidos sob o carvalho ou a sepultura de Moisés foram  descobertos, já&lt;br /&gt;
que ele sustenta, com demasiada teimosia, que certa coisa não pode ocorrer&lt;br /&gt;
dentro de um espaço de tempo delimitado pela expressão &lt;em&gt;&amp;#8220;até que&amp;#8221;&lt;/em&gt; mas, para&lt;br /&gt;
que venha a ocorrer, é necessário que atinja aquele ponto delimitado por&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&amp;#8220;até que&amp;#8221;&lt;/em&gt;?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Ele faria bem se prestasse atenção ao idioma da Sagrada Escritura e&lt;br /&gt;
compreendesse como nós - já que se encontra mergulhado na lama; certas&lt;br /&gt;
coisas parecem ambíguas quando não claramente declaradas, emboras outras&lt;br /&gt;
coisas sejam deixadas assim para exercitar o nosso intelecto. Ora, se ainda&lt;br /&gt;
quando o evento permanecia fresco na memória daqueles homens que viram e&lt;br /&gt;
conviveram com Moisés já se desconhecia o local da sepultura, quanto mais&lt;br /&gt;
agora depois que tantos anos se passaram!&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;E da mesma forma devemos interpretar o que se conta a respeito de José. O&lt;br /&gt;
Evangelista apontou uma circunstância que poderia causar escândalo, ou seja,&lt;br /&gt;
que Maria não foi conhecida por seu marido até dar à luz, e ele (o&lt;br /&gt;
Evangelista) agiu assim para que tivéssemos a certeza de que ela - de quem&lt;br /&gt;
José se absteve enquanto havia lugar para dúvidas sobre a importância da&lt;br /&gt;
visão - não foi conhecida depois de seu parto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 8&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Em resumo: o que eu gostaria de saber é por que José teria se privado [de&lt;br /&gt;
Maria] até o dia de ter ela dado à luz?  Helvídio certamente responderia:&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&amp;#8220;Porque  ele ouviu o que o anjo disse:  &amp;#8216;pois o que nela foi gerado provém&lt;br /&gt;
do Espírito Santo&amp;#8217;&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Nós, então, responderíamos a seguir  que [José]&lt;br /&gt;
certamente ouviu  o que o [anjo] disse: &lt;em&gt;&amp;#8220;José, filho de Davi, não temas em&lt;br /&gt;
tomar para ti Maria como tua  esposa&amp;#8221;&lt;/em&gt;. A razão pela qual ele estava proibido&lt;br /&gt;
de repudiar sua esposa era porque não achava que ela fosse adúltera. Seria&lt;br /&gt;
então verdade que o [anjo] ordenara que não tivesse relações sexuais com sua&lt;br /&gt;
esposa? Não está suficientemente claro que a advertência feita foi para que&lt;br /&gt;
não se separasse dela? E poderia o homem justo pensar em se aproximar dela&lt;br /&gt;
tendo ouvido que o Filho de Deus estava em seu ventre? Ótimo! Vamos então&lt;br /&gt;
acreditar que o mesmo homem que deu tanto crédito a um sonho, não se atreveu&lt;br /&gt;
a tocar em sua esposa, mesmo depois, quando ele ouviu  dos pastores que o&lt;br /&gt;
anjo do Senhor desceu dos céus e lhes disse: &lt;em&gt;&amp;#8220;Não temais! Eis que vos&lt;br /&gt;
anuncio uma grande alegria, que o será também para todo o povo: nasceu-vos&lt;br /&gt;
hoje, na cidade de Davi, o Cristo Senhor&amp;#8221;&lt;/em&gt;;  e após, quando a multidão&lt;br /&gt;
celeste se juntou ao anjo e entoaram: &lt;em&gt;&amp;#8220;Glória a Deus nas alturas e paz na&lt;br /&gt;
terra aos homens de boa vontade&amp;#8221;&lt;/em&gt;; e ainda quando o justo Simeão abraçou a&lt;br /&gt;
criancinha e exclamou: &lt;em&gt;&amp;#8220;Podeis levar agora para ti este teu Servo, Senhor,&lt;br /&gt;
pois os meus olhos viram a tua salvação, conforme a tua palavra&amp;#8221;&lt;/em&gt;; e também&lt;br /&gt;
quando [José] viu a profetisa Ana, os Magos, a Estrela [de Belém], Herodes,&lt;br /&gt;
os anjos&amp;#8230;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Eu diria então: quer Helvídio nos fazer acreditar que José, muito bem&lt;br /&gt;
inteirado de tamanhas maravilhas, ousaria tocar o templo de Deus, a morada&lt;br /&gt;
do Espírito Santo, a mãe do seu Senhor? Maria mantinha todos esses eventos&lt;br /&gt;
&lt;em&gt;&amp;#8220;guardados em seu coração&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Vocês não podem cair na vergonha de dizer que&lt;br /&gt;
José desconhecia tudo isso, pois Lucas nos diz: &lt;em&gt;&amp;#8220;Seu pai e sua mãe ficavam&lt;br /&gt;
maravilhados das coisas que diziam a Seu respeito&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E vocês ainda afirmam, arrogantemente, que a leitura dos manuscritos gregos&lt;br /&gt;
é corrupta, embora seja exatamente isso que todos os escritores gregos&lt;br /&gt;
fizeram constar em seus livros, e não apenas eles, mas também muitos&lt;br /&gt;
escritores latinos interpretaram as palavras da mesma forma&amp;#8230; E nem&lt;br /&gt;
precisaremos considerar as variações existentes nas cópias, pois todos os&lt;br /&gt;
registros existentes, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, se&lt;br /&gt;
encontram assim desde que foram traduzidos para o Latim; portanto, devemos&lt;br /&gt;
crer que a água da fonte brota mais pura que a [água] do rio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 9&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Helvídio poderá responder: &lt;em&gt;&amp;#8220;O que você diz é, na minha opinião,&lt;br /&gt;
insignificante. Seus argumentos foram perdidos no tempo e esta discussão&lt;br /&gt;
demonstra mais astúcia do que verdade. Por que a Escritura não diria como&lt;br /&gt;
diz de Tamar e Judá: &lt;/em&gt;&amp;#8216;E ele a tomou como sua esposa e jamais a conheceu&amp;#8217;&lt;em&gt;?&lt;br /&gt;
Porque Mateus não usou estas palavras se quisesse mesmo expressar esse&lt;br /&gt;
significado? Ele diz claramente: &lt;/em&gt;&amp;#8216;e não a conheceu até que deu à luz  a&lt;br /&gt;
um filho&amp;#8217;&lt;em&gt;. Logo, após o parto, certamente a conheceu, pois se privou dela&lt;br /&gt;
até o momento do parto&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 10&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Se vocês são tão contenciosos, deveriam com suas próprias idéias testar o&lt;br /&gt;
vosso mestre. Vocês não devem permitir que se faça uma separação entre o&lt;br /&gt;
parto e o intercurso (sexual). Não devem dizer: &lt;em&gt;&amp;#8220;Se uma mulher conceber e&lt;br /&gt;
tiver um menino, será imunda sete dias; assim como nos dias da impureza de&lt;br /&gt;
suas regras, será imunda. No oitavo dia, circundar-se-á o prepúcio do menino&lt;br /&gt;
e, durante trinta e três dias, ela ficará ainda purificando-se do seu sangue&lt;br /&gt;
e não tocará em qualquer coisa sagrada&amp;#8221;&lt;/em&gt; e outras coisas semelhantes. Devem&lt;br /&gt;
recordar que se José se aproximasse dela, estaria sujeito à reprovação de&lt;br /&gt;
Jeremias: &lt;em&gt;&amp;#8220;São como cavalos de lançamento bem nutridos, que andam&lt;br /&gt;
relinchando cada um à mulher do seu próximo&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;De outra maneira, como se explicariam as palavras &lt;em&gt;&amp;#8220;e não a conheceu até&lt;br /&gt;
que deu à luz a um filho&amp;#8221;&lt;/em&gt;, se ele ainda deveria aguardar o término do tempo&lt;br /&gt;
de purificação, pois senão o seu desejo acabaria por sofrer com um período&lt;br /&gt;
ainda mais longo, de 40 dias? A mãe precisava se purificar da mácula de seu&lt;br /&gt;
filho recém-nascido de modo que este ficava sob os cuidados da parteira,&lt;br /&gt;
enquanto o marido apoiava sua esposa enfraquecida. Portanto, é certo que&lt;br /&gt;
[José e Maria] se casaram, já que o Evangelista não pode ser acusado de ter&lt;br /&gt;
mentido. Mas Deus nos livre de pensarmos tais coisas a respeito da mãe do&lt;br /&gt;
Salvador e de um homem justo! Nenhuma parteira assistiu ao nascimento de&lt;br /&gt;
Jesus; nenhuma mulher se intrometeu ali. Com suas próprias mãos [Maria]&lt;br /&gt;
envolveu o Menino em pedaços de pano; ela mesma foi mãe e parteira, e, como&lt;br /&gt;
nos  é relatado, &lt;em&gt;&amp;#8220;O colocou numa manjedoura, pois não havia nenhum quarto&lt;br /&gt;
para eles na pousada&amp;#8221;&lt;/em&gt;; eis a declaração [canônica] que refuta as estórias&lt;br /&gt;
apócrifas, pois foi Maria mesma que o envolveu em pedaços de pano e o que&lt;br /&gt;
se sucederia a partir daí torna impossível a maliciosa idéia de Helvídio,&lt;br /&gt;
uma vez que não havia um local adequado para o ato sexual naquela pousada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 11&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Darei agora uma resposta mais ampla a respeito das palavras &lt;em&gt;&amp;#8220;antes que&lt;br /&gt;
coabitassem&amp;#8221;&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;&amp;#8220;não a conheceu até que deu à luz a um filho&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Mas devo&lt;br /&gt;
observar primeiro que a minha resposta segue a ordem do argumento dele até o&lt;br /&gt;
terceiro ponto, pois ele dirá que Maria teve outros filhos quando cita a&lt;br /&gt;
passagem: &lt;em&gt;&amp;#8220;E José se dirigiu até a cidade de Davi, para se inscrever com&lt;br /&gt;
Maria, sua noiva, que estava grávida. Enquanto lá estavam, completaram-se os&lt;br /&gt;
dias para o parto e ela deu à luz ao &lt;strong&gt;seu filho primogênito&lt;/strong&gt;&amp;#8220;&lt;/em&gt;. Esforça-se,&lt;br /&gt;
assim, para provar que o termo &lt;em&gt;&amp;#8220;primogênito&amp;#8221;&lt;/em&gt; só pode ser aplicado a uma&lt;br /&gt;
pessoa que teve outros irmãos e que, no caso, seriam filhos de seus pais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 12&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Nossa posição é esta: todo filho único é primogênito mas nem todo&lt;br /&gt;
primogênito é filho único. Por primogênito entendemos não apenas aquele que&lt;br /&gt;
pode ser sucedido por outros, mas aquele que não teve predecessor. Assim diz&lt;br /&gt;
o Senhor a Abraão: &lt;em&gt;&amp;#8220;Todo aquele que abrir o útero, de toda a carne, será&lt;br /&gt;
oferecido ao Senhor; tanto de homens como de animais, será teu. Contudo, os&lt;br /&gt;
primogênitos dos homens deverão ser resgatados; também os primogênitos dos&lt;br /&gt;
animais impuros resgatarás&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;em&gt;&amp;#8220;E aqueles que devem ser resgatados com um mês de idade, devem ser&lt;br /&gt;
resgatados , de acordo com tua estimativa por cinco siclos [de moedas],&lt;br /&gt;
além do siclo do santuário. Mas o&lt;br /&gt;
primogênito de um boi  ou de uma ovelha ou de uma cabra, não deverás&lt;br /&gt;
resgatar; eles são sagrados&amp;#8221;&lt;/em&gt;. A palavra de Deus  me compele a dedicar a Deus&lt;br /&gt;
o que quer que abra o útero  se for o primogênito  de animais puros; se de&lt;br /&gt;
animais impuros, devo resgatá-lo, dando o valor devido ao sacerdote.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Poderia replicar: Por que me sujeitais ao curto espaço de um mês?  Por&lt;br /&gt;
que falais do primogênito, quando não posso dizer que há irmãos que irão&lt;br /&gt;
nascer?  Esperai até que nasça o segundo filho.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Não explico nada ao sacerdote, como se apenas o nascimento do segundo desse&lt;br /&gt;
ao primeiro  que tive a condição de primogênito. Não deveria, ao pé da&lt;br /&gt;
letra, chamar-me e convencer-me de louco, se em vez de declarar que&lt;br /&gt;
primogênito é um título devido àquele que rompe o útero, pretendesse&lt;br /&gt;
restringir essa condição àqueles  que após terão irmãos?  Então, tomando o&lt;br /&gt;
caso de João: estamos de acordo que ele foi filho único; eu precisaria&lt;br /&gt;
saber se ele não foi também filho primogênito, e se não foi absolutamente&lt;br /&gt;
sujeito à lei. Não há dúvidas quanto a isso.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;À toda hora a Escritura assim fala do Salvador: &lt;em&gt;&amp;#8220;E quando chegou o dia de&lt;br /&gt;
sua purificação, de acordo com a lei de Moisés, eles o levaram a Jerusalém&lt;br /&gt;
para apresentá-lo  ao Senhor [como está prescrito na lei do Senhor, todo&lt;br /&gt;
macho  que abre o útero deve ser consagrado ao Senhor] e para oferecer em&lt;br /&gt;
sacrifício de acordo com o que é prescrito na lei do Senhor,  um par de&lt;br /&gt;
rolinhas ou  duas pombas novas&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Se esta lei se refere somente aos&lt;br /&gt;
primogênitos, e esses deveriam ser os primogênitos com irmãos sucessores,&lt;br /&gt;
ninguém seria obrigado pela lei se não pudesse afirmar que houve sucessores.&lt;br /&gt;
Mas visto que, como aquele que não tem irmãos mais novos, é sujeito à lei do&lt;br /&gt;
primogênito, deduzimos  que é chamado primogênito aquele que abre o útero&lt;br /&gt;
da mãe e que não foi precedido por ninguém, e não aquele cujo nascimento foi&lt;br /&gt;
seguido por outro de irmão mais novo.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Moisés escreve no Êxodo: &lt;em&gt;&amp;#8220;E acontecerá ao passar da meia-noite  que o&lt;br /&gt;
Senhor ferirá todos os primogênitos das terras do Egito, desde o primogênito&lt;br /&gt;
do Faraó que reina em seu trono  até os primogênitos dos cativos  que&lt;br /&gt;
estiverem nas prisões; e todos os primogênitos do acampamento&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Diga-me: eram&lt;br /&gt;
os que pereceram pelas mãos do Exterminador  somente seus primogênitos, ou&lt;br /&gt;
alguém mais, ou seja,  os filhos únicos?  Se somente aqueles que tinham&lt;br /&gt;
irmãos  eram chamados primogênitos, somente os filhos únicos  escaparam da&lt;br /&gt;
morte. E se, de fato, os filhos únicos  foram trucidados, isso se opõe �&lt;br /&gt;
sentença pronunciada, porque nascidos para morrer eram somente os&lt;br /&gt;
primogênitos. Você deverá ou livrar os filhos únicos da pena, e nesse caso,&lt;br /&gt;
se tornará ridículo; ou, se concorda que eles foram mortos, ganhamos a&lt;br /&gt;
questão, embora não tenhamos de lhe agradecer isso, porque os filhos únicos&lt;br /&gt;
eram também primogênitos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 13&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;A última proposição de Helvídio era esta, e era o que ele queria demonstrar&lt;br /&gt;
quando tratou dos primogênitos,  afirmando que são citados nos Evangelhos os&lt;br /&gt;
irmãos de Jesus. Por exemplo:  &lt;em&gt;&amp;#8220;Ora, sua mãe e seus irmãos permaneciam&lt;br /&gt;
procurando falar com Ele&amp;#8221;&lt;/em&gt;. E em outro lugar: &lt;em&gt;&amp;#8220;Depois disso Ele foi para&lt;br /&gt;
Cafarnaum, com sua mãe e seus irmãos&amp;#8221;&lt;/em&gt;. E de novo: &lt;em&gt;&amp;#8220;Seus irmãos então lhe&lt;br /&gt;
disseram: &amp;#8216;Parte daqui e vai para a Judéia, porque teus discípulos podem&lt;br /&gt;
também  testemunhar  as obras que fazes. Porque  ninguém faz nada em&lt;br /&gt;
segredo, mas procura ser conhecido abertamente. Se realizas tais coisas,&lt;br /&gt;
manifesta-te ao mundo&amp;#8221;&lt;/em&gt;. E João acrescenta:  &lt;em&gt;&amp;#8220;Porque  mesmo seus irmãos&lt;br /&gt;
não acreditavam nele&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Também Marcos e Mateus: &lt;em&gt;&amp;#8220;E indo à sua própria terra, ensinava  em suas&lt;br /&gt;
sinagogas, tanto que [sua gente] ficava atônita e dizia: &amp;#8216;De onde tirou&lt;br /&gt;
este homem tal sabedoria e miraculosas obras?  Não é o filho do&lt;br /&gt;
carpinteiro.  Não é sua mãe chamada Maria e seus irmãos Tiago, José, Simão e&lt;br /&gt;
Judas? E suas irmãs não moram conosco?&amp;#8217;&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Lucas, também, nos Atos dos&lt;br /&gt;
Apóstolos relata: &lt;em&gt;&amp;#8220;Todos aqueles com um só propósito continuaram firmes na&lt;br /&gt;
oração, com as mulheres e Maria, a mãe de Jesus, e com seus irmãos&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Paulo, o Apóstolo, também uma vez esteve com eles, e testemunha sua&lt;br /&gt;
precisão histórica: &lt;em&gt;&amp;#8220;E cresci pela revelação, mas não vi os outros&lt;br /&gt;
apóstolos, a não ser Pedro e Tiago, o irmão do Senhor&amp;#8221;&lt;/em&gt;.  E de novo, em outro&lt;br /&gt;
lugar: &lt;em&gt;&amp;#8220;Não temos o direito de comer e beber?  Não temos o direito de&lt;br /&gt;
trabalhar com as viúvas, assim como o resto dos Apóstolos, os irmãos do&lt;br /&gt;
Senhor e Pedro?&amp;#8221;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;E, por medo, ninguém aceitou o testemunho dos judeus, pois foi de sua boca que&lt;br /&gt;
ouvimos o nome de Seus irmãos, mas mantivemos que seus conterrâneos ficaram&lt;br /&gt;
decepcionados com esse mesmo erro a respeito dos irmãos pelo qual [os&lt;br /&gt;
judeus] passaram a  acreditar sobre o pai, Helvídio  profere uma dura&lt;br /&gt;
observação de advertência e grita: &lt;em&gt;&amp;#8220;Os mesmos nomes  estão repetidos pelos&lt;br /&gt;
Evangelistas em outro lugar  e as mesmas pessoas são ali irmãos do Senhor e&lt;br /&gt;
filhos de Maria&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Mateus diz: &lt;em&gt;&amp;#8220;E muitas mulheres estavam ali (sem dúvida ao pé da cruz do&lt;br /&gt;
Senhor), observando de alguma distância, e elas tinham seguido Jesus desde&lt;br /&gt;
a Galiléia, ajudando-o, entre as quais estava Maria Madalena, Maria a mãe&lt;br /&gt;
de Tiago menor e de José, e Salomé&amp;#8221;&lt;/em&gt;; e no mesmo lugar, logo depois: &lt;em&gt;&amp;#8220;E&lt;br /&gt;
muitas outras mulheres que subiram com Ele a Jerusalém&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Lucas também diz: &lt;em&gt;&amp;#8220;Ali estavam Maria Madalena e Joana, e Maria, a mãe de Tiago,&lt;br /&gt;
e as outras mulheres com elas&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 14&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Minha razão para repetir sempre a mesma coisa é para adverti-lo para não&lt;br /&gt;
fazer uma falsa afirmação, divulgando  que  eu deixei de lado tais&lt;br /&gt;
passagens, como propícias a você, e que essa interpretação foi desfigurada e&lt;br /&gt;
desfeita não pela evidência da Escritura, mas por argumentos evasivos.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;em&gt;&amp;#8220;Observe:&amp;#8221;&lt;/em&gt; - diz ele - &lt;em&gt;&amp;#8220;Tiago e José são filhos de Maria, e são as mesmas&lt;br /&gt;
pessoas que são chamadas irmãos pelos judeus. Note que Maria é a mãe de&lt;br /&gt;
Tiago o menor e de José. E Tiago é chamado o menor para distingui-lo de&lt;br /&gt;
Tiago o maior que era filho de Zebedeu, como Marcos afirma em outro lugar;&lt;br /&gt;
E Maria Madalena e Maria a mãe de José  estavam onde ele (=Jesus) fora&lt;br /&gt;
colocado. E quando passou o Sábado, elas compraram essências para irem&lt;br /&gt;
ungi-lo&amp;#8221;&lt;/em&gt;. E, como era de se esperar, ele diz: &lt;em&gt;&amp;#8220;Quão pobre e ímpia visão&lt;br /&gt;
temos de Maria, se afirmamos que quando outras mulheres estavam ocupadas com&lt;br /&gt;
o sepultamento de Jesus, ela, Sua mãe, estava ausente;  ou se inventamos&lt;br /&gt;
alguma outra Maria; e tudo o mais porque o Evangelho de São João testemunha&lt;br /&gt;
que ela estava ali presente, quando o Senhor, do alto da cruz a recomendou&lt;br /&gt;
como Sua mãe, agora uma viúva, aos cuidados de João. Ou deveríamos supor&lt;br /&gt;
que o Evangelista  caiu em tamanho erro e nos induziu a tamanho erro,&lt;br /&gt;
chamando Maria a mãe daqueles que eram conhecidos dos judeus como irmãos de&lt;br /&gt;
Jesus?&amp;#8221;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 15&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Que cegueira, que raivosa loucura o leva à sua própria destruição!&lt;br /&gt;
Você (Helvídio) diz que a mãe do Senhor estava presente ao pé da cruz; diz&lt;br /&gt;
que ela foi confiada ao discípulo João por causa de sua viuvez e condição de&lt;br /&gt;
soledade, como se no ponto de vista de sua própria afirmação, ela não&lt;br /&gt;
tivesse quatro filhos e numerosas irmãs, com o conforto dos quais ela&lt;br /&gt;
poderia se apoiar? Você também lhe dá o nome de viúva, que não se encontra&lt;br /&gt;
na Escritura. E embora cite, a cada momento, o Evangelho, somente as palavras&lt;br /&gt;
de João lhe desagradam. Você diz, de passagem, que ela estava presente ao&lt;br /&gt;
pé da cruz porque parece que você não a omitiu de propósito, e contudo [não&lt;br /&gt;
diz] nenhuma palavra  sobre as mulheres que estavam com ela.  Poderia&lt;br /&gt;
perdoá-lo  se fosse ignorante, mas vejo que você tem uma razão para suas&lt;br /&gt;
omissões.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Deixe-me destacar então o que João disse: &lt;em&gt;&amp;#8220;Mas estavam de pé junto à cruz&lt;br /&gt;
de Jesus sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, a esposa de Cléofas, e Maria&lt;br /&gt;
Madalena&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Não há nenhuma dúvida que existiam dois apóstolos  chamados pelos nomes de&lt;br /&gt;
Tiago: Tiago, o filho de Zebedeu, e Tiago, o filho de Alfeu.  Por acaso você&lt;br /&gt;
tem em vista que o comparativamente desconhecido Tiago o menor, que é&lt;br /&gt;
chamado nas Escrituras filho de Maria, não contudo de Maria a mãe do Nosso&lt;br /&gt;
Senhor, era apóstolo ou não ?  Se era um apóstolo, devia ser o filho de&lt;br /&gt;
Alfeu e um crente em Jesus, &lt;em&gt;&amp;#8220;porque nem seus irmãos acreditavam n&amp;#8217;Ele&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;
Se não era um apóstolo mas um terceiro Tiago (que possa ser, não sei),&lt;br /&gt;
como poderia ser tido como o irmão do Senhor, e como, sendo um terceiro,&lt;br /&gt;
poderia ser chamado &amp;#8220;menor&amp;#8221; para ser destinguido do &amp;#8220;maior&amp;#8221; , porquanto&lt;br /&gt;
maior e menor são usados para mostrar relação existente não entre três, mas&lt;br /&gt;
entre dois?  Observe, ainda mais,  que o irmão do Senhor  é um apóstolo,&lt;br /&gt;
uma vez que Paulo diz: &lt;em&gt;&amp;#8220;Então depois de três dias eu fui a Jerusalém  para&lt;br /&gt;
visitar Pedro  e  fiquei com ele  quinze dias. Mas não vi nenhum outro dos&lt;br /&gt;
apóstolos, a não ser Tiago, irmão do Senhor&amp;#8221;&lt;/em&gt;. E na mesma Epístola: &lt;em&gt;&amp;#8220;E&lt;br /&gt;
quando eles perceberam a graça que me foi concedida, Tiago, Pedro e João que&lt;br /&gt;
eram considerados os pilares&amp;#8221;&lt;/em&gt; etc.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;E você não poderá supor que esse Tiago fosse o filho de Zebedeu, bastando&lt;br /&gt;
para isso  ler os Atos dos Apóstolos, onde você encontrará  que esse último&lt;br /&gt;
já tinha sido trucidado por Herodes.  A única conclusão  é que a Maria que é&lt;br /&gt;
descrita como a mãe de Tiago o menor era a esposa de Alfeu e irmã de Maria,&lt;br /&gt;
a mãe do Senhor, aquela  que é chamada por João Evangelista &amp;#8220;Maria de&lt;br /&gt;
Cléofas&amp;#8221;, seja por filiação, seja por parentesco, seja por outra razão.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Mas se você julga que são duas pessoas porque em outro lugar lemos: &lt;em&gt;&amp;#8220;Maria&lt;br /&gt;
a mãe de Tiago menor&amp;#8221;&lt;/em&gt; e aqui: &lt;em&gt;&amp;#8220;Maria de Cléofas&amp;#8221;&lt;/em&gt;, você terá a aprender&lt;br /&gt;
ainda que era costume na Escritura  dar diferentes nomes ao mesmo indivíduo.&lt;br /&gt;
Raguel, sogro de Moisés, é chamado também de Jetro. Gedeão, sem nenhuma outra&lt;br /&gt;
razão aparente  para a troca, de repente se torna Jerubbaal. Ozias, rei de&lt;br /&gt;
Judá, tem, como nome alternativo, Azarias.  O Monte Tabor é chamado&lt;br /&gt;
Itabyrium. Igualmente, o Hermon é chamado pelos fenícios Sanior, e pelos&lt;br /&gt;
amorreus Sanir. O mesmo pedaço do país é conhecido por três nomes: Negebb,&lt;br /&gt;
Teman e Darom, em Ezequiel.  Pedro é também chamado Simão e Cefas. Judas, o&lt;br /&gt;
zelote, em outro Evangelho é chamado Tadeu. Há numerosos outros exemplos que&lt;br /&gt;
o leitor pode por si mesmo colecionar, em toda  a Escritura.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 16&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Agora  aqui temos a explicação  do que eu me esforcei por  mostrar, como foi&lt;br /&gt;
que os filhos de Maria, a irmã da mãe de Nosso Senhor, que anteriormente&lt;br /&gt;
eram tidos por não crentes, e que depois passaram a acreditar, podem ser&lt;br /&gt;
chamados irmãos do Senhor.  Possivelmente, o caso foi que um dos irmãos&lt;br /&gt;
acreditou imediatamente enquanto os outros não acreditaram senão muito&lt;br /&gt;
depois, e que uma Maria era a mãe de Tiago e José, chamada &amp;#8220;Maria de&lt;br /&gt;
Cléofas&amp;#8221;, que é a mesma dita esposa de Alfeu, e a outra, a mãe Tiago o&lt;br /&gt;
menor. De qualquer modo, se ela (esta última) fosse a mãe do Senhor, São&lt;br /&gt;
João teria lhe concedido seu sublime título, como em todos os demais&lt;br /&gt;
lugares, e não teria passado uma impressão errônea, chamando-a mãe de outros&lt;br /&gt;
filhos.  Mas neste ponto não desejo argüir  a favor ou contra a suposição de&lt;br /&gt;
que Maria, a esposa de Cléofas, e Maria, a mãe de Tiago e José, eram&lt;br /&gt;
mulheres diferentes, uma vez que está claramente entendido que Maria, a mãe&lt;br /&gt;
de Tiago e José não era a mesma pessoa que a mãe do Senhor.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Como, então - pergunta Helvídio - explica você que eram chamados irmãos do&lt;br /&gt;
Senhor aqueles que não eram seus irmãos?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Mostrarei como&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Na Sagrada Escritura há quatro espécies de irmãos: pela natureza, pela&lt;br /&gt;
raça, pelo parentesco e pelo amor.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Exemplos de irmãos pela natureza foram Esaú e Jacó,  os doze patriarcas,&lt;br /&gt;
André e Pedro, Tiago e João.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Irmãos de raça, eram todos os judeus que assim se chamavam um ao outro, como&lt;br /&gt;
no Deuteronômio: &lt;em&gt;&amp;#8220;Se teu irmão, um homem hebreu, ou uma mulher hebréia, te&lt;br /&gt;
for vendida, ele servirá por seis anos; então, no sétimo ano, deixarás que&lt;br /&gt;
ele se vá livre&amp;#8221;&lt;/em&gt;. E antes, no mesmo livro: &lt;em&gt;&amp;#8220;Deverás de qualquer maneira&lt;br /&gt;
fazê-lo teu rei aquele que o Senhor teu Deus escolher: um dentre teus&lt;br /&gt;
irmãos deverá ser feito teu rei; não porás um estrangeiro acima de ti, que&lt;br /&gt;
não é teu irmão&amp;#8221;&lt;/em&gt;. E de novo: &lt;em&gt;&amp;#8220;Não deverás ver o boi  ou a ovelha de teu&lt;br /&gt;
irmão se extraviar e ficares omisso; deverás com segurança levá-los de novo&lt;br /&gt;
para teu irmão. E se teu irmão não morar perto de ti, ou se não o conheces,&lt;br /&gt;
então deves trazê-los para tua casa, e ficarão contigo até que teu irmão&lt;br /&gt;
venha procurá-los, e tu deves devolvê-los a ele de volta&amp;#8221;&lt;/em&gt;. E o Apóstolo&lt;br /&gt;
Paulo diz: &lt;em&gt;&amp;#8220;Desejaria eu mesmo ser reprovado por Cristo pela salvação de&lt;br /&gt;
meus irmãos, meus próximos pela carne, que são os israelitas&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;E ainda mais:  são chamados irmãos por parentesco aqueles que são de uma&lt;br /&gt;
família, que é pátrio, que corresponde à palavra latina &amp;#8220;paternidade&amp;#8221;,&lt;br /&gt;
porque de uma única raiz procede uma numerosa progênie. No Gênese, lemos:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&amp;#8220;E Abraão disse a Lot: &amp;#8216;Que não haja luta, eu te peço, entre mim e ti, e&lt;br /&gt;
entre meus pastores  e os teus, porque somos irmãos&amp;#8217;&amp;#8221;&lt;/em&gt;. E de novo: &lt;em&gt;&amp;#8220;Assim&lt;br /&gt;
Lot  escolheu para si toda a planície do Jordão, e se direcionou para leste.&lt;br /&gt;
E eles se separaram, um irmão do outro&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Certamente Lot não era irmão de&lt;br /&gt;
Abraão, mas o filho do irmão Aram de Abraão. Porque Terah gerou Abraão,&lt;br /&gt;
Nahor e Arão. E Arão gerou Lot. De novo, lemos: &lt;em&gt;&amp;#8220;E Abraão tinha setenta e&lt;br /&gt;
cinco anos quando partiu de Haram. E Abraão levou Sarai sua esposa, e Lot,&lt;br /&gt;
filho de seu irmão&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Mas se você (Helvídio) ainda duvida que um sobrinho possa ser chamado filho,&lt;br /&gt;
permita-me dar-lhe um outro exemplo: &lt;em&gt;&amp;#8220;E quando Abraão ouviu que seu irmão fora&lt;br /&gt;
feito escravo, tomou seus experimentados homens, nascidos em sua casa,&lt;br /&gt;
trezentos e dezoito&amp;#8221;&lt;/em&gt;. E depois de descrever o ataque e o massacre noturno&lt;br /&gt;
ele acrescenta: &lt;em&gt;&amp;#8220;E trouxe de volta todos os bens, assim como seu irmão Lot&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;
Que isso seja suficiente  como prova de minha afirmação. Mas por medo,&lt;br /&gt;
você pode levantar alguma objeção cavilosa, e se contorcer em seu aperto&lt;br /&gt;
como uma cobra; assim devo imobilizá-lo rapidamente com as garantias de&lt;br /&gt;
provas para fazê-lo parar de sibilar e murmurar, porque sei que você&lt;br /&gt;
gostaria de dizer que está baseado não tanto na verdade da Escritura mas em&lt;br /&gt;
complicados argumentos.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Jacó, o filho de Isaac e Rebeca, quando por medo da perfídia de seu irmão&lt;br /&gt;
tinha ido para a Mesopotâmia, retirou-se para perto [de Labão], rolou a&lt;br /&gt;
pedra da tampa do poço e bebeu da fonte de Labão, irmão de sua mãe. &lt;em&gt;&amp;#8220;E Jacó&lt;br /&gt;
beijou Raquel, ergueu sua voz  e chorou. E Jacó disse a Raquel  que ele era&lt;br /&gt;
irmão  de seu pai, que era filho de Rebeca&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Aqui está um exemplo da regra&lt;br /&gt;
já referida, pela qual um sobrinho é chamado de irmão. E mais: &lt;em&gt;&amp;#8220;Labão&lt;br /&gt;
disse a Jacó: &amp;#8216;Porque tu és meu irmão, poderias doravante trabalhar para mim&lt;br /&gt;
sem pagamento?  Diga-me qual o teu propósito&amp;#8217;&amp;#8221;&lt;/em&gt;. E assim, quando ao fim de&lt;br /&gt;
12 anos, sem conhecimento de seu tio e acompanhado por suas esposas e filhos&lt;br /&gt;
estava retornando para sua terra, quando Labão os alcançou  na montanha de&lt;br /&gt;
Gilead e não conseguiu encontrar os ídolos que Raquel escondera em sua&lt;br /&gt;
bagagem, Jacó fez uma pergunta a Labão: &lt;em&gt;&amp;#8220;Qual é minha transgressão? Qual&lt;br /&gt;
é meu pecado, para que tu me venhas tão irado e me persigas? Procuraste&lt;br /&gt;
tudo em minhas bagagens! O que encontraste em todos meus utensílios?  Digas&lt;br /&gt;
aqui, irmãos perante irmãos,  para que eles julguem a nós dois&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Diga-me [Helvídio] quem são esses irmãos de Jacó e Labão  que estão aqui&lt;br /&gt;
presentes? Esaú, irmão de Jacó, certamente não estava lá, e Labão, o filho&lt;br /&gt;
de Bethuel, não tinha irmãos, embora tivesse uma irmã, Rebeca.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 17&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Inumeráveis exemplos da mesma espécie podem ser vistos nos Livros Sagrados.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Mas, para abreviar, volto à última  das quatro espécies de irmãos, aqueles,&lt;br /&gt;
esclareço, que são irmãos por afeição, e estes novamente são de duas&lt;br /&gt;
espécies: aqueles por um relacionamento espiritual e aqueles por um&lt;br /&gt;
relacionamento geral.  Digo espiritual porque todos nós cristãos  somos&lt;br /&gt;
chamados irmãos, como no verso: &lt;em&gt;&amp;#8220;Veja como é bom e agradável para os&lt;br /&gt;
irmãos viverem juntos na unidade&amp;#8221;&lt;/em&gt;.  E em outro Salmo, o Salvador diz: &lt;em&gt;&amp;#8220;Eu&lt;br /&gt;
enumerarei teu nome entre meus irmãos&amp;#8221;&lt;/em&gt;. E , em outro lugar: &lt;em&gt;&amp;#8220;Vá a meus&lt;br /&gt;
irmãos e dize-lhes&amp;#8230;&amp;#8221;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Eu disse - por relacionamento geral - porque nós somos todos filhos de um&lt;br /&gt;
mesmo Pai, há como um penhor de irmandade entre nós todos. &lt;em&gt;&amp;#8220;Dizei àqueles&lt;br /&gt;
que vos odiarem:&amp;#8221;&lt;/em&gt; - diz o profeta - &lt;em&gt;&amp;#8220;vós sois nossos irmãos&amp;#8221;&lt;/em&gt;. E o Apóstolo&lt;br /&gt;
escrevendo aos Coríntios: &lt;em&gt;&amp;#8220;Se algum homem que é chamado irmão for um&lt;br /&gt;
fornicador, ou avarento, ou idólatra, ou caluniador, ou beberrão, ou autor&lt;br /&gt;
de extorsões, com alguém assim, não se deve comer&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Agora eu pergunto à que classe você considera que devem pertencer os irmãos&lt;br /&gt;
do Senhor, no Evangelho.  Eles são irmãos por natureza, você responde. Mas a&lt;br /&gt;
Escritura não diz isso. Não os chama nem filhos de Maria, nem de José.&lt;br /&gt;
Poderíamos dizer que eles eram irmãos pela raça?  No entanto, seria&lt;br /&gt;
absurdo supor que uns poucos judeus fossem chamados irmãos quando todos os&lt;br /&gt;
judeus daquele tempo poderiam, a esse título, reivindicar o nome. Eram eles&lt;br /&gt;
irmãos pela virtude de intimidade estreita e de união de coração e&lt;br /&gt;
pensamento? Se eram assim, quais eram exatamente seus irmãos mais do que&lt;br /&gt;
os apóstolos que receberam sua instrução privada e eram chamados por Ele Sua&lt;br /&gt;
mãe e Seus irmãos? Novamente, se todos os homens, como visto, eram seus&lt;br /&gt;
irmãos, seria loucura dar uma mensagem especial: &lt;em&gt;&amp;#8220;Vede, seus irmãos o&lt;br /&gt;
procuram&amp;#8221;&lt;/em&gt; porque todos os homens semelhantemente mereceriam esse nome.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;A única alternativa é adotar  a explicação anterior e considerar que são&lt;br /&gt;
chamados irmãos em virtude do vínculo de parentesco, não de amor e simpatia,&lt;br /&gt;
nem por prerrogativa de raça, nem pela natureza.  Exatamente como Lot foi&lt;br /&gt;
chamado irmão de Abraão, e Jacó, de Labão, exatamente como as filhas de&lt;br /&gt;
Zelophehad  receberam um lote entre seus irmãos, exatamente como o próprio&lt;br /&gt;
Abraão tinha a esposa Sarai por sua irmã, porque ele diz: &lt;em&gt;&amp;#8220;Ela é de fato&lt;br /&gt;
minha irmã, por lado de pai, não pelo lado da mãe&amp;#8221;&lt;/em&gt; o que quer dizer, ela&lt;br /&gt;
era filha de seu irmão e não de sua irmã. De outro modo, o que diremos de&lt;br /&gt;
Abraão, um homem justo, falando  que a esposa era filha de seu próprio pai?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;A Escritura, relatando a história dos homens nos tempos primitivos, não&lt;br /&gt;
ultraja nossos ouvidos falando da amplitude em termos expressos, mas prefere&lt;br /&gt;
deixá-la ser inferida pelo leitor.  Deus mais tarde aplicou a sanção de lei&lt;br /&gt;
à proibição, estabelecendo: &lt;em&gt;&amp;#8220;Quem toma sua irmã, filha de seu pai, ou de&lt;br /&gt;
sua mãe, e mostra sua nudez, comete abominação, deverá ser  morto.  Aquele&lt;br /&gt;
que descobre a nudez de sua irmã, deverá pagar seu pecado&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 18&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Há coisa que, em sua extrema ignorância, você nunca leu e, portanto, você&lt;br /&gt;
negligenciou toda a imensidade da Escritura e usou sua maldade  para&lt;br /&gt;
ultrajar a Virgem, como o homem da história que sendo desconhecido de todo&lt;br /&gt;
mundo e achando que poderia tramar um mau ato pelo qual ganhasse renome,&lt;br /&gt;
incendiou o templo de Diana; e quando ninguém revelou o ato sacrílego, diz-se&lt;br /&gt;
que ele próprio apareceu e se proclamou como aquele  que nele pusera fogo.&lt;br /&gt;
Os administradores de Éfeso ficaram curiosos em saber o que o levara  a agir&lt;br /&gt;
de tal modo, quando então ele respondeu  que se não tinha fama por boas&lt;br /&gt;
obras, todos poderiam lhe dar crédito por uma má.  A história grega relata o&lt;br /&gt;
incidente.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Mas você fez pior. Você pôs fogo no templo do corpo do Senhor, você aviltou&lt;br /&gt;
o santuário do Espírito Santo, do qual se propôs a fazer gerar um grupo de&lt;br /&gt;
quatro irmãos e uma porção de irmãs.  Numa palavra, juntando-se ao coro dos&lt;br /&gt;
judeus, você diz: &lt;em&gt;&amp;#8220;Não é este o filho do carpinteiro  Não é sua mãe&lt;br /&gt;
chamada Maria?  E seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?  E suas irmãs&lt;br /&gt;
não  moram todas conosco?&amp;#8221;&lt;/em&gt;.  A palavra &amp;#8220;todas&amp;#8221;  não seria usada  se não&lt;br /&gt;
houvesse um grande número delas. Rogo-te: diga-me quem, antes de você&lt;br /&gt;
surgir, tinha conhecimento desta blasfêmia? Quem imaginou essa teoria digna&lt;br /&gt;
de dois centavos?  Você obteve seu propósito e se tornou notório por um&lt;br /&gt;
crime. Pois eu mesmo que sou  seu oponente, embora vivamos na mesma cidade,&lt;br /&gt;
eu não o conheço como o autor disso,  não sei se você é branco ou negro.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Omito as faltas de dicção que abundam em todos os livros que escreveu. Não&lt;br /&gt;
digo nada sobre sua introdução absurda. Bons céus! Eu não procuro&lt;br /&gt;
eloquência, embora você mesmo não a tenha; você contou para isso com a ajuda&lt;br /&gt;
de seu irmão, Cratério. Eu não procuro graça e estilo, mas busco pureza de&lt;br /&gt;
alma, porque entre cristãos é o maior dos solecismos e dos vícios de estilo&lt;br /&gt;
fundamentar algo na palavra ou ação. Chego à conclusão de meu argumento.&lt;br /&gt;
Concordarei com você  em que eu não ganhei nada; e você se encontrará num&lt;br /&gt;
dilema.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;É claro que os irmãos de Nosso Senhor usaram o nome da mesma maneira como&lt;br /&gt;
José era chamado seu pai: &lt;em&gt;&amp;#8220;Eu e teu pai te procurávamos preocupados&amp;#8221;&lt;/em&gt;; foi&lt;br /&gt;
Sua mãe que disse isso, não os judeus. O Evangelista relata que Seu pai e&lt;br /&gt;
Sua mãe ficaram admirados com as coisas que se falavam  a Seu respeito, e há&lt;br /&gt;
uma passagem semelhante, que já citamos, na qual  José e Maria são chamados&lt;br /&gt;
Seus pais. Sabendo que você tem sido louco o bastante para se persuadir que&lt;br /&gt;
os manuscritos gregos estão corrompidos,  agora você talvez alegue a&lt;br /&gt;
diversidade de interpretações.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Então procuro o Evangelho de João  e ali  está claramente escrito: &lt;em&gt;&amp;#8220;Filipe&lt;br /&gt;
encontrou Natanael, e lhe disse, nós encontramos aquele de quem Moisés na&lt;br /&gt;
lei, e os profetas escreveram, Jesus de Nazaré, o filho de José&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Você&lt;br /&gt;
encontrará certamente isso em seu manuscrito. Agora me diga: como Jesus é&lt;br /&gt;
filho de José quando está claro que Ele fora gerado  pelo Espírito Santo?&lt;br /&gt;
Era José seu verdadeiro pai?  Obtuso como você é, não  se aventurará a&lt;br /&gt;
dizer isso.  Era seu suposto pai? Se era, que a mesma regra que você aplica&lt;br /&gt;
a José, seja aplicada àqueles que eram chamados irmãos, assim como você&lt;br /&gt;
chama José de pai.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 19&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Agora que ultrapassei as pedras  e encolhos, devo me por ao largo  e ir a&lt;br /&gt;
toda velocidade para chegar ao destino. Você, se sentindo uma pessoa sem&lt;br /&gt;
conhecimentos, usou Tertuliano como sua testemunha e citou as palavras de&lt;br /&gt;
Vitorino, bispo de Perávio. De Tertuliano não direi senão que não pertenceu&lt;br /&gt;
à Igreja. Mas com respeito a Vitorino, afirmo  que já ficou provado pelo&lt;br /&gt;
Evangelho - que ele falou dos irmãos de Nosso Senhor não como sendo filhos&lt;br /&gt;
de Maria, mas irmãos no sentido que expliquei, ou seja, irmãos sob o ponto&lt;br /&gt;
de vista de parentesco, não de natureza.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Estamos, contudo, desperdiçando nosso percurso com ninharias e deixando a&lt;br /&gt;
fonte da verdade, estamos seguindo insignificantes pontos de opinião. Não&lt;br /&gt;
deveríamos arrolar contra você toda a série de escritores antigos? Inácio,&lt;br /&gt;
Policarpo, Irineu, Justino Mártir e muitos outros homens apostólicos e&lt;br /&gt;
eloqüentes, que expuseram as mesmas explicações contra Ebião, Theodoto de&lt;br /&gt;
Bizâncio e Valentino, escreveram volumes repletos de conhecimentos. Se&lt;br /&gt;
você alguma vez lesse o que eles escreveram, você se tornaria um homem&lt;br /&gt;
sábio. Mas eu penso que é melhor refutar brevemente  cada ponto do que&lt;br /&gt;
prolongar meu livro por uma extensão indevida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 20&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Agora dirijo meu ataque contra a passagem na qual, desejando mostrar seu&lt;br /&gt;
talento  você faz uma comparação entre virgindade e casamento.  Eu não&lt;br /&gt;
poderia deixar de rir, e penso no provérbio: viu você alguma vez uma dança&lt;br /&gt;
cautelosa?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Você pergunta:  &lt;em&gt;&amp;#8220;São as virgens melhores do que Abraão, Isaac e Jacó, que&lt;br /&gt;
foram casados? Não são as crianças diariamente moldadas pelas mãos de Deus&lt;br /&gt;
no útero de suas mães? E se assim é, somos constrangidos a nos ruborizarmos&lt;br /&gt;
pelo pensamento de Maria tendo um marido depois do parto? Se julgam que há&lt;br /&gt;
alguma desgraça nisto,  não deviam coerentemente acreditar que Deus  nasceu&lt;br /&gt;
da Virgem por parto normal. Porque de acordo com esses, há mais desonra numa&lt;br /&gt;
virgem dando à luz a Deus pelos órgãos geradores, do que numa virgem que se&lt;br /&gt;
juntou a seu próprio esposo depois que deu à luz&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Acrescente, se quiser, Helvídio, as outras humilhações da natureza, o útero de&lt;br /&gt;
nove meses se tornando cada vez maior,  a doença, o parto, o sangue, os&lt;br /&gt;
cueiros. Imagine você mesmo o menino envolto na placenta. Imagine a dura&lt;br /&gt;
manjedoura, o choro do menino, a circuncisão no oitavo dia, o tempo de&lt;br /&gt;
purificação, de modo que possa ficar comprovado que tudo era impuro. Não&lt;br /&gt;
enrubescemos, você não nos impõe silêncio. Maior humilhação Ele sofreu por&lt;br /&gt;
mim, a maior que o atingiu. E quando você tiver dado todos os detalhes, não&lt;br /&gt;
estará apto a apontar nada mais vergonhoso do que a cruz que confessamos, na&lt;br /&gt;
qual acreditamos e pela qual triunfamos  sobre todos nossos inimigos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 21&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Mas  como não negamos o que está escrito, assim também rejeitamos o que não&lt;br /&gt;
está escrito. Acreditamos que Deus nasceu de uma Virgem, porque lemos assim.&lt;br /&gt;
Não acreditamos que Maria teve união marital depois que deu à luz  porque&lt;br /&gt;
não lemos isso.  Nem afirmamos tal para condenar o casamento, porque a&lt;br /&gt;
virgindade é o fruto do casamento; mas porque quando estamos tratando de&lt;br /&gt;
santos não devemos julgar apressadamente. Pois se adotássemos a&lt;br /&gt;
possibilidade como padrão de julgamento, poderíamos sustentar que José teve&lt;br /&gt;
várias esposas porque Abraão teve, e também Jacó, e que aqueles que eram&lt;br /&gt;
irmãos do Senhor nasceram daquelas esposas, uma criação imaginária que&lt;br /&gt;
alguns sustentam com uma temeridade que nasce da audácia e da piedade.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Você diz que Maria não continuou virgem. Eu brado ainda mais  que José, ele&lt;br /&gt;
mesmo, aceitou  que Maria era virgem, de modo que de um casamento virgem&lt;br /&gt;
nasceu um filho virgem. Porque se, como um homem santo, ele não se&lt;br /&gt;
apresentou com a acusação de fornicação, e está escrito que ele não teve&lt;br /&gt;
outra esposa, mas foi o guardião de Maria, aquela que foi tida por sua&lt;br /&gt;
esposa mas não ele por seu marido; a conclusão é que aquele que foi julgado&lt;br /&gt;
digno de ser chamado pai do Senhor, permaneceu casto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 22&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;E agora que vou  fazer uma comparação entre virgindade e casamento, rogo a&lt;br /&gt;
meus leitores para não suporem que louvando a virgindade, tenho em menor&lt;br /&gt;
grau  o casamento, e discrimino os santos do Antigo Testamento com relação&lt;br /&gt;
àqueles do Novo, isto é, aqueles que tinham esposas  daqueles que se&lt;br /&gt;
mantiveram livres dos laços de mulheres; antes, penso que de acordo com a&lt;br /&gt;
diferença de tempo e circunstâncias, uma regra foi aplicada aos primeiros,&lt;br /&gt;
uma outra a nós, sobre quem sobrevirá o fim do mundo.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Tanto que continua  vigorando a lei : &lt;em&gt;&amp;#8220;Sede férteis e multipliquai-vos e&lt;br /&gt;
povoai a terra&amp;#8221;&lt;/em&gt;; e: &lt;em&gt;&amp;#8220;Amaldiçoada é a mulher estéril que não gerou  semente&lt;br /&gt;
em Israel&amp;#8221;&lt;/em&gt;; elas todas que casaram e foram dadas em matrimônio, deixaram&lt;br /&gt;
pai e mãe, e se tornaram uma só carne.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Mas  de repente com a força do trovão se fizeram ouvir essas palavras: &lt;em&gt;&amp;#8220;O&lt;br /&gt;
tempo está se acabando, em que doravante aqueles que têm esposas sejam  como&lt;br /&gt;
se não tivessem&amp;#8221;&lt;/em&gt;; aderindo ao Senhor, nós somos feitos um espírito com Ele.&lt;br /&gt;
E por quê?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Porque &lt;em&gt;&amp;#8220;aquele que é solteiro está preocupado com as coisas do Senhor, de&lt;br /&gt;
modo que poderá agradar ao Senhor; mas aquele que é casado está preocupado&lt;br /&gt;
com as coisas do mundo, do modo como agradará a sua esposa.  E aqui está a&lt;br /&gt;
diferença também entre a esposa e a virgem.  Aquela que é solteira está&lt;br /&gt;
preocupada com as coisas do Senhor,  porque  será santa tanto no corpo como&lt;br /&gt;
no espírito; mas aquela que é casada, está preocupada com as coisas do&lt;br /&gt;
mundo, do modo como agradará a seu marido&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Por que você sofisma? Por que resiste?  O vaso de eleição disse isso.&lt;br /&gt;
Disse-nos que há uma diferença entre a esposa e a virgem. Observe qual deva&lt;br /&gt;
ser a felicidade daquele estado no qual  mesmo a distinção de sexo&lt;br /&gt;
desaparece.  A virgem não é mais chamada mulher. &lt;em&gt;&amp;#8220;Aquela que é solteira está&lt;br /&gt;
preocupada  com as coisas do Senhor, de modo  que é santa  no corpo e no&lt;br /&gt;
espírito&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;A virgem é definida como aquela que é santa no corpo e no espírito,  porque&lt;br /&gt;
não é bom  ter uma carne virgem se a mulher se põe casada no espírito.  &lt;em&gt;&amp;#8220;Mas&lt;br /&gt;
aquela que é casada está preocupada com as coisas do mundo, do modo como&lt;br /&gt;
agradará a seu marido&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Julga você  que não há diferença entre uma que gasta&lt;br /&gt;
seu tempo em oração e jejuns daquela que se sente impelida, ao aproximar-se&lt;br /&gt;
seu marido, a arranjar sua aparência, andar com passos afetados, e&lt;br /&gt;
demonstrar atos de carinho?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;O objetivo da virgem é aparecer menos faceira;  ela quer  se guardar de modo&lt;br /&gt;
a esconder suas atrações naturais.  A mulher casada tem seu pincel preparado&lt;br /&gt;
ante seu espelho, e em desacordo com seu Criador, esforça-se para adquirir&lt;br /&gt;
algo mais do que sua beleza natural.  Então lhe chegam as conversas de seus&lt;br /&gt;
filhos, o barulho da casa, as crianças  buscando sua palavra e pedindo seus&lt;br /&gt;
beijos, a lista das despesas,  o cuidado para acertar as despesas. De um&lt;br /&gt;
lado você a vê na companhia  dos cozidos, cercada de gritos  e preparando o&lt;br /&gt;
alimento; você ali ouve  o barulho  de uma multidão de fiandeiras. Enquanto&lt;br /&gt;
isso, chega uma mensagem  que o marido e seus amigos estão chegando. A&lt;br /&gt;
esposa, como uma andorinha,  voa por toda a casa. Ela deve cuidar de&lt;br /&gt;
todas as coisas.  Está o sofá arrumado?  Está o piso varrido?  Estão as&lt;br /&gt;
flores nas jarras?  E o jantar está pronto?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Diga-me, rogo-lhe,  onde entre tudo isso há lugar para pensar em Deus?  São&lt;br /&gt;
essas casas tranqüilas?  Onde há as batidas do tambor, o barulho e a&lt;br /&gt;
algazarra do órgão e do alaúde, o tinir dos címbalos, pode se encontrar&lt;br /&gt;
alguma preocupação com o temor de Deus? O parasita  é repreendido e se&lt;br /&gt;
sente orgulhoso da honra. Entram depois as vítimas meio despreparadas&lt;br /&gt;
para as paixões, uma referência para todo olhar lúbrico. A infeliz esposa ou&lt;br /&gt;
deve achar prazer neles e perecer, ou ficar desgostosa e provocar seu&lt;br /&gt;
marido. Disso surge a discórdia, a semente conspiratória do divórcio.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Ou suponha que você encontre uma casa onde essas coisas são desconhecidas, o&lt;br /&gt;
que acontece em pequena proporção! Contudo, mesmo ali, o desempenho do dono&lt;br /&gt;
da casa, a educação  das crianças, as necessidades do marido, a correção dos&lt;br /&gt;
servos,  não falham  em afastar a mente do pensamento de Deus. &lt;em&gt;&amp;#8220;Deixou de&lt;br /&gt;
ficar com Sara como se fica com as mulheres&amp;#8221;&lt;/em&gt; - assim diz a Escritura, e&lt;br /&gt;
mais tarde Abraão recebeu a ordem: &lt;em&gt;&amp;#8220;Presta atenção em tudo o que Sara te&lt;br /&gt;
disser&amp;#8221;&lt;/em&gt;. [Porque] ela não está tomada de ansiedades e dor de parto  e,&lt;br /&gt;
tendo passado pela mudança de vida [sexual], deixou de exercer as funções de&lt;br /&gt;
uma mulher, estando liberta do esquecimento de Deus; não tem desejo por seu&lt;br /&gt;
marido,  mas, pelo contrário, seu marido se torna sujeita a ela,  e a voz do&lt;br /&gt;
Senhor lhe ordena: &lt;em&gt;&amp;#8220;Presta atenção em tudo o que Sara te disser&amp;#8221;&lt;/em&gt;. Então,&lt;br /&gt;
começam a ter tempo para rezar. Porque enquanto demorou a ser pago o dever&lt;br /&gt;
do matrimônio, a determinação de rezar foi negligenciada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 23&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Não nego que se encontram mulheres santas  entre as viúvas e aquelas que têm&lt;br /&gt;
marido; mas se tornam santas logo que deixam de ser esposas,  ou se no&lt;br /&gt;
estrito dever do matrimônio imitam a castidade virginal.  O Apóstolo, como&lt;br /&gt;
se  Cristo falasse por sua boca, brevemente deu testemunha disso quando&lt;br /&gt;
disse: &lt;em&gt;&amp;#8220;Aquela que é solteira  está preocupada com as coisas do Senhor,&lt;br /&gt;
como poderá agradar ao Senhor; mas aquela  que é casada está preocupada com&lt;br /&gt;
as coisas do mundo, como poderá agradar a seu marido&amp;#8221;&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Ele nos deixa ao livre exercício de nossa razão a esse respeito. Não&lt;br /&gt;
determina obrigação a ninguém nem induz  alguém em cilada; somente persuade&lt;br /&gt;
àquilo que é próprio quando deseja que todos os homens sejam como ele mesmo.&lt;br /&gt;
Não emitiu, é verdade, um mandamento do Senhor a favor da virgindade, porque&lt;br /&gt;
essa graça sobrepuja o poder do homem  desassistido, e seria usar um ar de&lt;br /&gt;
imodéstia forçar os homens a se porem a voar em face de sua natureza, e&lt;br /&gt;
dizer em outras palavras: &lt;em&gt;&amp;#8220;Quero que você seja como são os anjos do céu&amp;#8221;&lt;/em&gt;.  É&lt;br /&gt;
essa angélica pureza que assegura à virgindade a mais alta recompensa, e o&lt;br /&gt;
Apóstolo  poderia parecer desprezar um sistema de vida que não é culposo.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Não obstante, no contexto a seguir  diz: &lt;em&gt;&amp;#8220;Mas  presto meu julgamento como&lt;br /&gt;
alguém que obteve misericórdia do Senhor para ficar fiel. Penso, portanto,&lt;br /&gt;
que isso é bom em razão  da atual aflição, ou seja, que é bom para um homem&lt;br /&gt;
ser como ele é&amp;#8221;&lt;/em&gt;. O que quer dizer com  &lt;em&gt;&amp;#8220;a atual aflição&amp;#8221;?&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;em&gt;&amp;#8220;Haverá aflição para aqueles que tiverem crianças e para aquelas que&lt;br /&gt;
amamentarem  naqueles dias!&amp;#8221;&lt;/em&gt; A razão por que a madeira cresce é que&lt;br /&gt;
poderá ser cortada. O campo é semeado porque  poderá ser segado. O mundo&lt;br /&gt;
está já repleto, e a população está demasiado grande para a terra. A cada&lt;br /&gt;
dia somos dizimados pela guerra, levados pelas doenças, tragados pelos&lt;br /&gt;
naufrágios, embora  continuemos a levar alguém a juízo por causa dos muros&lt;br /&gt;
de nossa propriedade.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;É somente uma adição  à regra geral que é feita por aqueles que seguem o&lt;br /&gt;
Cordeiro, e que não desvestiram seus ornamentos, que continuam  em seu&lt;br /&gt;
estado de virgindade.  Preste atenção ao significado de desvestir.  Eu não&lt;br /&gt;
me aventuro a explicá-lo, por medo de que Helvídio possa se tornar abusivo.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Concordo com você, quando diz que algumas  virgens não são senão  mulheres&lt;br /&gt;
de taverna;  digo ainda mais, que mesmo o pecado do adultério pode ser&lt;br /&gt;
encontrado entre elas, e você ficará sem dúvida mais surpreso  de ouvir que&lt;br /&gt;
alguns do clero  são taberneiros e alguns monges não são castos.  Quem não&lt;br /&gt;
entende logo que uma mulher de taverna não persistirá virgem, nem adúltero&lt;br /&gt;
um monge, nem taberneiro um clérigo? Exigiremos virgindade se a virgindade&lt;br /&gt;
corrompida é um pecado?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;De minha parte, me omitindo das outras pessoas, e tratando dos castos,&lt;br /&gt;
afirmo que aquela que trabalha como vendeira, embora sem provas, poderá ser&lt;br /&gt;
virgem no corpo, porém não mais será casta em espírito.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Capítulo 24&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Eu me tornei retórico e agi um pouco como orador de plataforma. A isso me levou você, Helvídio; porque, da forma lúcida como brilha o Evangelho atualmente, você quer que se dê uma glória igual à virgindade e ao estado matrimonial. E porque penso que, sentindo a verdade muito forte, você virá aviltar minha vida e abusar de meu caráter (este é o modo das mulheres fracas cochicharem nos cantos quando são repreendidas por seus senhores), vou me antecipando a você:&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;- Asseguro que darei atenção às suas injúrias como a uma elevada distinção, uma vez que os mesmos lábios que me atacam aviltaram Maria, e eu - um servo do Senhor - sou favorecido com a mesma brava eloquência de Sua mãe.&lt;/p&gt;
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		<title>BIOGRAFIA DE SÃO LEÃO MAGNO</title>
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		<pubDate>Fri, 15 May 2009 02:06:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Lima</dc:creator>
		
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Por Roque Frangiotti

Fonte: Col. Patrística Vol. 6 Ed. Paulus
1. Origem e ascensão
Criado e formado em Roma, aquele que foi cognominado o &#8220;Grande&#8221;, devido a sua intensa e efetiva atividade, nasceu, provavelmente na Toscana. Apesar de sua celebridade, a historia nada nos informa sabre sua família, infância e juventude. Contudo, se levarmos em conta sua educação, devemos concluir [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<h3 id="ctl00_Conteudo_ArticleTitle"><em><img class="alignleft size-full wp-image-252" title="s_leaomagno" src="http://cocp.veritatis.com.br/wp-content/uploads/2009/05/s_leaomagno.jpg" alt="s_leaomagno" width="324" height="400" />Por <span id="ctl00_Conteudo_txtAutor">Roque Frangiotti</span></em></h3>
<p><em></em></p>
<p><em><span id="ctl00_Conteudo_lblFonte">Fonte: </span><span id="ctl00_Conteudo_txtFonte">Col. Patrística Vol. 6 Ed. Paulus</span></em></p>
<p><span id="ctl00_Conteudo_ArticleText"><strong>1. Origem e ascensão</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Criado e formado em Roma, aquele que foi cognominado o &#8220;Grande&#8221;, devido a sua intensa e efetiva atividade, nasceu, provavelmente na Toscana. Apesar de sua celebridade, a historia nada nos informa sabre sua família, infância e juventude. Contudo, se levarmos em conta sua educação, devemos concluir que pertencia a lima família de alta condição social.</p>
<p style="text-align: justify;">Por volta de 420-430, tornou-se diácono. Já, nesta época, era muito estimado, influente e se destacava como líder, ocupando lugar preponderante entre os clérigos de Roma. Assim exercia considerável influência nos negócios da Igreja. &#8220;Teve relações de amizade com São Prospero de Aquitânia e com Cassiano, fundador da celebre abadia de S. Vitor em Marselha; deste, que ele exortara a escrever o &#8220;De Incarnatione Domini&#8221; contra os nestorianos, recebeu Leão este elogio verdadeiramente singular para urn simples diácono: &#8220;Honra da Igreja e do sacra ministério&#8221;(1).<br />
Quando o papa Sixto III morreu, o diácono Leão se encontrava nas Gálias em missão política a fim de resolver um entrevero entre o patrício Aécio e o prefeito do pretório, Albino. Nas palavras de João XXIII, &#8220;foi, então, que a Igreja de Roma pensou que não se podia confiar o poder de Vigário de Cristo a homem melhor que o diácono Leão, que ja se revelara tanto teólogo seguro como fino diplomata. Recebeu, pois, a sagração episcopal a 29 de setembro de 440, e o seu pontificado foi um dos mais longos da antigüidade cristã, e indubitavelmente um dos mais gloriosos&#8221;(2). Eram tempos difíceis tanto para a Igreja&#8221;quanto para o império em decadência. Hordas de bárbaros atacavam e invadiam os territórios romanos. Internamente, reapareciam antigas heresias, surgia o monofisismo e a política de Bizâncio que visava a suplantar a velha Roma.</p>
<p><strong>2. Homem de ação</strong></p>
<p style="text-align: justify;">Leão Magno era dotado daquilo que hoje se chama &#8220;senso de administração&#8221;. Empreendedor, empenhou-se, inteiramente, par salvaguardar a unidade da Igreja e proteger o povo romano da carnificina que os invasores costumavam executar. Neste sentido, moveu-se no plano político para salvar seus concidadãos das desgraças de cair nas mãos dos hunos e vândalos. Par esta razão, em 452 foi ao encontro de Átila, &#8220;O Flagelo de Deus&#8221;, em Mantua, negociando sua retirada da Itália, evitando que, na seqüência, Roma fosse tomada e ocupada. Três anos mais tarde, 455, suas negociações junto a Dutro invasor, Genserico, não alcançaram o mesmo sucesso: embora conseguisse que este general poupasse as vidas dos romanos, não evitou que Roma fosse, por quinze dias, pilhada.</p>
<p style="text-align: justify;">No interior da Igreja, aplicou toda a sua solicitude através das pregações, nas intervenções anti-heréticas, na organizações da liturgia e da vida monástica. Sua luta pela unidade e ortodoxia foi marcada por combate sem tréguas contra os hereges, perseguindo os maniqueus,(3) os pelagianos(4) e os priscilianistas(5).Para isso, apesar de sua diplomacia, não hesitou em apelar para a proteção das forças do império (Epist. 7; 11; 15). Assim, interveio para salvar a ordem na Igreja setentrional, na manutenção da disciplina eclesiástica. Com a mesma finalidade, suprimiu a liberdade das igrejas da Gália, aprovou os atos do concílio de Calcedônia (451), exceto o cânone que concedia a sede de Constantinopla prerrogativas de igualdade à sede romana. Em troca destes favores, concedeu aos imperadores o direito de convocar os concílios ecumênicos e de nomear presidentes sinodais (Epist. 29; 33; 34). Contudo, sempre reservou as questões de fé unicamente às autoridades eclesiásticas (Epist. 115).</p>
<p style="text-align: justify;">Por tudo o que realizou passou para a história como o defensor da civilização ocidental e, ao lado de Gregório I, também cognomina do Magno (590-604), e considerado o maior papa da antiguidade cristã. A partir de sua atividade papal, a autoridade temporal e política da Igreja cresceu enormemente. Leão Magno morreu aos 10 de março de 461, venerado como santo. Bento XIV, em 1754, acrescentou-lhe ainda o título de &#8220;Doutor da Igreja&#8221;.</p>
<p><em><strong>Notas</strong></em></p>
<p>1 De vita et rebus gestis S.L.M., em PL 55, 187 B (trad. de D. Bernardo Botelho Nunes, O.S.B.).</p>
<p>2 JOAO XXIII,&#8221; Aeterna Dei sapientia&#8221;, em Revista Eclesiastica Brasileira 22, 1962, p. 191.</p>
<p>3 O maniqueísmo é uma seita de salvação com vocação universal. Sua doutrina e urn dualismo radical formado com empréstimos das mitologias mazdeanas, gnósticas, cristãs e budistas. O mundo atual e o lugar onde se enfrentam dais princípios: as parcelas de Luz procuram se desprender das trevas e da matéria. Para lembrar as almas suas origens e sua destinação luminosa, Deus enviou os profetas, dos quais, o último é Mani. Perseguido pelo mazdeísmo, judaísmo, cristianismo, assim mesmo sobreviveu até a Idade Média, através dos cátaros.</p>
<p>4 Trata-se dos seguidores de Pelágio, monge bretão, que viveu por volta de 360. Sua doutrina defende a excelência da criação de Deus e o livre-arbítrio a respeito do pecado original e da graça. Foi combatido por Agostinho e condenado par vários concílios africanos e pelo de Éfeso, em 431.</p>
<p>5 Seguidores de Prisciliano, urn leigo de alta condição e de notável capacidade. Por volta de 370-375, começou a pregar, na Espanha, uma doutrina ascética muito rígida, que teve grande sucesso, mas provocou a hostilidade de alguns bispos, especialmente, de Idazio e de Itácio. Estes não se deram par satisfeitos de verem Prisciliano condenado e decapitado por acusação de magia negra. Foi o primeiro heresiarca executado pelo poder secular. Embora condenado pelos concílios de Saragoça, em 380, de Bordeaux, em 384 e, finalmente, de Toledo, em 400, o priscilianismo sobreviveu na Espanha do Norte até o final do século V. Para uma visão mais completa destas e outras heresias surgidas até o século VII, cr. R. FRANGIOTTI, História das heresias (secs. I- VII): conflitos dentro do cristianismo, Paulus, 1995.</p>
<div></div>
<p></span></p>
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&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;span id=&quot;ctl00_Conteudo_lblFonte&quot;&gt;Fonte: &lt;/span&gt;&lt;span id=&quot;ctl00_Conteudo_txtFonte&quot;&gt;Col. Patrística Vol. 6 Ed. Paulus&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span id=&quot;ctl00_Conteudo_ArticleText&quot;&gt;&lt;strong&gt;1. Origem e ascensão&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Criado e formado em Roma, aquele que foi cognominado o &amp;#8220;Grande&amp;#8221;, devido a sua intensa e efetiva atividade, nasceu, provavelmente na Toscana. Apesar de sua celebridade, a historia nada nos informa sabre sua família, infância e juventude. Contudo, se levarmos em conta sua educação, devemos concluir que pertencia a lima família de alta condição social.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Por volta de 420-430, tornou-se diácono. Já, nesta época, era muito estimado, influente e se destacava como líder, ocupando lugar preponderante entre os clérigos de Roma. Assim exercia considerável influência nos negócios da Igreja. &amp;#8220;Teve relações de amizade com São Prospero de Aquitânia e com Cassiano, fundador da celebre abadia de S. Vitor em Marselha; deste, que ele exortara a escrever o &amp;#8220;De Incarnatione Domini&amp;#8221; contra os nestorianos, recebeu Leão este elogio verdadeiramente singular para urn simples diácono: &amp;#8220;Honra da Igreja e do sacra ministério&amp;#8221;(1).&lt;br /&gt;
Quando o papa Sixto III morreu, o diácono Leão se encontrava nas Gálias em missão política a fim de resolver um entrevero entre o patrício Aécio e o prefeito do pretório, Albino. Nas palavras de João XXIII, &amp;#8220;foi, então, que a Igreja de Roma pensou que não se podia confiar o poder de Vigário de Cristo a homem melhor que o diácono Leão, que ja se revelara tanto teólogo seguro como fino diplomata. Recebeu, pois, a sagração episcopal a 29 de setembro de 440, e o seu pontificado foi um dos mais longos da antigüidade cristã, e indubitavelmente um dos mais gloriosos&amp;#8221;(2). Eram tempos difíceis tanto para a Igreja&amp;#8221;quanto para o império em decadência. Hordas de bárbaros atacavam e invadiam os territórios romanos. Internamente, reapareciam antigas heresias, surgia o monofisismo e a política de Bizâncio que visava a suplantar a velha Roma.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;strong&gt;2. Homem de ação&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Leão Magno era dotado daquilo que hoje se chama &amp;#8220;senso de administração&amp;#8221;. Empreendedor, empenhou-se, inteiramente, par salvaguardar a unidade da Igreja e proteger o povo romano da carnificina que os invasores costumavam executar. Neste sentido, moveu-se no plano político para salvar seus concidadãos das desgraças de cair nas mãos dos hunos e vândalos. Par esta razão, em 452 foi ao encontro de Átila, &amp;#8220;O Flagelo de Deus&amp;#8221;, em Mantua, negociando sua retirada da Itália, evitando que, na seqüência, Roma fosse tomada e ocupada. Três anos mais tarde, 455, suas negociações junto a Dutro invasor, Genserico, não alcançaram o mesmo sucesso: embora conseguisse que este general poupasse as vidas dos romanos, não evitou que Roma fosse, por quinze dias, pilhada.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;No interior da Igreja, aplicou toda a sua solicitude através das pregações, nas intervenções anti-heréticas, na organizações da liturgia e da vida monástica. Sua luta pela unidade e ortodoxia foi marcada por combate sem tréguas contra os hereges, perseguindo os maniqueus,(3) os pelagianos(4) e os priscilianistas(5).Para isso, apesar de sua diplomacia, não hesitou em apelar para a proteção das forças do império (Epist. 7; 11; 15). Assim, interveio para salvar a ordem na Igreja setentrional, na manutenção da disciplina eclesiástica. Com a mesma finalidade, suprimiu a liberdade das igrejas da Gália, aprovou os atos do concílio de Calcedônia (451), exceto o cânone que concedia a sede de Constantinopla prerrogativas de igualdade à sede romana. Em troca destes favores, concedeu aos imperadores o direito de convocar os concílios ecumênicos e de nomear presidentes sinodais (Epist. 29; 33; 34). Contudo, sempre reservou as questões de fé unicamente às autoridades eclesiásticas (Epist. 115).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Por tudo o que realizou passou para a história como o defensor da civilização ocidental e, ao lado de Gregório I, também cognomina do Magno (590-604), e considerado o maior papa da antiguidade cristã. A partir de sua atividade papal, a autoridade temporal e política da Igreja cresceu enormemente. Leão Magno morreu aos 10 de março de 461, venerado como santo. Bento XIV, em 1754, acrescentou-lhe ainda o título de &amp;#8220;Doutor da Igreja&amp;#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Notas&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;1 De vita et rebus gestis S.L.M., em PL 55, 187 B (trad. de D. Bernardo Botelho Nunes, O.S.B.).&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;2 JOAO XXIII,&amp;#8221; Aeterna Dei sapientia&amp;#8221;, em Revista Eclesiastica Brasileira 22, 1962, p. 191.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;3 O maniqueísmo é uma seita de salvação com vocação universal. Sua doutrina e urn dualismo radical formado com empréstimos das mitologias mazdeanas, gnósticas, cristãs e budistas. O mundo atual e o lugar onde se enfrentam dais princípios: as parcelas de Luz procuram se desprender das trevas e da matéria. Para lembrar as almas suas origens e sua destinação luminosa, Deus enviou os profetas, dos quais, o último é Mani. Perseguido pelo mazdeísmo, judaísmo, cristianismo, assim mesmo sobreviveu até a Idade Média, através dos cátaros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;4 Trata-se dos seguidores de Pelágio, monge bretão, que viveu por volta de 360. Sua doutrina defende a excelência da criação de Deus e o livre-arbítrio a respeito do pecado original e da graça. Foi combatido por Agostinho e condenado par vários concílios africanos e pelo de Éfeso, em 431.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;5 Seguidores de Prisciliano, urn leigo de alta condição e de notável capacidade. Por volta de 370-375, começou a pregar, na Espanha, uma doutrina ascética muito rígida, que teve grande sucesso, mas provocou a hostilidade de alguns bispos, especialmente, de Idazio e de Itácio. Estes não se deram par satisfeitos de verem Prisciliano condenado e decapitado por acusação de magia negra. Foi o primeiro heresiarca executado pelo poder secular. Embora condenado pelos concílios de Saragoça, em 380, de Bordeaux, em 384 e, finalmente, de Toledo, em 400, o priscilianismo sobreviveu na Espanha do Norte até o final do século V. Para uma visão mais completa destas e outras heresias surgidas até o século VII, cr. R. FRANGIOTTI, História das heresias (secs. I- VII): conflitos dentro do cristianismo, Paulus, 1995.&lt;/p&gt;
&lt;div&gt;&lt;/div&gt;
&lt;p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
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		<title>EXPLICAÇÃO DO SÍMBOLO, DE SANTO AMBRÓSIO</title>
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		<pubDate>Fri, 15 May 2009 01:55:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Lima</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Doutores da Igreja]]></category>

		<category><![CDATA[AMBRÓSIO]]></category>

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		<category><![CDATA[símbolo]]></category>

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		<description><![CDATA[Autor: Santo Ambrósio de Milão (Séc. IV)
Sobre a obra
Por Alessandro Lima
 
Durante o Concílio de Nicéia (325 DC) o Símbolo dos Apóstolos foi confirmado tornando-se então a base fundamental de toda doutrina Cristã.
Santo Ambrósio assim como outro Padres da Igreja, escreve uma obra dedicando-se à reflexão do Símbolo dos Apóstolos (conhecido entre os católicos como Credo).
Santo Ambrósio [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Autor</strong><strong>: </strong>Santo Ambrósio de Milão (Séc. IV)</p>
<p><strong>Sobre a obra</strong></p>
<p><em>Por Alessandro Lima</em></p>
<p> </p>
<p style="text-align: justify;">Durante o Concílio de Nicéia (325 DC) o Símbolo dos Apóstolos foi confirmado tornando-se então a base fundamental de toda doutrina Cristã.</p>
<p style="text-align: justify;">Santo Ambrósio assim como outro Padres da Igreja, escreve uma obra dedicando-se à reflexão do Símbolo dos Apóstolos (conhecido entre os católicos como Credo).</p>
<p style="text-align: justify;">Santo Ambrósio ensina que &#8220;Os santos apóstolos reunidos juntos fizeram um resumo da fé, a fim de que pudéssemos compreender brevemente o elenco de toda a nossa fé&#8221;.</p>
<p align="justify">Assim O Símbolos dos apóstolos é o Kerigma cristão, usado pelos apóstolos para evangelizar a terra.</p>
<p style="text-align: justify;">Santo Ambrósio comenta o Símbolo dos Apóstolos para defender a fé Católica e a verdadeira ortodoxia frente os hereges arianos, sabelianos. Santo Ambrósio reflete muito bem a fé da Igreja primitiva de que todo aquele que não confessa o Símbolo dos Apóstolos, não confessa a verdadeira fé. Ele também afirma: &#8220;devemos nos precaver muito mais para evitar que alguma coisa seja tirada do Símbolo dos anciãos&#8221;.</p>
<p style="text-align: justify;">No capítulo 7 Santo Ambrósio condena todos aqueles que querem usurpar a Verdade na fé Católica, fé que está confirmada no Símbolo dos Apóstolos, que é fielmente guardado pela Igreja Católica Romana. De fato ele afirma:</p>
<p style="text-align: justify;">&#8220;Se nada pode ser tirado ou acrescentado aos escritos de um só apóstolo, como poderíamos mutilar o símbolo que recebemos como tendo sido composto e transmitido pelos apóstolos? Nada devemos .! tirar e nada acrescentar. Este é o símbolo conservado pela Igreja romana, onde Pedro, o primeiro dos apóstolos, sentou-se e onde lhe conferiu a sentença comum.&#8221;</p>
<p align="justify">Neste trecho temos mais um testemunho antigo de que São Pedro foi Bispo de Roma e de que a Igreja Romana é fiel depositária da Verdade Cristã.</p>
<p align="justify">A confissão de fé na Santíssima Trindade é muito forte, bem como é forte a fé na Igreja. Para Santo Ambrósio é inútil crer no Pai se esta fé não gerar a fé na Igreja (&#8221;Pelo fato de que aquele que acredita no Criador, acredita também na obra do Criador&#8221;). Argumento semelhante ao de São Cipriano (&#8221;não se pode ter Deus por Pai se não tiver a Igreja por Mãe&#8221; (cf. A Unidade da Igreja Católica).</p>
<p align="justify">Também se confessa a fé na Remissão dos Pecados e na Ressurreição da Carte.</p>
<p align="justify"> </p>
<p align="justify"><strong>Texto</strong></p>
<p align="justify">
<p align="justify"><em>Tradução de Célia Mariana F. F. da Silva</em></p>
<p align="justify"> </p>
<p align="justify">1. Foram celebrados até hoje os mistérios dos escrutínios. Foi pesquisa do para que alguma impureza não fique ligada ao corpo de alguém. Pelo exorcismo, procurou-se e aplicou-se uma santificação não só do corpo, mas também da alma. Agora chegou o tempo e o dia de apresentar a tradição do símbolo, este símbolo que é um sinal espiritual, este símbolo que é objeto da meditação de nosso coração e como que salvaguarda sempre presente. De fato, é tesouro do nosso íntimo.</p>
<p align="justify"> </p>
<p align="justify">2. De início, precisamos receber a razão do próprio nome. Símbolo é termo grego que significa &#8220;contribuição&#8221;. Principalmente os comerciantes se acostumam a falar de contribuição quando ajuntam seu dinheiro e a soma assim reunida pela contribuição de cada um é conservada inteira e inviolável, se bem que ninguém ouse cometer fraude em relação à contribuição. Esse é o costume entre os próprios comerciantes para que, se alguém cometer fraude, seja rejeitado como fraudulento. Os santos apóstolos reunidos juntos fizeram um resumo da fé, a fim de que pudéssemos compreender brevemente o elenco de toda a nossa fé. A brevidade é necessária, para que ela seja sempre mantida na memória e na lembrança. Sei que principalmente em regiões do Oriente (acrescentaram coisas) àquelas que foram por primeiro transmitidas pelos nossos anciãos, uns por fraude, outros por zelo - os heréticos por fraude, os católicos por zelo. Aqueles, tentando esquivar-se fraudulentamente, acrescentaram o que não era devido, enquanto estes, esforçando-se para evitar a fraude, por certa piedade e imprudência, ultrapassaram os limites colocados pelos anciãos.</p>
<p align="justify"> </p>
<p align="justify">3. Os apóstolos, portanto, se reuniram e fizeram brevemente um símbolo. Persignai-vos. (Feito isso e tendo recitado o símbolo): Neste símbolo, está compreendida de maneira evidentíssima, a divindade da Trindade eterna: a operação única do Pai, do Filho e do Espírito Santo, da venerável Trindade, de modo que tal seja a nossa fé, que creiamos do mesmo modo no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Com efeito, onde não existe nenhuma distinção de majestade, também não deve haver distinção de fé. Por ou- tro lado, freqüentemente vos adverti que o nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, foi o único que tomou esta carne com alma humana racional e perfeita, e assumiu a forma do corpo. Ele se tornou como um homem na verda- de deste corpo, mas tem um privilégio singular de sua geração. De fato, não nasceu do sêmen de homem, mas, como se diz, foi gerado da virgem Maria pelo Espírito Santo. Reconheces (nisso) o privilégio do autor celeste? Tornado, portanto, como homem para assumir nossas enfermidades em sua carne, mas veio com o privilégio da majestade eterna. Recitemos, portanto, o símbolo. (Depois de recitado, assim continuou): Eis o conteúdo da Escritura divina. Deveríamos audaciosamente ultrapassar os limites (postos) pelos apóstolos? Acaso somos mais prudentes do que os apóstolos?</p>
<p align="justify"> </p>
<p align="justify">4. Tu me dirás: Em seguida surgiram as heresias. De fato, também o Apóstolo diz: &#8220;É necessário que haja heresias, para que os bons sejam provados&#8221; (1Cor 11,19). O que dizer, portanto? Vede a simplicidade, vede-a pureza. Quando surgiram os patripassianos, também os católicos desta região julgaram que se devia acrescentar invisível e impassível, como se o Filho de Deus fosse visível e passível. Se ele foi visível na carne, essa carne é que foi visível, não a divindade, a carne é que foi passível, não a divindade. Além disso, escuta o que ele diz: &#8220;Deus, meu Deus, olha para mim; por que me abandonaste?&#8221; (SI 21,2; cf. Mt 27,46). Nosso Senhor Jesus Cristo disse isso na paixão. Disse isso enquanto homem, enquanto carne, como se a carne dissesse à divindade: &#8220;Por que me abandonas-te?&#8221; Suponhamos que os nossos anciãos tenham sido médicos, que eles quiseram trazer saúde à doença mediante o remédio. Não se pergunta se o remédio não foi necessário naquele tempo em que as almas de certos hereges estavam com doença grave; se naquele tempo foi necessário, agora não o é. Por qual razão? Tendo sido conservada íntegra a fé contra os sabelianos, os sabelianos foram expulsos, principalmente das regiões do Ocidente. Os arianos encontraram para si nesse remédio uma espécie de calúnia, de modo que, enquanto conservamos o símbolo da Igreja romana, eles consideraram o Pai todo-poderoso invisível e impassível e disseram: &#8220;Vês que o símbolo é isso&#8221;, e assim demonstraram que o Filho é visível e passível. O que quer dizer isso? Onde a fé se mantém íntegra são suficientes os mandamentos dos apóstolos; não se têm necessidade de garantias, mesmo dos sacerdotes. Por quê? Porque o joio está misturado ao trigo.</p>
<p align="justify"> </p>
<p align="justify">5. Eis o símbolo: &#8220;Creio&#8230; único, nosso Senhor.&#8221; Dizei assim: seu Filho único. &#8220;Não único Senhor&#8221;. Deus é um, único e Senhor. Mas não caluniem dizendo que afirma- mos que o Filho é uma única pessoa: &#8220;E em&#8230; único, nosso Senhor&#8221;. Tendo falado da divindade do Pai e do Filho, chega-se à encarnação deste: &#8220;Que nasceu&#8230; e foi sepultado&#8221;. Tens aqui a paixão e a sepultura dele. &#8220;No terceiro dia&#8230; dos mortos&#8221;. Tens aqui também a ressurreição dele. &#8220;Subiu&#8230; está sentado à direita do Pai&#8221;. Vês, portanto, que a carne em nada pode diminuir a divindade; ao contrário, pela encarnação Cristo conseguiu um grande triunfo. Com efeito, por que motivo, depois que se levantou da morte, ele está sentado à direita do Pai? Ele como que devolveu ao Pai o fruto da boa vontade. Tens duas coisas: ele ressuscitou da morte e está sentado à direita do Pai. Portanto, em nada a carne pode causar detrimento à glória da divindade. Tens duas coisas: ou nosso Senhor Jesus Cristo está sentado à direita e ressuscitou da morte graças à prerrogativa da divindade e da substância de sua geração, ou certamente como triunfador eterno, que adquiriu um bom reino para Deus Pai, ele reivindicou para si mesmo a prerrogativa de sua vitória. &#8220;Está sentado à direita do Pai&#8230; e os mortos&#8221;. Escuta, homem. Deves, portanto, crer nisso logo. A própria fé brota da caridade. Quem ama nada retira. O amigo que ama seu amigo nada tira dele. Quem ama o Senhor, com maior razão nada deve tirar dele. Por que digo: &#8220;está sentado&#8221;? Aquele que ama também tem algo a temer: &#8220;De onde&#8230; e os mortos&#8221;. É ele que nos julgará. Toma cuidado, portanto, em não tirar nada daquele que será nosso juiz. Por que esse mistério? Não haverá um só julgamento do Pai, do Filho e do Espírito Santo? Não haverá uma só vontade, não haverá uma só majestade? Por que te dizem que o Filho julgará, senão para que entendas que nada deve ser tirado do Filho? Vê, portanto: crês no Pai, crês também no Filho. E o que em terceiro lugar? &#8220;E no Espírito Santo&#8221;. Todos os &#8221; sacramentos que recebes, tu os recebes nessa Trindade. Que ninguém te engane. Vês, portanto, que existe uma única operação, uma única santificação, uma só majestade da venerável Trindade.</p>
<p align="justify"> </p>
<p align="justify">6. Recebe sadiamente o motivo pelo qual cremos Criador, para não dizeres: Mas há também a Igreja, há tam bém a remissão dos pecados, e há também a ressurreição. Que dizer disso? O motivo é o mesmo: cremos no Pai, cremos no Filho da mesma forma que cremos na Igreja, na remissão dos pecados e na ressurreição da carne. Por qual motivo? Pelo fato de que aquele que acredita no Criador, acredita também na obra do Criador. Por outro lado, para que não julgueis que se trata de invenção nossa, recebei o testemunho: &#8220;Se não credes em mim, crede ao menos nas obras&#8221; (Jo 10,38). Sabes disso. Agora a tua fé brilhará mais se julgares que a fé verdadeira e íntegra deve se estender à obra do Criador, à santa Igreja e à remissão dos pecados. Crê, portanto, que em virtude da fé todos os teus pecados serão perdoados. De fato, leste no Evangelho que o Senhor diz: &#8220;A tua fé te salvou&#8221; (Mt 9,22; Mc 10,52; Lc 17,19). &#8220;Na remissão&#8230; e na ressurreição.&#8221; Crê que também a carne ressuscitará. Com efeito, por que foi necessário que Cristo assumisse a carne? Por que foi necessário que Cristo experimentasse a morte, recebesse a sepultura e ressurgisse, senão em vista da tua ressurreição? &#8220;Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé&#8221; (lCor 15,14). Todavia, porque ele ressuscitou, a nossa fé é firme.</p>
<p align="justify"> </p>
<p align="justify">7. Eu disse que os apóstolos compuseram o Símbolo. Portanto, se os comerciantes que fazem tais negócios e os contribuintes de dinheiro têm a lei que considera desonesto e indigno de crédito aquele que violou a sua contribuição, devemos nos precaver muito mais para evitar que alguma coisa seja tirada do Símbolo dos anciãos. Com efeito, tens no livro do Apocalipse de João -livro que está no Cânon e que provê um grande fundamento para a fé, pois relembra aí com clareza que nosso Senhor Je- sus Cristo é onipotente, embora também isso se encontre em outros lugares -tens nesse livro: &#8220;Se alguém acrescentar ou tirar alguma coisa, sofrerá o julgamento e o castigo&#8221; (cfAp. 22,18-19). Se nada pode ser tirado ou acrescentado aos escritos de um só apóstolo, como poderíamos mutilar o símbolo que recebemos como tendo sido ..composto e transmitido pelos apóstolos? Nada devemos .! tirar e nada acrescentar. Este é o símbolo conservado pela Igreja romana, onde Pedro, o primeiro dos apóstolos, sentou-se e onde lhe conferiu a sentença comum.</p>
<p align="justify"> </p>
<p align="justify">8. Assim, como há doze apóstolos, há também doze artigos. Persignai-vos (Feito isso): &#8220;Creio&#8230; da virgem&#8221;. Tens a divindade do Pai, a divindade do Filho, tens a encarnação do Filho, conforme eu disse. &#8220;Sob&#8230; sepultado&#8221;. Tens a paixão, a morte e o sepul- tamento. Esses são quatro artigos. Vejamos os outros. &#8220;No terceiro dia&#8230; e os mortos&#8221;. Esses são os outros quatro artigos, perfazendo assim oito artigos. Vejamos ainda os outros quatro artigos: &#8220;E no Espírito Santo&#8230; na ressurreição&#8221;. Portanto, conforme os doze apóstolos, foram compostos doze artigos.</p>
<p align="justify"> </p>
<p align="justify">9. Quero avisá-los bem do seguinte: o símbolo não deve ser escrito. Deveis repeti-lo, mas ninguém o escreva. Por que motivo? Foi-nos transmitido que não deveria ser escrito. O que fazer então? Retê-lo de cor. Tu, porém, me dizes: &#8220;Como é possível retê-lo sem escrevê-lo?&#8221; Pode-se retê-lo melhor se não se escreve. Por que razão? É o seguinte. O que escreves, seguro de que o relerás, não te aplicarás em examiná-lo pela meditação diária. O que, porém, não escreves, terás medo de esquecê-lo e daí o repassarás todo dia. Isso é uma grande segurança. Se sobrevierem entorpecimentos da alma e do corpo, tentação do adversário, que nunca descansa, algum tremor do corpo, doença do estômago, repete o símbolo, e ficarás curado. Repete principalmente no teu íntimo, dentro de ti. Por quê? Para que não adquiras o hábito de repeti-lo muito alto sozinho onde estão os fiéis, comeces a repeti-lo entre os catecúmenos ou hereges.</p>
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&lt;p&gt;&lt;strong&gt;Sobre a obra&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;Por Alessandro Lima&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Durante o Concílio de Nicéia (325 DC) o Símbolo dos Apóstolos foi confirmado tornando-se então a base fundamental de toda doutrina Cristã.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Santo Ambrósio assim como outro Padres da Igreja, escreve uma obra dedicando-se à reflexão do Símbolo dos Apóstolos (conhecido entre os católicos como Credo).&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Santo Ambrósio ensina que &amp;#8220;Os santos apóstolos reunidos juntos fizeram um resumo da fé, a fim de que pudéssemos compreender brevemente o elenco de toda a nossa fé&amp;#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Assim O Símbolos dos apóstolos é o Kerigma cristão, usado pelos apóstolos para evangelizar a terra.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Santo Ambrósio comenta o Símbolo dos Apóstolos para defender a fé Católica e a verdadeira ortodoxia frente os hereges arianos, sabelianos. Santo Ambrósio reflete muito bem a fé da Igreja primitiva de que todo aquele que não confessa o Símbolo dos Apóstolos, não confessa a verdadeira fé. Ele também afirma: &amp;#8220;devemos nos precaver muito mais para evitar que alguma coisa seja tirada do Símbolo dos anciãos&amp;#8221;.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;No capítulo 7 Santo Ambrósio condena todos aqueles que querem usurpar a Verdade na fé Católica, fé que está confirmada no Símbolo dos Apóstolos, que é fielmente guardado pela Igreja Católica Romana. De fato ele afirma:&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&amp;#8220;Se nada pode ser tirado ou acrescentado aos escritos de um só apóstolo, como poderíamos mutilar o símbolo que recebemos como tendo sido composto e transmitido pelos apóstolos? Nada devemos .! tirar e nada acrescentar. Este é o símbolo conservado pela Igreja romana, onde Pedro, o primeiro dos apóstolos, sentou-se e onde lhe conferiu a sentença comum.&amp;#8221;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Neste trecho temos mais um testemunho antigo de que São Pedro foi Bispo de Roma e de que a Igreja Romana é fiel depositária da Verdade Cristã.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;A confissão de fé na Santíssima Trindade é muito forte, bem como é forte a fé na Igreja. Para Santo Ambrósio é inútil crer no Pai se esta fé não gerar a fé na Igreja (&amp;#8221;Pelo fato de que aquele que acredita no Criador, acredita também na obra do Criador&amp;#8221;). Argumento semelhante ao de São Cipriano (&amp;#8221;não se pode ter Deus por Pai se não tiver a Igreja por Mãe&amp;#8221; (cf. A Unidade da Igreja Católica).&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;Também se confessa a fé na Remissão dos Pecados e na Ressurreição da Carte.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;strong&gt;Texto&lt;/strong&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;&lt;em&gt;Tradução de Célia Mariana F. F. da Silva&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;1. Foram celebrados até hoje os mistérios dos escrutínios. Foi pesquisa do para que alguma impureza não fique ligada ao corpo de alguém. Pelo exorcismo, procurou-se e aplicou-se uma santificação não só do corpo, mas também da alma. Agora chegou o tempo e o dia de apresentar a tradição do símbolo, este símbolo que é um sinal espiritual, este símbolo que é objeto da meditação de nosso coração e como que salvaguarda sempre presente. De fato, é tesouro do nosso íntimo.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;2. De início, precisamos receber a razão do próprio nome. Símbolo é termo grego que significa &amp;#8220;contribuição&amp;#8221;. Principalmente os comerciantes se acostumam a falar de contribuição quando ajuntam seu dinheiro e a soma assim reunida pela contribuição de cada um é conservada inteira e inviolável, se bem que ninguém ouse cometer fraude em relação à contribuição. Esse é o costume entre os próprios comerciantes para que, se alguém cometer fraude, seja rejeitado como fraudulento. Os santos apóstolos reunidos juntos fizeram um resumo da fé, a fim de que pudéssemos compreender brevemente o elenco de toda a nossa fé. A brevidade é necessária, para que ela seja sempre mantida na memória e na lembrança. Sei que principalmente em regiões do Oriente (acrescentaram coisas) àquelas que foram por primeiro transmitidas pelos nossos anciãos, uns por fraude, outros por zelo - os heréticos por fraude, os católicos por zelo. Aqueles, tentando esquivar-se fraudulentamente, acrescentaram o que não era devido, enquanto estes, esforçando-se para evitar a fraude, por certa piedade e imprudência, ultrapassaram os limites colocados pelos anciãos.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;3. Os apóstolos, portanto, se reuniram e fizeram brevemente um símbolo. Persignai-vos. (Feito isso e tendo recitado o símbolo): Neste símbolo, está compreendida de maneira evidentíssima, a divindade da Trindade eterna: a operação única do Pai, do Filho e do Espírito Santo, da venerável Trindade, de modo que tal seja a nossa fé, que creiamos do mesmo modo no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Com efeito, onde não existe nenhuma distinção de majestade, também não deve haver distinção de fé. Por ou- tro lado, freqüentemente vos adverti que o nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, foi o único que tomou esta carne com alma humana racional e perfeita, e assumiu a forma do corpo. Ele se tornou como um homem na verda- de deste corpo, mas tem um privilégio singular de sua geração. De fato, não nasceu do sêmen de homem, mas, como se diz, foi gerado da virgem Maria pelo Espírito Santo. Reconheces (nisso) o privilégio do autor celeste? Tornado, portanto, como homem para assumir nossas enfermidades em sua carne, mas veio com o privilégio da majestade eterna. Recitemos, portanto, o símbolo. (Depois de recitado, assim continuou): Eis o conteúdo da Escritura divina. Deveríamos audaciosamente ultrapassar os limites (postos) pelos apóstolos? Acaso somos mais prudentes do que os apóstolos?&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;4. Tu me dirás: Em seguida surgiram as heresias. De fato, também o Apóstolo diz: &amp;#8220;É necessário que haja heresias, para que os bons sejam provados&amp;#8221; (1Cor 11,19). O que dizer, portanto? Vede a simplicidade, vede-a pureza. Quando surgiram os patripassianos, também os católicos desta região julgaram que se devia acrescentar invisível e impassível, como se o Filho de Deus fosse visível e passível. Se ele foi visível na carne, essa carne é que foi visível, não a divindade, a carne é que foi passível, não a divindade. Além disso, escuta o que ele diz: &amp;#8220;Deus, meu Deus, olha para mim; por que me abandonaste?&amp;#8221; (SI 21,2; cf. Mt 27,46). Nosso Senhor Jesus Cristo disse isso na paixão. Disse isso enquanto homem, enquanto carne, como se a carne dissesse à divindade: &amp;#8220;Por que me abandonas-te?&amp;#8221; Suponhamos que os nossos anciãos tenham sido médicos, que eles quiseram trazer saúde à doença mediante o remédio. Não se pergunta se o remédio não foi necessário naquele tempo em que as almas de certos hereges estavam com doença grave; se naquele tempo foi necessário, agora não o é. Por qual razão? Tendo sido conservada íntegra a fé contra os sabelianos, os sabelianos foram expulsos, principalmente das regiões do Ocidente. Os arianos encontraram para si nesse remédio uma espécie de calúnia, de modo que, enquanto conservamos o símbolo da Igreja romana, eles consideraram o Pai todo-poderoso invisível e impassível e disseram: &amp;#8220;Vês que o símbolo é isso&amp;#8221;, e assim demonstraram que o Filho é visível e passível. O que quer dizer isso? Onde a fé se mantém íntegra são suficientes os mandamentos dos apóstolos; não se têm necessidade de garantias, mesmo dos sacerdotes. Por quê? Porque o joio está misturado ao trigo.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;5. Eis o símbolo: &amp;#8220;Creio&amp;#8230; único, nosso Senhor.&amp;#8221; Dizei assim: seu Filho único. &amp;#8220;Não único Senhor&amp;#8221;. Deus é um, único e Senhor. Mas não caluniem dizendo que afirma- mos que o Filho é uma única pessoa: &amp;#8220;E em&amp;#8230; único, nosso Senhor&amp;#8221;. Tendo falado da divindade do Pai e do Filho, chega-se à encarnação deste: &amp;#8220;Que nasceu&amp;#8230; e foi sepultado&amp;#8221;. Tens aqui a paixão e a sepultura dele. &amp;#8220;No terceiro dia&amp;#8230; dos mortos&amp;#8221;. Tens aqui também a ressurreição dele. &amp;#8220;Subiu&amp;#8230; está sentado à direita do Pai&amp;#8221;. Vês, portanto, que a carne em nada pode diminuir a divindade; ao contrário, pela encarnação Cristo conseguiu um grande triunfo. Com efeito, por que motivo, depois que se levantou da morte, ele está sentado à direita do Pai? Ele como que devolveu ao Pai o fruto da boa vontade. Tens duas coisas: ele ressuscitou da morte e está sentado à direita do Pai. Portanto, em nada a carne pode causar detrimento à glória da divindade. Tens duas coisas: ou nosso Senhor Jesus Cristo está sentado à direita e ressuscitou da morte graças à prerrogativa da divindade e da substância de sua geração, ou certamente como triunfador eterno, que adquiriu um bom reino para Deus Pai, ele reivindicou para si mesmo a prerrogativa de sua vitória. &amp;#8220;Está sentado à direita do Pai&amp;#8230; e os mortos&amp;#8221;. Escuta, homem. Deves, portanto, crer nisso logo. A própria fé brota da caridade. Quem ama nada retira. O amigo que ama seu amigo nada tira dele. Quem ama o Senhor, com maior razão nada deve tirar dele. Por que digo: &amp;#8220;está sentado&amp;#8221;? Aquele que ama também tem algo a temer: &amp;#8220;De onde&amp;#8230; e os mortos&amp;#8221;. É ele que nos julgará. Toma cuidado, portanto, em não tirar nada daquele que será nosso juiz. Por que esse mistério? Não haverá um só julgamento do Pai, do Filho e do Espírito Santo? Não haverá uma só vontade, não haverá uma só majestade? Por que te dizem que o Filho julgará, senão para que entendas que nada deve ser tirado do Filho? Vê, portanto: crês no Pai, crês também no Filho. E o que em terceiro lugar? &amp;#8220;E no Espírito Santo&amp;#8221;. Todos os &amp;#8221; sacramentos que recebes, tu os recebes nessa Trindade. Que ninguém te engane. Vês, portanto, que existe uma única operação, uma única santificação, uma só majestade da venerável Trindade.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;6. Recebe sadiamente o motivo pelo qual cremos Criador, para não dizeres: Mas há também a Igreja, há tam bém a remissão dos pecados, e há também a ressurreição. Que dizer disso? O motivo é o mesmo: cremos no Pai, cremos no Filho da mesma forma que cremos na Igreja, na remissão dos pecados e na ressurreição da carne. Por qual motivo? Pelo fato de que aquele que acredita no Criador, acredita também na obra do Criador. Por outro lado, para que não julgueis que se trata de invenção nossa, recebei o testemunho: &amp;#8220;Se não credes em mim, crede ao menos nas obras&amp;#8221; (Jo 10,38). Sabes disso. Agora a tua fé brilhará mais se julgares que a fé verdadeira e íntegra deve se estender à obra do Criador, à santa Igreja e à remissão dos pecados. Crê, portanto, que em virtude da fé todos os teus pecados serão perdoados. De fato, leste no Evangelho que o Senhor diz: &amp;#8220;A tua fé te salvou&amp;#8221; (Mt 9,22; Mc 10,52; Lc 17,19). &amp;#8220;Na remissão&amp;#8230; e na ressurreição.&amp;#8221; Crê que também a carne ressuscitará. Com efeito, por que foi necessário que Cristo assumisse a carne? Por que foi necessário que Cristo experimentasse a morte, recebesse a sepultura e ressurgisse, senão em vista da tua ressurreição? &amp;#8220;Se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé&amp;#8221; (lCor 15,14). Todavia, porque ele ressuscitou, a nossa fé é firme.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;7. Eu disse que os apóstolos compuseram o Símbolo. Portanto, se os comerciantes que fazem tais negócios e os contribuintes de dinheiro têm a lei que considera desonesto e indigno de crédito aquele que violou a sua contribuição, devemos nos precaver muito mais para evitar que alguma coisa seja tirada do Símbolo dos anciãos. Com efeito, tens no livro do Apocalipse de João -livro que está no Cânon e que provê um grande fundamento para a fé, pois relembra aí com clareza que nosso Senhor Je- sus Cristo é onipotente, embora também isso se encontre em outros lugares -tens nesse livro: &amp;#8220;Se alguém acrescentar ou tirar alguma coisa, sofrerá o julgamento e o castigo&amp;#8221; (cfAp. 22,18-19). Se nada pode ser tirado ou acrescentado aos escritos de um só apóstolo, como poderíamos mutilar o símbolo que recebemos como tendo sido ..composto e transmitido pelos apóstolos? Nada devemos .! tirar e nada acrescentar. Este é o símbolo conservado pela Igreja romana, onde Pedro, o primeiro dos apóstolos, sentou-se e onde lhe conferiu a sentença comum.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;8. Assim, como há doze apóstolos, há também doze artigos. Persignai-vos (Feito isso): &amp;#8220;Creio&amp;#8230; da virgem&amp;#8221;. Tens a divindade do Pai, a divindade do Filho, tens a encarnação do Filho, conforme eu disse. &amp;#8220;Sob&amp;#8230; sepultado&amp;#8221;. Tens a paixão, a morte e o sepul- tamento. Esses são quatro artigos. Vejamos os outros. &amp;#8220;No terceiro dia&amp;#8230; e os mortos&amp;#8221;. Esses são os outros quatro artigos, perfazendo assim oito artigos. Vejamos ainda os outros quatro artigos: &amp;#8220;E no Espírito Santo&amp;#8230; na ressurreição&amp;#8221;. Portanto, conforme os doze apóstolos, foram compostos doze artigos.&lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p align=&quot;justify&quot;&gt;9. Quero avisá-los bem do seguinte: o símbolo não deve ser escrito. Deveis repeti-lo, mas ninguém o escreva. Por que motivo? Foi-nos transmitido que não deveria ser escrito. O que fazer então? Retê-lo de cor. Tu, porém, me dizes: &amp;#8220;Como é possível retê-lo sem escrevê-lo?&amp;#8221; Pode-se retê-lo melhor se não se escreve. Por que razão? É o seguinte. O que escreves, seguro de que o relerás, não te aplicarás em examiná-lo pela meditação diária. O que, porém, não escreves, terás medo de esquecê-lo e daí o repassarás todo dia. Isso é uma grande segurança. Se sobrevierem entorpecimentos da alma e do corpo, tentação do adversário, que nunca descansa, algum tremor do corpo, doença do estômago, repete o símbolo, e ficarás curado. Repete principalmente no teu íntimo, dentro de ti. Por quê? Para que não adquiras o hábito de repeti-lo muito alto sozinho onde estão os fiéis, comeces a repeti-lo entre os catecúmenos ou hereges.&lt;/p&gt;
">
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		<title>SERMÃO DA VIGÍLIA DA PÁSCOA, DE SANTO AGOSTINHO</title>
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		<pubDate>Fri, 15 May 2009 01:30:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alessandro Lima</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Doutores da Igreja]]></category>

		<category><![CDATA[agostinho]]></category>

		<category><![CDATA[páscoa]]></category>

		<category><![CDATA[sermão]]></category>

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		<description><![CDATA[Autor: Santo Agostinho, séc. IV
Fonte: &#8220;Antologia dos Santos Padres&#8221;
Tradução: Cirilo Folch Gomes
 
O bem-aventurado apóstolo Paulo, exortando-nos a que o imitemos, dá entre outros sinais de sua virtude o seguinte: &#8220;freqüente nas vigílias&#8221; [2Cor 11,27].

Com quanto maior júbilo não devemos também nós vigiar nesta vigília, que é como a mãe de todas as santas vigílias, e na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: justify;"><strong>Autor:</strong><em> Santo Agostinho, séc. IV</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Fonte</strong>: <em>&#8220;Antologia dos Santos Padres&#8221;</em></p>
<p style="text-align: justify;"><strong>Tradução:</strong> <em>Cirilo Folch Gomes</em></p>
<p style="text-align: justify;"> </p>
<p style="text-align: justify;"><span style="font-family: 'times new roman'; color: #000000; font-size: small;">O bem-aventurado apóstolo Paulo, exortando-nos a que o imitemos, dá entre outros sinais de sua virtude o seguinte: &#8220;freqüente nas vigílias&#8221; [2Cor 11,27].</span></p>
<p><span style="font-family: 'times new roman'; color: #000000; font-size: small;"></p>
<p style="text-align: justify;">Com quanto maior júbilo não devemos também nós vigiar nesta vigília, que é como a mãe de todas as santas vigílias, e na qual o mundo todo vigia?</p>
<p style="text-align: justify;">Não o mundo, do qual está escrito: &#8220;Se alguém amar o mundo, nele não está a caridade do Pai, pois tudo o que há no mundo é concupiscência dos olhos e ostentação do século, e isto não procede do pai&#8221; [1Jo 2,15].</p>
<p style="text-align: justify;">Sobre tal mundo, isto é, sobre os filhos da iniqüidade, reinam o demônio e seus anjos. E o Apóstolo diz que é contra estes que se dirige a nossa luta: &#8220;Não contra a carne e o sangue temos de lutar, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores do mundo destas trevas&#8221; [Ef 6,12].</p>
<p style="text-align: justify;">Ora, maus assim fomos nós também, uma vez; agora, porém, somos luz no Senhor. Na Luz da Vigília resistamos, pois, aos dominadores das trevas.</p>
<p style="text-align: justify;">Não é, portanto, esse o mundo que vigia na solenidade de hoje, iras aquele do qual está escrito: &#8220;Deus estava reconciliando consigo o mundo, em Cristo, não lhe imputando os seus pecados&#8221; [2Cor 5,19].</p>
<p style="text-align: justify;">E é tão gloriosa a celebridade desta vigília, que compele a vigiarem na carne mesmo os que, no coração, não digo dormirem, mas até jazerem sepultos na impiedade do tártaro. Vigiam também eles esta noite, na qual visivelmente se cumpre o que tanto tempo antes fora prometido: &#8220;E a noite se iluminará como o dia&#8221; [Sl 138,12]. Realiza-se isto nos corações piedosos, dos quais se disse: &#8220;Fostes outrora trevas, mas agora sois luz no Senhor&#8221;. Realiza-se isto também nos que zelam por todos, seja vendo-os no Senhor, seja invejando ao Senhor. Vigiam, pois, esta noite, o mundo inimigo e o mundo reconciliado. Este, liberto, para louvar o seu Médico; aquele, condenado, para blasfemar o seu juiz. Vigia um, nas mentes piedosas, ferventes e luminosas; vigia o outro, rangendo os dentes e consumindo-se. Enfim, ao primeiro é a caridade que lhe não permite dormir, ao segundo, a iniqüidade; ao primeiro, o vigor cristão, ao segundo o diabólico. Portanto, pelos nossos próprios inimigos sem o saberem eles, somos advertidos de como devamos estar hoje vigiando por nós, se por causa de nós não dormem também os que nos invejam.</p>
<p style="text-align: justify;">Dentre ainda os que não estão assinalados com o nome de cristãos, muitos são os que não dormem esta noite por causa da dor, ou por vergonha. Dentre os que se aproximam da fé, há os que não dormem por temor. Por motivos vários, pois, convida hoje à vigília a solenidade (da Páscoa), Por isso, como não deve vigiar com alegria aquele que é amigo de Cristo, se até o inimigo o faz, embora contrariado? Como não deve arder o cristão por vigiar, nessa glorificação tão grande de Cristo, se até o pagão se en- vergonha de dormir? Como não deve vigiar em sua solenidade, o que já ingressou nesta grande Casa, se até o que apenas pretende nela ingressar já vigia?</p>
<p style="text-align: justify;">Vigiemos, e oremos; para que tanto exteriormente quanto interiormente celebremos esta Vigília. Deus nos falará durante as leituras; falemo-lhe também nós em nossas preces. Se ouvimos obedientemente as suas palavras, em nós habita Aquele a quem oramos.</p>
<p></span></p>
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&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: 'times new roman'; color: #000000; font-size: small;&quot;&gt;O bem-aventurado apóstolo Paulo, exortando-nos a que o imitemos, dá entre outros sinais de sua virtude o seguinte: &amp;#8220;freqüente nas vigílias&amp;#8221; [2Cor 11,27].&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span style=&quot;font-family: 'times new roman'; color: #000000; font-size: small;&quot;&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Com quanto maior júbilo não devemos também nós vigiar nesta vigília, que é como a mãe de todas as santas vigílias, e na qual o mundo todo vigia?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Não o mundo, do qual está escrito: &amp;#8220;Se alguém amar o mundo, nele não está a caridade do Pai, pois tudo o que há no mundo é concupiscência dos olhos e ostentação do século, e isto não procede do pai&amp;#8221; [1Jo 2,15].&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Sobre tal mundo, isto é, sobre os filhos da iniqüidade, reinam o demônio e seus anjos. E o Apóstolo diz que é contra estes que se dirige a nossa luta: &amp;#8220;Não contra a carne e o sangue temos de lutar, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores do mundo destas trevas&amp;#8221; [Ef 6,12].&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Ora, maus assim fomos nós também, uma vez; agora, porém, somos luz no Senhor. Na Luz da Vigília resistamos, pois, aos dominadores das trevas.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Não é, portanto, esse o mundo que vigia na solenidade de hoje, iras aquele do qual está escrito: &amp;#8220;Deus estava reconciliando consigo o mundo, em Cristo, não lhe imputando os seus pecados&amp;#8221; [2Cor 5,19].&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;E é tão gloriosa a celebridade desta vigília, que compele a vigiarem na carne mesmo os que, no coração, não digo dormirem, mas até jazerem sepultos na impiedade do tártaro. Vigiam também eles esta noite, na qual visivelmente se cumpre o que tanto tempo antes fora prometido: &amp;#8220;E a noite se iluminará como o dia&amp;#8221; [Sl 138,12]. Realiza-se isto nos corações piedosos, dos quais se disse: &amp;#8220;Fostes outrora trevas, mas agora sois luz no Senhor&amp;#8221;. Realiza-se isto também nos que zelam por todos, seja vendo-os no Senhor, seja invejando ao Senhor. Vigiam, pois, esta noite, o mundo inimigo e o mundo reconciliado. Este, liberto, para louvar o seu Médico; aquele, condenado, para blasfemar o seu juiz. Vigia um, nas mentes piedosas, ferventes e luminosas; vigia o outro, rangendo os dentes e consumindo-se. Enfim, ao primeiro é a caridade que lhe não permite dormir, ao segundo, a iniqüidade; ao primeiro, o vigor cristão, ao segundo o diabólico. Portanto, pelos nossos próprios inimigos sem o saberem eles, somos advertidos de como devamos estar hoje vigiando por nós, se por causa de nós não dormem também os que nos invejam.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Dentre ainda os que não estão assinalados com o nome de cristãos, muitos são os que não dormem esta noite por causa da dor, ou por vergonha. Dentre os que se aproximam da fé, há os que não dormem por temor. Por motivos vários, pois, convida hoje à vigília a solenidade (da Páscoa), Por isso, como não deve vigiar com alegria aquele que é amigo de Cristo, se até o inimigo o faz, embora contrariado? Como não deve arder o cristão por vigiar, nessa glorificação tão grande de Cristo, se até o pagão se en- vergonha de dormir? Como não deve vigiar em sua solenidade, o que já ingressou nesta grande Casa, se até o que apenas pretende nela ingressar já vigia?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify;&quot;&gt;Vigiemos, e oremos; para que tanto exteriormente quanto interiormente celebremos esta Vigília. Deus nos falará durante as leituras; falemo-lhe também nós em nossas preces. Se ouvimos obedientemente as suas palavras, em nós habita Aquele a quem oramos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
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		<title>O PASTOR DE HERMAS DE ROMA</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Apr 2009 23:00:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Sousa</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[Por Hermas de Roma (Séc. II)
Sobre a obra
Por Rafael Sousa

Hermas era um comerciante cristão de condições bem simples. Para Eusébio e Orígenes era o mesmo Hermas que São Paulo cita (Romanos 16,14).
Hermas escreveu uma obra chamada &#8220;O Pastor de Hermas&#8221; que segue o padrão apocalíptico. É uma obra de forte chamado a penitência.
Texto
Visões
Primeira Visão
Capítulo 1
Meu [...]]]></description>
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